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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Escola no mundo: a leitura e a escrita com preocupação social

                           
                Paulo Freire, um dos grande educadores brasileiros, salientava a importância da leitura de mundo e até hoje sua voz ecoa para nos fazer lembrar que não basta a leitura da palavra.
            Quando os alunos saem da sala e partem para o mundo eles leem os sinais de trânsito, as fisionomias das pessoas, o comércio, os problemas ambientais e sociais e tudo quanto o mediador, que é o professor, orientar a ver. O que era despercebido por um transeunte comum que passa pelas ruas sem notá-las ganha outro apreço por aqueles que começam a se sensibilizar com o que antes era banal.
 Por fim, mesmo que o professor não direcione, os próprios estudantes começarão a enxergar um bueiro entupido, uma rua esburacada, um terreno baldio invadido pelo lixo, a falta de médicos num posto de saúde e passarão a refletir sobre o seu papel no mundo diante de várias questões: O que acontece diante desses problemas? A quem atrapalha? Como se pode evitar? Quem são os responsáveis pela conservação e fiscalização? Como se pode acionar para que cumpram essa responsabilidade?
Ao iniciar o aprendizado de leitura e escrita o aluno inicialmente vê o que é mais comum e numa palavra tal qual BEXIGA, a Beatriz enxergará o BE, a Isabela o I e a Gabriela o GA. Assim ocorre na nossa visão de mundo: estamos presos no corriqueiro e precisamos dos desafios e da ousadia para alargar nossa perspectiva. Daí a importância da leitura.
Lemos para interpretar, compreender, contribuir na formação de nossa consciência e de criticidade. Ler o mundo é uma prática que tal qual a alfabetização deve ser um processo ensinado, no qual se possibilita a reflexão do chão onde se pisa, valora a luta dos seus e ao mesmo tempo compreende as denúncias e discordâncias que devem ser feitas.
É um caminhar porque leitura de mundo não pode ser imposta, não se aprende por mera absorção. Faz-se no dia a dia com criação de possibilidades que levem ao questionamento, recordando sempre que a escola está no mundo e o aprender deve servir para alterar o convencional, superar preconceitos, medos, mazelas e as ignorâncias de toda ordem.
Alterar o convencional pode iniciar-se com sair da sala de aula, lembrar que o conhecimento está em toda parte, sentir-se no mundo e responsável por ele. Diferente do ensino da leitura da palavra que encerra quando o aluno domina a escrita ortográfica, a leitura de mundo é contínua e continuamente somos atravessados por ela, não somente crianças, mas nós também adultos. Uma professora, inicialmente resistente em fazer uma visita à biblioteca do bairro, teve sua leitura de mundo alterada quando diz que adorou essa aula passeio. Percebeu o quanto a comunidade recebia com bons olhos essa atitude da escola e o quanto os alunos corresponderam a esse olhar positivo que foi lançado sobre eles.
O incentivo deixa de ser somente o gosto pela leitura, mas envolve a questão da perspectiva: como ajo no meu bairro? Como devo me portar num ambiente de biblioteca ou nas ruas? Envolve também a questão sócio-política ao se buscar refletir sobre os aparelhos públicos presentes, ausentes ou subutilizados e procurar enquanto sujeito fazer parte desses equipamentos.
Que continuemos com a leitura de mundo, escola dialogando com a sociedade e que avancemos para uma escrita que se faça enquanto enfrentamento ideológico. Da leitura para escrita, do interpretar o mundo para o agir no mundo.

Ana Paula Ferreira 
18/04/2016


sexta-feira, 8 de abril de 2016

Vídeos sobre a questão indígena

Mês de abril é um mês que muitas escolas acabam enfocando sobre os indígenas.

De modo a trazer um olhar sem estereótipos, com muita sensibilidade recomendo esses dois vídeos de duas fotógrafas que se dedicaram a retratar a vida indígena.

Um é de Claudia Andujar a respeito de seu trabalho enquanto repórter fotográfica. Ela foi tocada pela causa indígena ao perceber o extermínio desses povos durante a construção da  Transamazônica e passou a defendê-los mundialmente.

Vejam em

Outro é da fotógrafa Rosa Gauditano que destaca as condições subumanas que vivem os índios pertencentes à tribo Guarani Kaiowá.

Vejam clicando aqui.

