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terça-feira, 6 de junho de 2023

Tudo passa


           Faz mais de ano que comprei um quadro com a frase “tudo passa”. Todos os dias eu me deparava com essas duas palavras e ia internalizando, quase num mantra, para aceitar que os anos ficam para trás, cabelos brancos aparecem, filhos crescem, amigos inestimáveis estão presos às fotografias, vivências pelas quais sofremos um dia viram pura recordação.

            E por que mesmo sabendo disso é tão difícil concordar que a mudança bata na nossa porta? Por que é tão doloroso reconhecer o que Heráclito disse há milhares de anos de que nada é estático, nem nós mesmos?

            Porque envolve a ideia de luto e lidar com a morte não é fácil, seja a morte de entes queridos, seja a morte de tantas coisas... da juventude, das relações, das expectativas, dos planos. Em ambas situações, de uma morte real ou da morte de algo, há a necessidade de ser fazer o funeral (literal ou simbólico) como processo de seguir em frente, de agir sobre o que ficou de nós mesmos, de fechar ciclos.

            Mas além da dificuldade do luto existe outro desafio: trabalhar com o sentimento do apego. Sabe a famosa frase do Pequeno Príncipe “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”? Resumindo, o apego é isso... uma doação, vínculos, memórias, histórias que fizeram que o objeto amado se torne bonito e especial. Daí temos outra questão: em que medida desapegar envolve descartabilidade?

            O sociólogo Balman quando trouxe o termo de modernidade líquida apontou o quanto as coisas estão mais frágeis, fugazes e que se antes era comum o sujeito aposentar no mesmo emprego que trabalhou a vida toda, matrimônios que duravam décadas ou o estudo (técnico ou graduação) já ser quase uma garantia de emprego, hoje nada é seguro, tudo é efêmero.

             Mário Sergio Cortella trouxe uma metáfora nesse sentido quando conta que era comum encontros familiares para fazer pamonha e que o trabalho era igualmente proporcional ao tempo em estar junto, de rir, conversar, contar causos e partilhar a produção. Atualmente, na contramão, além dessa prática não ser comum, consome-se macarrão instantâneo feito em três minutos, tudo rápido, tudo veloz para atender nossa lógica desenfreada de tarefas e que nos retira aos poucos das nossas convivências mais genuínas.

            Essas convivências autênticas são aquelas em que desnudamos nossa alma. Até porque se na sociedade somos CPF, nas relações comerciais somos cartão de banco e no trânsito CNH, são nas relações mais próximas que podemos sentir que somos únicos e que tornamos o outro também especial. Por isso é tão sofrido encarar esses lutos, pois envolve um período solitário, de não importar com o que importávamos. Aliás, essa palavra “importar” é interessante porque além de se referir ao que damos importância, é também verbo do que trazemos de outros lugares para dentro do nosso espaço, e nesse momento de solidão, o que mais precisamos é de nos abastecer de nós mesmos, até para diferenciar entre o desapego e a descartabilidade.

            Talvez uma frase que ajude nesse sentido é a de Frida “Onde não puderes amar, não te demores”. Não significa que as coisas devem permanecer apenas por hábito, tradição ou qualquer coisa do tipo. Contudo, não é tampouco descartar, porque descartamos o que é facilmente trocado, é o guardanapo que não virou papel de mensagem de paquera. Se há luto, é porque houve afeto, fomos afetados e, portanto, a ideia não é descartar o que foi, mas de saber que se não há condições de ser e de fazer o outro feliz, que tomemos outros caminhos.

Ana Paula Ferreira

Aspirante a escritora


Texto publicado no Jornal da Cidade, 07/06/2023

terça-feira, 16 de maio de 2023

Trabalho com educação étnica nas escolas

 Aqui fica um link de uma entrevista à TV Plan, de quando desenvolvi o Projeto "Menina Bonita do laço de fita" e que ganhou prêmio Educaminas em BH no ano de 2014.


https://youtu.be/u9XOfbuecTw

Contra a cultura do ódio

 


            Dia 5 de maio finalizamos um dos Projetos de Psicologia na escola Padrão. As estagiárias, extremamente sensíveis, além de perceberem as incivilidades entre os adolescentes, também observaram que o banheiro feminino era espaço para a detração e “muro da maledicência”.

            Cada uma que ia lá, via nas portas, divisórias ou perto do espelho as ofensas destinadas às mulheres, nomes de jovens que já passaram pela escola e que talvez até fossem conhecidas na comunidade. Um simples gesto de veneno misturado com errorex ia plantando raiz de desqualificar umas às outras pela aparência, pelo corpo, pela vida amorosa, mostrando que a obra “Mito da Beleza” de Naomi Wolf ainda era atual, no controle estético com vistas ao controle de gênero, tantas vezes incorporado pelas próprias mulheres sem que se dessem conta. 