Para um olhar plural sobre as diversas culturas e povos indígenas, sob a fala e a memórias dos próprios índios, vejam o vídeo, "Índios Brasileiros".

Ana Paula Ferreira
08/04/2016

terça-feira, 5 de abril de 2016

História do ouro em Minas Gerais: do ouro à inconfidência mineira

Aula: Corrida do ouro em Minas Gerais, Inconfidência e Tiradentes

Objetivos:
Os educandos devem ser capazes de:
ü  Compreender as razões que levaram os colonizadores a empreenderem uma busca por metais preciosos;
ü  Relacionar a mineração com a formação de diversas cidades: as diretamente que sofriam o impacto e as que se localizavam próximas onde se formou a Estrada Real;
ü  Perceber a sociedade da época, marcadamente escravocrata, desigual e com altos impostos;
ü  Contextualizar mediante este cenário social e relacioná-lo com a Inconfidência Mineira;
ü  Refletir sobre a figura de Tiradentes: por que ora vilão, ora herói?

Metodologia:

·         Apresentação em Power Point;
·         Mapa do Brasil: localização de Minas Gerais, das cidades citadas e da Estrada Real;
·         Mostrar imagens que ilustrem a riqueza da época (igrejas suntuosas, vestimentas do grupo dominante, casas) e da pobreza (roupas e ausência de calçados dos escravizados). Por que da pobreza se havia tanto ouro? Dialogar de modo que percebam o sistema escravocrata e a desigualdade social. 
·         Mediante a poesia de Cecília Meireles, O romanceiro da inconfidência, apontar junto dos alunos os personagens da inconfidência presentes na poesia. Exemplo – participaram da inconfidência os militares e para isso, a poetisa escreve “brilham fardas”.
·         Leitura do texto “21 de abril – dia de Tiradentes” presente no site http://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/tiradentes.htm e depois responder as questões dispostas no último slide da apresentação em Power point.
Avaliação:
ü  Participação e interesse na exposição da aula.
ü  Interpretação da charge da fuga dos holandeses e sua relação com a corrida do ouro.
ü  Descrição da sociedade da época.
ü  Leitura e interpretação da poesia de Cecília Meireles, O romanceiro da inconfidência.
ü  Leitura do texto sobre Tiradentes disponível no site http://brasilescola.uol.com.br/datas-comemorativas/tiradentes.htm e entendimento das imagens que foram feitas deste personagem. 
ü  Para Casa: pesquisa sobre igrejas e esculturas da época e sua relação com a riqueza proveniente das minas de ouro.




Para ver os slides clique aqui.

quarta-feira, 30 de março de 2016

África: metodologia de ensino

Aula: África

Objetivos:
Os educandos devem ser capazes de:
ü  Perceber a multiplicidade cultural da África, rompendo com a visão que considera homogênea.
ü  Compreender o continente não como atrasado, mas um reflexo por ter sido oprimido pela Europa, estabelecendo análise de seu contexto em vários fatores.
ü  Valorizar sua cultura e história de luta.

Metodologia:

ü  Apresentação em Power Point de imagens relacionadas África na seguinte ordem: 
·         Mapa (marco situacional – apresentação de que é um continente formado por diversos países, cada qual com uma realidade diferente).
·         Paisagens naturais (savana e comparação com o cerrado brasileiro, riqueza da fauna, comparação de alguns elementos culturais entre indígena e o africano, Baobá; floresta; deserto do Saara em dois aspectos e o estereótipo do cinema).
·         Paisagens humanas (construções egípcias, Império do Mali, urbanização, artesanato, agricultura).
·         Culturas (máscaras, griots, tambores, símbolos africanos).
·         Religiões (tradicionais, islâmica, cristã e o desrespeito da Igreja Universal com a cultura africana).
·         Ocupação europeia (escravidão e a exploração das riquezas como ouro e marfim, sistema de apartheid para controlar os negros).
·         Problemas sociais e políticos (direcionar para que entendam que a pobreza da África alargou-se com a invasão europeia gerando desigualdade entre negros e brancos, fome, problemas de saúde pública (HIV, ebola), conflitos armados).
·         Formas de resistência: Nzinga, significado da bandeira da Etiópia, Mandela.
·         Frases do Mandela: reforçar a ideia de que todos dependem de todos e da importância da educação para reverter o quadro de exclusão.

Avaliação:
ü  Participação e interesse na exposição da aula.
ü  Leitura do cordel de Antonio Héliton de Santana “A vida e a invasão da África Antiga” e exercícios de interpretação.

ü  Para Casa: Faça um desenho sobre a África em algum dos aspectos: paisagem natural, paisagem humana, cultura, religião, invasão européia, problemas sociais, etc. Critérios: Faça o desenho e pintura ocupando a folha toda, escreva na parte inferior um nome para sua obra, seu nome e a data.
Para ver os slides clique aqui.

terça-feira, 22 de março de 2016

Praça dos Macacos – Praça Dom Pedro II

            O grupo cultural Afro-brasileiro Chico Rei organizou com muita competência um debate na Praça Dom Pedro II a respeito nome popularmente conhecido como “Praça dos Macacos”.
            Com um respeito à diversidade de opiniões e de memórias históricas o grupo Chico Rei chamou duas pessoas com perspectivas diferentes para falarem sobre o tema: o arquiteto e coordenador do museu Haroldo Gessoni e o memorialista e jornalista Roberto Tereziano.
            O primeiro, baseado dentre outras fontes na obra da museóloga Nilza Megale e do historiador  Homero Ottoni, citou que provavelmente essa alcunha “Macacos” derivou da correspondência que veranistas cariocas fizeram da região com uma área do Rio de Janeiro e citando a obra de Mario Mourão, disse que outra explicação se deve ao fato de que naquela localidade havia macacos.
            Roberto Tereziano completou em alguns momentos e contrapôs em outros. De acordo com o jornalista a área era pantanosa e, portanto, dificilmente haveria macacos e isso pode ser provado mediante fotos que mostram a geografia da época. Sobre a comparação com um local do Rio de Janeiro, Tereziano afirmou que certamente houve a relação, mas não pelos aspectos físicos de ambas as regiões, mas porque eram redutos de ex-escravos. Detalhou que até mesmo o zelador da praça era conhecido como Pedro Macaco e que na obra de Mauro Mourão há uma citação na qual este avisa que na área havia pequenos primatas, mas coincidentemente também havia negros.
            A discussão do nome da praça foi uma alavanca para discussão sobre o local do negro na sociedade brasileira. Passado e presente se entrelaçavam e mostravam nós que precisam ser desembaraçados.
Os nós que foram observados são maiores e mais densos. Nós na construção urbana que empurram o negro para áreas periféricas; que exaltam nas praças principais esculturas do homem, branco e da elite enquanto a Praça do Zumbi está abandonada; que segregou a Igreja São Benedito por ser um santo negro cultuado principalmente por esse grupo e hoje religiões de matriz africana refugiam-se nos bairros. Nós na compreensão cultural e de memória de um povo quando se seleciona apenas a história oficial para ser contada, quando se imagina viver numa democracia racial. Nós sociais ao se constatar o quão vulnerável é o grupo afro-descente em relação à segurança, moradia, emprego, educação e saúde.
Houve apontamentos e reflexões, relação entre passado e presente, levantamento da situação de marginalização antes e atualmente. Portanto, em nenhum momento se concluiu mudar o nome da praça. Para os desavisados que adoram engrossar o caldo da crítica pela crítica, não é essa a pretensão. Tem-se a clareza que mudar o nome não é a solução, uma vez que já consta no imaginário popular, embora seja importante reforçar o nome oficial: Dom Pedro II.
Esse pode ser um início para desembaraçar os nós do racismo. Mas, só haverá reparação de fato em relação à população negra quando dispuserem de igualdade de condições com a população não negra. Isso só seria possível juntamente com uma visão de classe social, afinal o grupo afro-descente de um modo geral não pisa no chão da casa-grande e enquanto houver casa-grande haverá senzala. Aí está o maior nó.