            Isso serviu para uma ação articulada de 7 encontros, sendo um deles planejado com apoio dos docentes da escola. Em dia combinado, os rapazes se reuniram com o professor responsável da aula e conversavam sobre masculinidade tóxica. Enquanto isso, as adolescentes participaram com as estagiárias de uma roda de conversa sobre sororidade, machismo estrutural, cultura do linchamento moral.

            Através desse diálogo foi possível a consciência de que as violências verbais não eram coisas de espaços desorganizados ou bárbaros, mas podem ocorrer em todo lugar, a partir do momento que os sujeitos não estão refletindo sobre seus atos, com vistas à mudança de comportamento.

            Diante disso, as estagiárias propuseram que as estudantes escrevessem frases de empoderamento para serem coladas nos banheiros, por cima das ofensas. Não houve apagamento dos absurdos. Isso foi simbólico, porque da mesma forma que é difícil limpar o que estava registrado na pedra, também é moroso o processo de apagar grosserias que nos dizem. Entretanto, por cima colou-se cartões de todas as cores, com frases encorajadoras, para que quem lesse entendesse que havia alguém pensando num mundo com mais boniteza.

            A intervenção das estagiárias foi carregada de sutileza e de sentido. Porque em tempos de redes sociais denominadas “fofocas da escola”, em uma sociedade que consome em grande escala a cultura do ódio, os indivíduos normalizam o menosprezo, a ofensa, a calúnia. E o pior... como são inúmeras vozes, quase num coro, os ultrajados chegam em algum momento a acreditar nos insultadores, mesmo que sejam palavras sem coerência, sem fundamento para existir. Isso nada mais é do que a voz do opressor existindo no oprimido.

            Em relação a isso, há dois passos de enfrentamento que vejo por ora.

            O primeiro vai ao encontro do que o Papa Francisco escreveu numa carta encíclica sobre o que significa amar o opressor. Não é aceitar o que faz, mas sim, procurar mostrar o quão arbitrário está agindo e criar condições para que deixe de oprimir. Assim, quando se prefere expor diretamente aos insultadores as violências observadas há o cumprimento dessa responsabilidade de se tirar o poder do opressor, mesmo que naquele momento ele não tenha condições de refletir e de pedir desculpas.

            Entretanto, como identificar se realmente houve opressão, se por acaso não é algo que possamos estar confundindo com brincadeiras ou com temperamento mais impulsivo? A opressão se manifesta na diminuição do outro como ser humano, em montar narrativas que se utilizam de ofensas, que menosprezam, que falsificam, ou na escolha de posturas antidialógicas de se virar as costas num momento de conversa, de apontar o dedo, de impedir a democratização do acesso a bens ou espaços que estão consagrados para um pequeno número de pessoas.

             Compreendida a opressão e como combatê-la, o segundo passo, é saber que integridade exige não contar com a aprovação alheia, mas sim com a própria consciência. Não é fácil. É mais comum seguir a onda, imitar o que os outros fazem, rir das maledicências destinadas a terceiros, postar mensagens nas redes que exponham e humilham a fim de ganhar aplausos do grupo de convivência. Nessa perspectiva, lembrei de um trecho do livro “Persépolis” da escritora iraniana Marjane Satrapi. Trata-se de um HQ autobiográfico que a autora nos conta quando foi morar na Áustria e fingiu ser francesa, sendo alvo de deboches. Por fim, ela se impõe, assume quem é, chega na conclusão de que “Se eu não mantivesse a minha integridade, jamais poderia me integrar”.

            Se a adaptação é para ganhar credibilidade, para adquirir apreço, mesmo que isso venha às custas de xingar e deixar recados maldosos no banheiro, a pessoa se integrará, porém se afastará de um processo humanizatório, de desenvolvimento ético. Por fim, cabe reforçar que haverá quem fere a história que construímos, quem planta detração, mas haverá aqueles e aquelas que vão colocar por cima mensagem de gentileza, de sinceridade misturada com acolhimento. Assim, há grupos íntegros que podemos nos integrar sem que nos percamos de nós mesmos.

 

Ana Paula Ferreira



Texto publicado no Jornal da Cidade de 16 de maio de 2023

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Pedras no sapato feminino para as trilhas na Educação a Distância (EAD)

Esse artigo foi produzido juntamente com a querida professora Ana Chaves e pretende refletir sobre as mulheres e sua entrada na Educação a Distância que pode (ou não) se apresentar como uma possibilidade de acesso ao ensino superior. De modo a termos uma compreensão mais cabal sobre condições objetivas da mulher no mundo do trabalho capitalista serão evidenciados sob análise conceitual os estudos de Heleieth Saffioti (1976; 1984; 2015) e Silvia Federici (2017; 2021) aliando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Link de acesso ao artigo:

SciELO - Brasil - Pedras no sapato feminino para as trilhas na Educação a Distância (EAD) Pedras no sapato feminino para as trilhas na Educação a Distância (EAD) 

 



quinta-feira, 4 de maio de 2023

Ensino Médio e o canto da sereia

 


            A expressão “canto da sereia” é comum para designar algo encantador, sedutor, num ritmo musical que enfeitiça, no qual o ouvinte fica tão inebriado ao ponto de não se dar conta que está se afogando, numa morte certeira. Ulisses, o grande herói grego de Homero, sabia que em determinado local, tripulantes dos navios morriam ao ouvir a melodia das sereias, e muito astuto, pediu para seus guerreiros colocarem cera nos ouvidos para evitar que fossem capturados pelo som. Entretanto, na sua curiosidade, mandou que o amarrassem no mastro da embarcação para que pudesse escutar, sem correr o risco de se jogar em alto-mar.

            Há diversos cantos da sereia que também nos seduzem. Um deles, foi o discurso do MEC de anos anteriores e de empresas da área da educação para capturar mentes e corações na aceitação do Novo Ensino Médio, estipulado via Medida Provisória em 2016 e oficializado em 2017 por lei federal. Aliás, um parêntesis. Se as mudanças eram tão positivas assim para os estudantes, porque usar de um procedimento arbitrário, como Medida Provisória? Por que fazer uma alteração curricular de tal peso com um governo de legitimidade duvidosa, que foi o Michel Temer? Pois bem… então onde está o canto da sereia?

            Nessa nova configuração, há aumento da carga horária, para que estudantes tenham mais acesso a educação integral e em período integral. Ora, se ficarão mais tempo na unidade, haverá necessidade de mais recurso para alimentação para duas refeições, mais contratação de professores, mais investimento em laboratórios de informática ou de ciências no desenvolvimento de metodologias ativas. Daí vem a pergunta, de como é possível aumentar o tempo na escola sem aumentar gastos? Isso porque no mesmo período que Michel Temer aprovou o Novo Ensino Médio, também assinou a Lei de teto de gastos, que congela por 20 anos os recursos em educação.

            O canto da sereia embutido aí é que o problema da educação não é de falta de recurso, mas de gestão, o famoso slogan “fazer mais com menos”. A comunidade escolar não conseguirá aumentar o número de salas com festas juninas. Nenhum professor conseguirá saber das demandas de todos alunos, de suas características peculiares dando aula em 40 turmas, cada uma com mais de trinta alunos. Não se trata apenas de doação, de compromisso, é questão de política pública, de um Estado cumpridor com suas obrigações constitucionais, para que o funcionário público desempenhe suas funções com qualidade.

            A ideia propagada com o Novo Ensino Médio é de algo cativante, no qual o estudante pode escolher o que cursar, de acordo com seus interesses. Falam de autonomia na decisão sobre o itinerário, porém, não avisam que mais de 50% dos municípios possuem apenas uma escola de Ensino Médio, sem a estrutura adequada para ofertar os 4 itinerários de modo que haja a escolha estudantil. Qual seria a alternativa? A família se mudar para outra cidade de modo que o jovem conseguisse acesso? Além disso, é uma realidade educacional que faltam professores, espaço físico, laboratórios e, por isso, nem sempre a escola conseguirá atender as áreas de interesse dos estudantes.

            Outro canto da sereia reproduzido pelos burocratas da educação é que o Ensino Médio anterior era chato, desinteressante e que isso causava evasão. Quem trabalha nessa etapa do ensino sabe o quanto é falacioso isso, pois um dos maiores motivos é a necessidade de jovens em se inserirem no mundo do trabalho, em garantir um dinheiro no final do mês, mesmo que para isso, se subordinem a trabalhos precarizados. É a realidade de inúmeros estudantes em Poços de Caldas, que são garçons, atendentes, recreadores em hotéis de luxo da cidade, que além de não fazerem o registro em carteira de trabalho, cobram mais carga horária, e, consequentemente acabam levando essa juventude a abandonar a escola. Ora, por que em vez de se mudar o currículo, não há fiscalização desses empregos? Por que não há geração de renda suficiente para as famílias brasileiras, de modo a não permitir que jovens se antecipem em serviços que os levarão a desistir dos estudos?

           Diante do Novo Ensino Médio, as aulas serão mais dinâmicas, sob mais metodologia ativa e novos componentes curriculares – é o que diz a propaganda. Se será tão bom assim, por que a família de um apresentador global, que se mostrou a favor dessa mudança, não coloca os filhos no Novo Ensino Médio na rede pública de ensino? A verdade escondida nessa capa é que haverá uma distância ainda maior entre as redes pública e privada de ensino, pois enquanto a primeira estará suscetível ao destino de carga horária para ensinar a fazer bolo de pote ou brigadeiro, o ensino da rede privada tende a caminhar para reforçar o modelo propedêutico, preparando para o acesso ao Ensino Superior.

            O discurso é de melhorar o ensino público. Mas, sem investimento no valor do Custo Aluno Qualidade (CAQ), sem a formação de qualidade dos professores, sem um currículo que realmente valorize o saber, o Novo Ensino Médio será um canto da sereia com vistas a afogar os tripulantes de navios, preferencialmente os de escolas públicas. Não se trata de não escutar o canto, nem de ficar paralisado perante ele, mas de entender seus engodos, e nos articularmos enquanto sociedade para a sua revogação, enquanto há possibilidade democrática para tal.