Ana Paula Ferreira

02-03-2016

Escola: dependência das datas comemorativas

Escolas começam o ano pedindo um texto ou um desenho sobre as férias. Em fevereiro dão algum desenho da Mônica em trajes carnavalescos. Quando chega abril, o desenho é do Índio e em maio pontua sobre o dia do trabalhador. Em agosto é certo: todas escolas tratarão do tema folclore, mas muitas vezes a abordagem será em torno do Saci. Setembro tem dia da independência, em outubro dia das Crianças, novembro Proclamação da República e Consciência Negra e dezembro é Natal!
            Depois ainda muitos professores se queixam que os alunos estão desinteressados! Não é para menos... Desde a Educação Infantil seguindo a mesma lógica, os mesmos temas no mesmo período e as vezes até com a mesma abordagem!
            Há uma dependência tão grande em relação às datas comemorativas que mesmo no maternal, que atende crianças de 3 e 4 anos cheguei a ver atividade nomeada como “Dia do Telefone”. O que isso acrescenta a essa faixa etária? O que comemorar ou lembrar dessa data significa? É mais importante saber o dia da invenção do telefone ou desenvolver capacidades comunicativas com crianças nesse período do desenvolvimento?
            Precisamos sim falar sobre a questão indígena na contemporaneidade, o negro na sociedade atual, o folclore, carnaval e festa junina como expressões culturais de nosso povo. Para isso, devemos ter cuidado para não cair nas armadilhas do estereótipo, do trabalho raso, da atividade pela atividade, sem fundamentos, ausente de reflexão.
            Ao dar uma folhinha e pedir para pintarem, primeiro tolhemos a imaginação e criatividade de serem os protagonistas de sua própria arte e segundo que apresentamos o vazio e o preconceito, embora o preconceito esteja sempre cheio de algo.
            O vazio porque a atividade não explora uma série de questões, não contextualiza, não mostra o processo histórico, não cria outros significados, não problematiza. Fica um conteúdo esvaziado de sentido. Instiga o preconceito porque ao tratar de forma superficial, cria o estereótipo e limita a figura a um tipo apenas de imagem e de representação, geralmente distorcida, e daí se perpetua o índio que tem sempre penas na cabeça, o trabalhador sempre com roupas de operário, o negro com vestes de escravidão.
            Por isso que embora os alunos façam alguma atividade todos os anos sobre o Dia da Independência ou qualquer outra data, não saberão falar sobre o assunto mesmo estando no 5° ano do Ensino Fundamental, e terem visto isso por vários anos.
Enquanto professores que nos libertemos das datas comemorativas! Não precisamos nos afastar por completo do trabalho com datas, afinal datas festivas precisam ser lembradas como expressão cultural, mas que coloquemos o assunto na importância que possui, sem tratá-lo como evento, ou fato superficial, indagando se é importante a data ser estudada com determinada turma, escolhendo as datas que convém serem trabalhadas com aquela faixa etária e com qual abordagem. 

Ana Paula Ferreira

02/01/2016

domingo, 20 de março de 2016

Samba com consciência: Ala das Fridas

Era pra ser só uma brincadeira de carnaval. Uma mãe, com a filha e sobrinha, não querendo fantasiá-las com as típicas princesas resolveu incentivá-las a se vestirem de Frida. Por que Frida? Porque feminista, a frente de seu tempo, uma mulher que aliou a aspereza da política com a sutileza da arte, porque fugia dos padrões estéticos, porque valorizava as cores latinas e implantava um estilo próprio de roupa, de cabelo, de ser se vestir e de ser, não com os olhos voltados para a Europa, mas para a terra onde pisava.
Consequência: nenhum folião entendia aquelas sobrancelhas emendadas e o buço marcante em plena época de culto pela depilação. Por outro lado, a partir dali o universo infantil dessas garotas não ficaria recheado apenas com Elsas e Brancas de Neve, mas seriam ensinadas a admirar personalidades fortes, tal qual a Frida, mulher da nossa América que desafiou modismos e convenções, fez uma arte própria, participou de partido político de esquerda e buscou superar com pincéis e tintas as próprias frustrações, medos e dores decorrentes de uma saúde extremamente debilitada.
Esse ano a ideia não era para três pessoas. Era de se formar uma ala de Fridas, de mulheres dispostas a usar do carnaval trazendo uma conotação de luta, de feminismo, que do contrário do que muito pensam, não é antônimo de machismo. Feminismo é o empoderamento da mulher, é a defesa de igualdade de gêneros, é a mulher ser tratada como sujeito de ações e opções e ser respeitada por isso.
A ala das Fridas dentro do bloco Chico Rei se distanciaria do imaginário popular de se atrelar a figura da mulher a Rainha da Bateria, símbolo de sensualidade. Também não se pareceriam com as baianas, porque apesar das grandes saias que possuem em comum, as Fridas trariam o significado feminista.
Uma ala alegre, florida, com saias rodadas, mulheres e homens vestidos de Frida como denúncia de um machismo e de uma sociedade desigual em que a figura do homem branco, hetero, classe média, cristão é mais valorada socialmente.
Foi lindo contribuir para que mais pessoas reconhecessem a figura importantíssima e altamente simbólica da Frida. Foi inesquecível fazer parte dessa história que tem tudo para virar tradição. Contudo, que lembremos que se a Frida virar apenas uma fantasia perde seu caráter de apelo a reflexões sobre a condição opressora em que vive a mulher no Brasil. Daí deixa de ser “Sou Frida” e fica apenas “Sofrida”.