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual de ensino

Texto publicado no Jornal da Cidade 4/05/2023

E no Jornal Poços Já https://www.pocosja.com.br/2023/05/02/ensino-medio-e-o-canto-da-sereia/  

domingo, 30 de abril de 2023

O Novo Ensino Médio: é preciso fechar a torneira

 



Tem um livro que gosto muito que é o “Conto da Aia”. Trata-se de uma distopia na qual poucas mulheres conseguem gerar um filho e são transformadas em propriedade de famílias ricas para perpetuarem o patrimônio, mediante os herdeiros. O livro é narrado em primeira pessoa e quando a protagonista buscas pistas sobre como tudo começou, se dá conta que as mudanças nunca são instantâneas, é como uma banheira com água quente, que é possível levar a morte, caso o aquecimento seja gradual. 

Assim foi com o que chamamos de “Novo Ensino Médio”, que já está sendo gestado há algum tempo sem que nos déssemos conta, pois independente de assumir-se como propedêutico ou ensino profissional, há o que Tomaz Tadeu da Silva chama de currículo oculto, ou melhor, o que a escola não deixa escancarado, mas ensina através de seus discursos, posturas, comportamentos. Ora, sendo a hegemonia cultural organizada pelos ditames neoliberais, muitas vezes, se contribuí com essa ideologia, sem perceber.

Isso ocorre com o que vou chamar de pedagogia da conformação e pedagogia da desinformação. No primeiro caso, há um conjunto de ações na educação, nas quais o sujeito se mostra resignado, aceita a situação e até mesmo naturaliza. Exemplos não faltam. Ao invés da universidade pública tomar a frente na formação docente continuada, fundações e empresas passam a cumprir esse papel, mas nem é feita a pergunta sobre o quanto do cofre público foi destinado a isso. Embora haja uma lei de 2008 sobre o piso salarial, há caso de governantes que além de não cumprirem, recorrem à justiça para não pagar e enquanto isso, milhares de educadores ficam quietos. Iniciativas de privatizar a gestão de escolas estaduais começam a acontecer, mas como não é na unidade na qual se trabalha, não há o incômodo. Todo esse nosso apagamento enquanto cidadãos, esse silenciamento de nossas vozes é ensinado aos alunos, que nos observam e vão aprendendo a não se rebelar perante as injustiças.

Na complementação dessa inércia está a pedagogia da desinformação, que mostra um desprezo pelo saber e uma ênfase apenas em caráter prático, de modo acrítico, com vistas à adaptação e por isso, são comuns falas no âmbito educacional de não é necessário ensinar determinado conteúdo, pois os alunos nunca vão usar isso na vida. Uma das consequências é o avanço do negacionismo, sob defesas absurdas, tais como “A Terra é plana”, “o Brasil foi melhor durante a ditadura” ou o “aquecimento global foi inventado pela mídia”. Um risco que pode ocorrer nessa ênfase utilitarista é que ao invés de haver uma sequência didática na qual o conteúdo seja apresentado gradativamente de modo a construir habilidades cada vez mais complexas, as aulas viram noticiários de TV e num dia fala-se de meio ambiente, no outro de sexualidade, e no dia seguinte sobre violência no trânsito, mas nada com profundidade, tudo raso, sem conexão, e nessa poluição o que é importante de fato se perdeu no meio de tanto outros assuntos. É como se no excesso de informação, gerasse uma cegueira branca, pois não é a ausência de luminosidade, mas justamente luz em grandes proporções, semelhante ao que é vivenciado pelas personagens de Saramago no livro “Ensaio sobre a cegueira”, pois embora fosse uma sociedade urbana, que utilizasse tecnologias modernas, as pessoas perderam a capacidade de enxergar, de se perceber, de se humanizar.

Novamente aqui o Novo Ensino Médio se encaixa, pois na nova configuração curricular há um excesso de componentes curriculares, alguns inclusive de existência questionáveis, tais como “bolo de pote” ou “como se tornar um milionário”, enquanto disciplinas científicas perdem carga horária. Quais as consequências? Temos quatro principais: 1) maior distância entre o ensino da rede privada e o da rede pública, lembrando das diversas demandas estruturais da escola pública; 2) flexibilização trabalhista, pois o professor passa a lecionar em diversos componentes pedagógicos que não estão alinhados a sua graduação; 3) alterações pedagógicas na elaboração de livros, formação docente e ENEM ; 4) e construção do indivíduo neoliberal.

Nesse ponto, tanto a pedagogia conformista, que dá sequência na aula como se nada acontecesse em termos de desmonte de direitos sociais, quanto a pedagogia da desinformação, que trata o saber como algo dispensável, estão mostrando de maneira muitas vezes oculta a apatia pela coisa pública, a despreocupação com o futuro da sociedade, o individualismo em se furtar da defesa sistemática da escola pública, laica e de qualidade, permitindo que as empresas avancem sobre esse espaço cada vez mais.

Se não queremos nem a conformação, nem a desinformação, se o nosso objetivo é a transformação da sociedade com mais justiça social, na garantia de um Estado cumpridor de seu papel de concretizar direitos civis, políticos e sociais, é hora de fechar a torneira da água quente que está nos queimando aos poucos.

Esse controle de impedir a saída de água em alta temperatura é essencial. É a pausa necessária, é o fôlego fundamental para que a sociedade civil organizada se posicione e amadureça propostas sobre essa importante etapa da Educação Básica. Ao invés da arbitrariedade da medida provisória que rege o Novo Ensino Médio, é imprescindível uma consulta popular ampliada, buscando tornar o Ensino Superior acessível a alunos da classe popular e contribuindo na formação de sujeitos compromissados com o mundo. 

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual


Texto publicado no Jornal da Cidade 03/05/2023

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Precisamos falar sobre o Kevin: quem é Kevin?

 

Imagem retirada do site racismoambiental.net.br 

        “Precisamos falar sobre Kevin” é o nome de um filme que trata sobre um jovem com perfil de perversão. Sem empatia, nem demonstração de carinho ou de sentimento de culpa, Kevin manipula, mente, manifesta prazer na dor alheia. Ele planeja um massacre e declara que uma das intenções era receber o holofote da fama, uma vez que sabe que um número expressivo de pessoas consome audiências sangrentas e sensacionalistas.

            Kevin é esse rapaz. Meticuloso, astuto e diante desse comportamento frio, muitos acabam por atribuir que a responsabilidade seja individual, de um sujeito desviante da norma social.

            Mas em que medida nossa sociedade também não tem elevados índices de perversão? Quando nos preocupamos mais com a história do assassino do que com as vítimas, o que indicamos com isso? Ao consumir ou produzir discursos de ódio ou notícias falsas que modelo social estamos construindo? Quando as famílias não possuem diálogo, ninguém se interessa pelo cotidiano uns dos outros, não há afeto, o que essas pessoas estão comunicando entre si?

            Alguns elementos de Kevin podem estar em nós, pertencentes a uma cultura narcísica, de restrição à participação social, acostumados que somos ao individualismo. Aliado a isso, um Brasil que tem em sua gênese colonial o genocídio dos povos originários, as marcas irreparáveis de uma escravidão que foi uma das últimas a ser abolida, e a morte de mulheres, que nos coloca no lastimável ranking mundial de 5º lugar de feminicídio.

            Ora, mas se temos enquanto seres humanos condições sociais que nos possibilitam a frieza no trato com o outro ou um histórico de Brasil declaradamente violento, por que o crescimento de ataques às escolas foi maior nos últimos anos?

            Múltiplos fatores podem ser elencados, mas não tem como deixar de mencionar o crescimento do discurso de ódio, validado inclusive por personalidades públicas e concomitante, um aumento de 270% de grupos nazistas em 3 anos. Cabe lembrar que nazismo é um regime da extrema direita, violento e que tem cooptado através da internet um público jovem, sedento por visibilidade, vínculos e valorização.

            É importante chamar a atenção que foram ataques “às escolas” e não apenas “na” escola. Não aconteceu em shopping, símbolo do capitalismo, nem ataque a metrô, símbolo das metrópoles. E o que a escola ainda representa? Local do convívio com a diferença, de encontro com a diversidade, onde a democracia tem um enorme potencial, o que é algo inaceitável por ultraconservadores que tentam silenciar professores e currículos. Além disso, o massacre em escola também é um indicativo da necessidade de gerar o caos, o pânico, o medo e junto a isso, a preocupação em se armar.

            Assim, para os acionistas da Taurus, para os “Senhor das Armas” não adianta liberar o porte de armas se as pessoas não se sentem inseguras o suficiente para se armarem. Essa foi a conclusão que Michel Moore chegou no documentário “Tiros em Columbine” na (ir)responsabilidade do discurso midiático que propaga veementemente o medo para gerar a necessidade de aquisição de armas, câmaras e todos aparatos para as pessoas se blindarem umas contra as outras, afinal o inimigo pode estar em qualquer lugar. No interesse capitalista em vender armas sobrepondo o valor da vida, alguma semelhança com o personagem Kevin?

            Contra a lei do mais forte e contra a ideia do “cada um por si” é necessário uma segurança que seja PÚBLICA, com alto nível de preparo técnico e de abordagem humana, de modo que consigam exercer com zelo suas obrigações perante o povo brasileiro, na defesa da vida e da justiça. Reforço que isso é um trabalho fora das escolas, na vigilância das mediações, na utilização da inteligência policial para prevenção de crimes. Só isso basta? Claro que não. Faz-se necessário uma política que seja ampla, porque onde a sociedade é mais desigual mais a violência brota. Portanto, é imprescindível a valorização salarial, geração de renda e de emprego, investimentos em educação, saúde, segurança pública e regulamentação da mídia.