Ana Paula Ferreira
Fev/2016

Texto também publicado no Jornal da Cidade 09/02/2016 https://www.jornaldacidade1.com.br/ala-das-fridas/  

Avaliação geral da paralisação

A paralisação de três dias em Poços de Caldas teve ranços e avanços, mas foi um momento histórico.
Faz oito anos que sou funcionária pública municipal e nunca havia presenciado isso. Não digo apenas pelo número de escolas fechadas, nem pela quantidade de dias em ação, mas o reflexo de uma ação conjunta repercutindo em mais de 700 pessoas nas ruas em pleno horário de aula diante da união entre trabalhadores do Estado, trabalhadores do municípioe alunos.
O bem simbólico é imenso... inúmeros professores tiveram pela primeira vez a experiência reivindicatória e se superaram na iniciativa propositiva: foram para ruas, panfletaram, fizeram varal de cartazes com as reivindicações, conversaram em várias unidades com muitos servidores, enfrentaram opiniões contrárias, inseguranças e aversões. Se o corriqueiro no intervalo de aula eram conversas sobre culinária, filhos ou programa de TV, de repente o recreio se transformou em momento de politização sobre direitos trabalhistas, lei do Piso Nacional e FUNDEB; se o convencional é trabalhar numa sala de aula, nesses dias a sala de aula foram a rua, o auditório da URCA, as visitas em creches e escolas.
O bem material é o compromisso do prefeito em fazer um Plano de Recomposição Salarial e retomar a negociação do projeto de cumprimento de 1/3, com uma comissão composta por 20 representantes eleitos pela categoria.
Não é a mesma comissão formada para o estudo da Lei 26. Tem prazo de ação e de materialização e é composta por aqueles que os professores indicaram sob o critério básico de que o integrante estivesse participado dos 3 dias de paralisação. Na próxima terça-feira haverá uma reunião de modo a se organizar um calendário para cumprimento da recomposição salarial.
É bom frisar que enfrentaremos o discurso corriqueiro de que não há dinheiro, que é preciso cumprir a lei de responsabilidade fiscal e tantas outras justificativas que estamos acostumados a ouvir. Mas, o mais importante é mantermos a categoria unida porque é com essa união e organização que conseguimos a abertura de uma negociação.
Professor, a aula deve continuar para além da grade curricular! Sindicalistas e dirigentes sindicais, a ação de vocês é na formação política do funcionalismo e isso significa visitas constante às unidades e cursos sobre os direitos e politização do trabalhador buscando integração da classe trabalhadora, no qual o senso de coletividade deve imperar a questão individualista! Estudantes, continuem a levantar suas demandas e a compor forças para um outro modelo de sociedade! Diretores e coordenadores, sensibilizem com a causa, pois a causa é de todos!
O saldo foi positivo! Mostramos que Poços de Caldas tem paralisação sim e que ao criarmos esse histórico a tendência são conquistas cada vez maiores.