            Esse último é um ponto nevrálgico! Enquanto não houver um regramento da internet e da comunicação de massa, enquanto for possível a propagação de notícias falsas, ou o acesso a canais que potencializam a violência e a perseguição a grupos mais vulneráveis, haverá o destaque na sociedade de todo esgoto humano passando em céu aberto, sem controle, sem pudor, sem sentimento de culpa, mostrando que Kevin está mais presente do que imaginamos.

            Enquanto isso não é uma realidade, que a família, pais e mães abracem seus filhos, mostrem o quanto são importantes, sejam presentes. E… também estejam na vida em sociedade para defesa e luta por uma sociedade mais justa. Afinal, não há como escolher entre “criar um filho bom para o mundo ou um mundo bom para o filho”. É urgente e necessário que sejam as duas coisas.

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual

Mãe da Isabela de 11 anos

Texto publicado no Jornal da Cidade 14/04/2023

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Transporte público e o acesso à cidade

             


            Eu trabalho na zona sul de Poços de Caldas desde 2008 e uma coisa que sempre me chamou a atenção era o hábito dos alunos dizerem que gostavam de vir para a cidade. Vou repetir: gostavam de vir para a cidade. Não falavam para o centro da cidade. É como se diante da distância de 8 quilômetros não se considerassem pertencentes a Poços de Caldas ou se sentissem estrangeiro na própria terra.

Mas é compreensível esse tipo de pensamento, afinal a história da nossa cidade com seus balneários de grande estilo arquitetônico, hotéis e cassinos de luxo, evidencia uma opulência que se contradiz com a segregação de moradores de baixa renda que foram empurrados para os bairros mais distantes, sob pressão do valor do imóvel. O problema é que essa mudança das regiões mais centrais não foi acompanhada por uma vivência num espaço acolhedor. Cabe lembrar, por exemplo, que na inauguração do Conjunto Habitacional não havia creche, nem escola, nem rua asfaltada e a falta de água era uma constância. Em linhas gerais: era um bairro que servia como um imenso dormitório urbano daqueles que trabalhavam no centro, mas não usufruíram de seus bens.

Na música “Cidadão” interpretada por Zé Geraldo, há o trecho no qual o construtor civil olha para o prédio e se lembra das dificuldades e das “4 condução, duas para ir e duas para voltar”. E nessa distância entre o produto do trabalho e o trabalhador, tentam nos fazer crer que não devemos participar daquilo que ajudamos a construir.

E isso não impacta apenas na marginalização social, a qual, diga-se de passagem, ficará pior com a privatização dos pontos turísticos. O outro impacto é a alienação. Alienação é estar alheio a algo, e pela corrente marxista é um termo utilizado para mostrar quando o trabalhador não se reconhece no próprio produto do seu trabalho, atribuindo a outros o que foi fruto do seu esforço.

Não é a prefeitura que cuida de jardins, que asfalta ruas, que limpa canos de distribuição de água. Não são construtoras que fazem edifícios. Não é o comércio que vende. Para tudo isso acontecer teve a mão do homem e da mulher, de trabalhadores muitas vezes invisíveis. É certo que há aqueles que participam mais a frente do direcionamento, da tomada de decisão, mas se não fosse a energia despendida pelos trabalhadores a cidade não teria crescimento, movimento, serviços nem nada disso.

Ora, sabendo da importância dos trabalhadores onde está a valorização dos cidadãos poços caldenses de baixa renda? Como terão acesso ao que foi produzido com os altos preços do transporte público? E isso não está acontecendo apenas no trajeto bairro/ centro, como também no acesso à escola.

É o caso da escola Padrão, que atua na região sul, uma área estimada em 60 mil habitantes. Situada no bairro Parque das Nações, a distância com alguns bairros nos quais atende, pode chegar a mais de 3 quilômetros e o problema de acessibilidade se intensifica em 2023 por falta de ônibus escolar. Isso porque até o ano passado havia uma parceria entre município e rede estadual, seguindo o disposto na Lei 10.709 de 2003, no seu artigo 3º. Porém, esse ano, diante do Novo Ensino Médio que amplia o tempo escolar, nossos estudantes não mais saem no mesmo horário que os da rede municipal, acarretando não apenas em grandes probabilidades de evasão escolar, como na insegurança de famílias, isso porque, adolescentes de 14 e 15 anos saem às 18h10 da escola.

O que estamos ensinando com isso? Que o direito à educação pode não ser acessado, pode não ser cumprido. E não estou falando de poucas famílias nessa situação, porque de acordo com respostas levantadas via formulário, há em torno de 200 estudantes que precisariam do transporte e não podem custear.

É preciso transporte público de qualidade e com tarifas mais reduzidas. É preciso a acessibilidade a bens culturais e comerciais da cidade. É preciso transporte escolar para que nossos estudantes façam o trajeto casa e escola em segurança. É preciso vontade política para defender que a cidade deve ser usufruída por todos.

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual 


Texto publicado no Jornal da Cidade 7/04/2023




sexta-feira, 24 de março de 2023

É preciso ir soltando a mão

 


Eu deveria ter tirado uma foto, mas não tirei.

Ficou registrada em mim a lembrança e a forma de eu traduzir o que está na minha mente é apenas se eu contar... então vamos lá.

Viagem a São Paulo com a amiga e as crianças. A programação era visitar museus, parques, só que tomou outro rumo. As crianças queriam além do combinado, andar de metrô, afinal essa experiência ainda não fazia parte de suas vidas.

Recomendação de mãe: Isabela, você vai ficar próxima a mim, pois geralmente é muito lotado.

Pois bem. A Marci segurava a mão da Tatá, sua filha de 8 anos e a Bela estava agarrada em mim, como um carrapato. Maria, a filha mais velha da Marci, ia na frente, toda segura de si.

Enquanto fazíamos o caminho até chegar no metrô, quantas coisas foram aprendendo... identificaram no mapa, onde estávamos e onde iríamos e experimentaram a compra dos bilhetes nas máquinas. Perceberam que escada rolante é para poupar tempo e esforço humano, mas que para muitos paulistanos elas ainda são lentas demais, pois há um local na lateral destinada para os que querem se apressar. Descobriram que para entrar no metrô não pode ser depois do silvo e que é possível verificar o trajeto de acordo com a luz que vai se acendendo no painel com o nome de cada estação.

No retorno, não havia a tensão inicial porque não tinha tantos passageiros. Qual a foi a cena linda que merecia foto? De ver as duas crianças, que até então estavam presas às suas mães, se sentirem desafiadas por si mesmas a voltar, como se fossem João e Maria, seguindo as migalhas de pão.

E era bem isso... precisaram observar e ler o cenário: letreiros, placas, pistas, lembranças. As adultas iam atrás, com uma distância segura, acompanhando o desenvolvimento, olhando se elas acertavam o caminho ou não. Em determinado instante a Tatá ficou longe da Bela, e a Bela recuou, esperou a amiga e seguiram. Seguiram.

Não teve como eu não lembrar da origem da palavra pedagogo, que vem do grego, juntando o pedacinho paidós (criança) e o pedaço agogé (condução). Era um trabalho realizado pelos escravizados na Grécia Antiga, que consistia em acompanhar a criança até a escola, ou seja, até o saber.

Adquirir um saber é uma condição para libertação, de independência, de soltar a mão de quem está te tutelando. Não ter a mão de alguém pode dar uma sensação de insegurança, de se sentir sozinho, mas é um ato de coragem, de quem se entrega na aprendizagem contínua e vai lendo pistas para trilhar com mais firmeza e nisso saí criando novas estradas.

A pergunta é: nós, adultos, estamos acompanhando com zelo para que nossas crianças e jovens se sintam confiantes em apostar na liberdade?

E isso não é fácil. Afinal, é preciso ir soltando a mão, mas sem desamparar. Por isso, o trabalho do antigo pedagogo grego pode ser referência, para famílias e educadores. Ele não levava a criança no colo, nem tampouco negava de guiar. Ele acompanhava, estava presente para orientar, para aconselhar.

Não são poucos os casos de adolescentes que vão à minha sala alegando ansiedade. O curioso é que “na conversa vai e conversa vem”, descubro que não possuem rotina, que vão deitar de madrugada, que ficam isolados nos seus quartos horas a fio no celular, se comparando com todas as vidas, ao ponto de cogitarem que que são insignificantes. Não há hábito de leitura de livro, nem prática de atividade física, nem conversa em família. Entretanto, tomam remédio para ansiedade.

Na ausência de projetos e de pessoas que os acompanhem na jornada, estão estagnados num repetitivo presente e enquanto isso, estendem a mão para a medicalização. Não são livres, pelo contrário, estão presos a droga e à uma ausência de rumo. Daí conversamos e eu como pedagoga, tento acompanha-los. Esboçamos as possibilidades de mexer no cotidiano, oriento o quanto a atividade física traz a sensação de prazer e bem-estar, de como é saudável diminuir a conexão com as telas e aumentar o vínculo com amigos e família. Saem da minha sala levando um rascunho da prosa e um livro de literatura debaixo do braço.

E eu, fico a observar, na esperança de que entendam que o conhecimento é bússola que serve à autonomia, para não depender, nem de ninguém, nem de nada. Só assim, suas mãos estarão livres e trilharão com segurança os próprios caminhos, sem se sentirem abandonados.

 

 

Ana Paula Ferreira

Pedagoga e Supervisora da rede estadual
Texto publicado no Jornal da Cidade - 24/03/2023

quinta-feira, 16 de março de 2023

Feminismo dos bastidores e dos palcos

            

Fotografia de Nany de 2020

            Certa vez, eu estava num café e uma mulher, que chegou com uma colega, desabafou “Eu até concordo com algumas coisas das feministas, mas não tudo”. Pois bem. O que era esse tudo? Por fim, ela relatou que se incomodava com as que mostravam os seios em praça pública, as que faziam esquetes teatrais chocantes, as que defendiam o aborto.