Professora Ana Paula Ferreira
mar/2016

Chico Rei na avenida

O bloco Afro Chico Rei não é de hoje que saí no carnaval. Com uma história larga e profunda se insere nas atividades carnavalescas para apresentar através da arte suas demandas, trazendo um raio X das dores e percalços de um povo.
Contudo, esse ano teve um fato peculiar. Um dos movimentos sociais mais antigos da cidade teve o apoio de outros grupos sociais, grupos esses que aprendem com a história e o legado do Centro Cultural Afro Brasileiro Chico Rei.
Esse legado está atrelado à escravidão. Foram quase 400 anos desse regime extremamente opressor, mas, foram também quase 400 anos de luta pela emancipação. Portanto, temos um patrimônio de luta com o grupo mais marginalizado do Brasil. E Poços de Caldas recebeu também a extensão dessa história com o Chico Rei que remonta desde o ano 1963.
 Inicialmente foi organizado em formato de clube e no decorrer do tempo foi trazendo uma conotação mais política e de reflexão a respeito dos vários problemas sociais que infligiam à população negra: o genocídio do povo negro, grande índice de analfabetismo e de desemprego, desvalorização de sua cultura, preconceito, racismo, baixa representatividade política... Todos esses elementos evidenciando que a pobreza no Brasil tem cor.
Aprendemos com a história que nos é deixada e por isso não podemos nos furtar de participar em comunhão das atividades que um grupo mais experiente tem a ensinar. Desse modo nesse ano, saíram no carnaval grupos mais novos de estrada, tais como a Educafro (desde 2003 em Poços de Caldas) que também tem uma ligação com a causa negra e os Coletivos de Educação e Feminista Jaçanã Musa dos Santos (ambos criados em 2015).
Isso mostra força, mostra que a demanda de um é demanda de todos, porque num cenário que as mulheres são oprimidas, entre as negras a situação é mais violenta ainda; diante de uma educação sucateada há grupos que são mais excluídos dos bancos escolares; perante a má remuneração dos professores há que se lutar pelo apoio de todos da sociedade para que essa realidade se transforme, tendo em vista que lutar por uma educação de qualidade é uma forma de conquista de um capital cultural que pode contribuir para mudança social.
A apresentação do C.C.A.B. Chico Rei na avenida não veio com a conotação de caricato, qualidade essa atribuída aos blocos. Levou o caráter de luta! Não veio com aspecto meramente de folia, mas de crítica. Mulheres vestidas com a figura da feminista Frida, trazendo o tom do empoderamento. Professores e militantes da educação carregavam um quadro negro ressaltando entre outras questões o salário baixo para que autoridades sentadas confortavelmente em seu palanque pudessem ver. Representava-se a beleza misturada com o incômodo aliando a cultura carnavalesca com a crítica.
C.C.A.B. Chico Rei nos ajudou a escrever essa história. Que possamos perpetuá-la e continuar cantando “Somos luta e inteligência, somos história e persistência, Chico Rei é resistência!”