            Fiquei pensando o quanto esse pensamento não deixa de ganhar projeção entre tantas outras. E no fundo é o pensamento da nossa sociedade que finge ser libertária, mas que exerce o controle de corpos a todo momento. “Eu gosto de dar aula, mas com alunos quietos”, “Não sou racista, mas sou contrário às cotas”, “Respeito os homossexuais, mas eles não precisam ser escandalosos”… e exemplos não faltam pra elucidar que no comportamento ainda há a persistência do controle, da desigualdade de narrativas ou da negação às várias formas de ser no mundo.

            Tem ganhado espaço os discursos contra violência de gênero. Mas, eles adquirem aprovação quando são em palestra, entrevista na TV, fala nas redes sociais. São ferramentas importantes porque transmitem uma ideia de Direitos humanos, porém, desde que sejam comunicações dentro do que se considera como um marco civilizacional. Tudo que fugir a isso é considerado barbárie, coisa de feministas loucas.

            Em 2017 fizemos um ato no terminal de linhas urbanas da cidade de Poços de Caldas para denunciar o feminicídio. Não faltaram ataques nas redes sociais. E olha que ninguém estava com os peitos à mostra. Diariamente as mulheres precisam se impor para falar, se posicionar, serem ouvidas. O espaço não é dado. É duramente conquistado, pois não é considerado como delas. Daí que homens, mesmo os que se acham desconstruídos, as coloquem no papel de “destemperadas”, de “nervosas”, de “mentirosas”, mas não observam que elevam o tom de voz, que são irônicos e sarcásticos para desconsideram os argumentos femininos, que exercem uma violência de “Barbas Azuis” da modernidade. Na verdade, anseiam que ninguém exponha o quartinho sombrio onde mutilaram verbalmente as diversas mães, filhas, trabalhadoras, não querendo por fim se encontrar com o seu próprio “eu” raivoso, que assedia, humilha as mulheres.

            E como esses “Barbas Azuis” fazem esse movimento? Como os opressores sempre fizeram. Ou elaboram uma história para retirar a dignidade do outro, de modo que ninguém lhe tenha apreço ou o ignoram, o tratam como invisível. A invisibilidade está no silenciamento dos nomes atribuídos aos monumentos de uma cidade ou mesmo nas “micro” histórias, das que ocorrem no dia a dia, nas casas, nas escolas, nas fábricas, nas ruas.

            Mas a resistência é algo apaixonante para quem contesta a opressão. Porque ela encontra mecanismos criativos de se colocar. Pode ser desde a protagonista do livro “A vida invisível de Euridice Gusmão” no qual a dona de casa, quietinha e reservada, vai se colocando pouco a pouco na arte literária, na vida pública, ou pode ser de uma maneira mais ousada, fora dos padrões, daquelas que marcaram histórica pela intensidade e continuidade na luta.

            Se hoje há a liberdade de contestar a desigualdade entre homens e mulheres sem sermos mortas por isso, muito se deve a Olympe de Gouges que em plena Revolução Francesa tornou essa demanda explícita nos seus textos teatrais e que por conta de sua petulância em desafiar um política pensada por homens e para homens, foi guilhotinada.

            Se atualmente há direitos trabalhistas, sociais e econômicos, não há como não reconhecer os benefícios do socialismo soviético e quem iniciou a primeira fase da Revolução Russa foram as tecelãs na sua greve por “pão e paz”, cuja data é o marco feminista do dia 8 de março. Se temos a liberdade em votar e sermos votadas, é devido a luta de diversas mulheres, com destaque a irreverência de Bertha Lutz, que usou de um avião para lançar panfletos sobre o sufrágio feminino.

            Portanto, a palavra é sororidade. Respeito às mulheres que não possuem o perfil de sair às ruas, de se expor publicamente e fazem a mudança de mentalidade nos bastidores. Contudo, respeito também às que se colocam de uma maneira mais combativa, nos palcos sociais. A feminista militante não está agredindo ninguém com seu corpo exposto ou na eloquência discursiva em vias públicas. Agressão é feita cotidianamente por companheiros que matam, patrões que assediam, Estado que não assegura creches, asilos ou salários dignos e consequentemente empurra para que as mulheres exerçam a tripla jornada em seus lares no cuidado das crianças e idosos.

            Precisamos ter o cuidado de não comprar a narrativa do opressor. Isso não é difícil de acontecer, pois possuem toda uma estrutura para disseminar uma versão discriminatória de sociedade. Desconsiderar a luta das que se expõe é seguir o fluxo de uma sociedade violenta, que queimou centenas de mulheres em fogueiras como “bruxas” na Idade Moderna, que considerou todas as que infringiam os “bons costumes” como loucas. Se loucas somos nós que desafiamos essa normalidade doentia, então não há problema nenhum com esse adjetivo.

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação e supervisora na rede estadual