Ana Paula Ferreira
fev/2016

Cumprimento do 1/3 e recomposição salarial

A lei 11.738 foi promulgada em 2008 e ainda não foi efetivada no município de
Poços de Caldas. É interessante notar que embora essa lei prescreva sobre o valor do piso de R$ 1968,30 e sobre o 1/3 fora de sala de aula, a administração pública, mediante pressão do ministério público, quer responsabilizar-se apenas ao que se refere à carga horária extraclasse.
            A prefeitura se utiliza da seguinte defesa: na lei está que o piso será para uma jornada de “até” 40 horas. Ora, optando pelo não investimento com os profissionais da educação, o município se arma da justificativa de que o piso já estaria sendo pago uma vez que o salário de um professor iniciante é de R$ 984,15 para 20 horas semanais. O absurdo nessa interpretação é que se a lei para “piso” não deveria haver proporcionalidade, afinal piso é o valor mínimo.
O detalhamento para superação da dúvida e da ambigüidade do termo veio com o parecer 18/2012 do Conselho Nacional de Educação (CNE) no qual explicita que a ideia de piso é de forma a não extrapolar 40hs semanais e o valor salarial seria proporcional em relação à carga horária. De acordo com o parecer: “O que a lei afirmou é que o piso salarial nacional é igual a R$ 950,00 mensais (valor da época da publicação da lei), pago como vencimento (ou seja, sem que se leve em conta as gratificações e demais verbas acessórias), por uma jornada de até 40 (quarenta) horas semanais (proporcional nos demais casos), sendo que essa jornada deve ser cumprida de modo que, no máximo, 2/3 (dois terços) sejam exercidos em atividades onde há interação com os estudantes.”
            O problema é que quando a prefeitura busca cumprir o tempo extraclasse aumentando o tempo de 20hs semanais para 30hs, sem aumentar o salário docente além do proporcional às horas a mais trabalhadas, obriga que professores que tenham dois cargos na CLT escolham um dos dois, de modo que a soma não ultrapasse a quantidade máxima de horas trabalhadas por semana.
            Enquanto professora anseio e defendo que professores não precisem se sacrificar em vários períodos. Essa sobrecarga se reflete posteriormente em uma série de problemas, como por exemplo, problemas de saúde desses trabalhadores, problemas com reposição de profissionais haja vista o sintomático número de professores que faltam, problemas na educação porque o profissional se vê sem tempo hábil para formação continuada ou acompanhamento das novas produções científicas e teóricas.
            A lei 11.738/2008 vem com esse propósito de possibilitar que o professor não precise se desgastar com inúmeras turmas.  O Conselho Nacional de Educação sugere a partir da leitura da lei, que ao garantir o 1/3 fora de sala de aula, o profissional tenha tempo para o preparo teórico, além de mantê-lo próximo da comunidade escolar, conhecendo-a a fundo e tendo mais condições de metodologias concatenadas com o grupo atendido.
            Contudo, para se fazer a opção de se trabalhar apenas um período de modo a concretizar o objetivo de uma dedicação exclusiva a determinada escola é IMPRESCINDÍVEL um salário que possibilite ao trabalhador da educação condições dignas que não precise de uma jornada de mais de 8 horas diárias.
            Infelizmente, não é o que ocorre em Poços de Caldas. Um professor em início de carreira recebe apenas 24,89% a mais que o salário mínimo, embora o FUNDEB tenha aumentado o repasse nos últimos anos esse valor não serviu para agregar nosso salário.
            De acordo com a 2° proposta dos órgãos gestores é que em dezembro de 2017 o docente da Educação Básica receberia R$ 1514,17 para 22:30 na escola e 5:30 em casa. Parece um avanço, mas não é. Segundo a proposta indecorosa, o salário de R$ 1514,17 seria pra daqui 2 anos!!!!! “Esqueceram” das perdas salariais, de todos esses anos que o professor não teve aumento além do repasse inflacionário (lembrando que tivemos ano que nem isso tivemos), “esqueceram” da valorização docente como forma de se melhorar a educação, “esqueceram” de que para se ampliar a jornada, muitos professores terão que escolher por um dos cargos, mas para completar a renda sucateada um número significativo de profissionais da educação continuarão vendendo cosméticos, bombom ou roupa, refletindo em uma diminuição do tempo destinado ao estudo e na relação teoria e prática na educação.
            Cabe lembrar que essa mudança não interferiria bruscamente na vida cotidiana do professor que só tem um cargo, afinal boa parte do trabalho seria realizado fora da sala de aula, tal como já fazemos, porém, remunerados para isso. Contudo, precisamos ter o sentimento de categoria e lembrarmos que muitos de nossos companheiros de profissão possuem dois cargos.
É um desrespeito a administração de Poços pedir que os professores abdiquem de um de seus cargos sob a justificativa de pensarem no coletivo e não em si próprios. O coletivo “comunidade escolar” deve ser valorado, mas coletivo “professores” não pode deixar de ser contemplado. E certamente por esse sentimento de “tia”, de docilização da profissão docente que o sentimento de luta, de pressão, de embate foi se perdendo. Lutar por melhorias na profissão é mostrar para os estudantes que quando falamos em cidadania não estamos apenas com uma postura “blablazante”, de quem muito fala e pouco faz.
            Na reunião do dia 21 de agosto o prefeito, com uma cordialidade de colonizador português, concordou com as professoras e disse que o salário não era o merecido pela categoria, mas que ele lidava com situações concretas e não com coisas intangíveis. É uma pena ouvir isso! Porque nós educadores lidamos com o concreto da sala de aula e com a utopia de ver mudanças. Porque também políticos são cargos públicos e como tais devem zelar pelo cumprimento dos direitos públicos. Isso significa ter respeito pela situação material, mas com planos e projetos em longo prazo, pensando em atender as demandas populares.
Digo isso porque no ano de 2013 houve uma manifestação do sindicato com significativa expressão dos trabalhadores e o prefeito, com poucos meses de posse,  desceu as escadarias para falar com todos, manifestando interesse em aumento salarial, mas alegando que o caixa da prefeitura estava com finanças extremamente preocupantes. Na hora, eu com a leitura de que ele tinha acabado de assumir a função, ainda falei ao próprio que seria importante ele montar um quadro com datas para os repasses, de forma que gradativamente o servidor conseguisse observar a conquista dos ganhos salariais, congelados durante administrações passadas.
            Ao ver que dois anos e meio se passaram e essa planilha ainda não foi feita, realmente noto que o senhor prefeito lida apenas com situações concretas. Qual concretude da parte dos servidores o senhor precisa ver para perceber nossa insatisfação?

Ana Paula Ferreira

23/08/2015