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sábado, 7 de outubro de 2023

Direitos Humanos e o Feminismo

 

Imagem do site: https://contrafcut.com.br/noticias/luta-das-mulheres-por-direitos-humanos-e-permanente/


         Os Direitos Humanos não nasceram prontos de fábrica. Foram séculos de luta e para fins didáticos, o jurista Vasak os dividiu em três grandes gerações: os relacionados à liberdade, à igualdade e à fraternidade. Isso não significa que se estagnaram num momento histórico ou que se consolidaram de maneira uniforme em todo lugar da Terra. Apenas é uma forma de compreender dentro de uma conjuntura.

Os direitos de apreço à liberdade se situam no que foi denominada de Primeira Geração, tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. Os pedidos de ordem eram na questão civil e política, de modo que, resumidamente, as pessoas tivessem liberdade de expressão, de ir e vir, de votar e serem votadas. Contudo, é de chamar atenção que embora fossem Direitos Humanos, e obviamente as mulheres também sejam humanas, o mesmo peso no campo legal não era direcionado às mulheres, ao ponto de Olympe de Gouges ter sido guilhotinada quando discutiu a falta de acesso aos direitos vivenciado pelas mulheres. Basta lembrarmos que várias décadas se passaram para que as mulheres conquistassem o direito ao voto.

A Segunda Geração é marcada pelo valor da igualdade, haja vista que se situaria junto à expansão do Estado de Bem Estar Social. Estão aqui os direitos sociais, que devem ser usufruídos por todos, ou seja, a educação, saúde, saneamento básico, segurança, etc. Aqui novamente as mulheres não são colocadas no âmbito dos Direitos Humanos, uma vez que o direito ao estudo muitas vezes era negado, e a mulher era tratada como cidadã de segunda categoria, um “segundo sexo”, como nomeou Simone Beauvoir

Por fim, na Terceira Geração, alinhada à ideia de fraternidade, estaria a defesa de grupos minorizados socialmente e a importância de políticas públicas que os retirem do espaço da marginalização política e econômica. Nos grupos oprimidos, estariam os indígenas, população negra, pessoas com deficiência, as mulheres, dentre outros. 

Daí segue a pergunta: Como o feminismo poderia colaborar para os Direitos Humanos? Ora, como dizia a escritora bell hooks... o feminismo é para todo mundo e, nesse sentido, se nota um teor da ideia de igualdade, de distribuir direitos e o que humanidade produziu de melhor. Não há supremacia. Não há hierarquia. Há a defesa de uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres. Não é inverter a lógica e as mulheres oprimirem os homens. É inclusive combater que essa dinâmica de opressão, pelo marcador de gênero, raça, orientação sexual, nacionalidade ou qualquer outra coisa. Isso porque se entende que essas segmentações sociai nada mais são do que uma forma de fragmentar os trabalhadores, e, portanto, facilitar a continuidade de um sistema econômico que mantém a desigualdade, massacra indígenas, expulsa população rural do campo, mata moradores da favela, culpabiliza jovens pobres pela sua condição, controla corpos femininos e assassina a população LGBTQIA+.

Esse é o pressuposto de todos tipos de feminismo? Não. Por outro lado, esse feminismo, que é um feminismo revolucionário, ou nas palavras de bell hooks, visionário, é o que possibilita que de fato a justiça social, mediante uma luta que se faz constante em se tratando de uma perspectiva anti imperialista, antirracista, anti neoliberal.

Por que isso? Porque caso contrário, não alcançamos de fato a democracia plena, mas damos continuidade na opressão, dessa vez de, por exemplo, uma mulher oprimir a outra. Se antes o discurso mais corrente era de que homens são mais inteligentes para se valerem de espaços de poder, hoje essa narrativa vai sendo aos poucos substituída pela ideia de que independente de homem ou mulher, terá oportunidade quem for competente. O velho discurso meritocrático se fazendo presente, taxando algumas de fracassadas e colocando holofote em outras, como se esse binarismo fosse resultado apenas do esforço. 

Se queremos seguir na defesa dos Direitos Humanos que se leve em consideração a tríade classe social, gênero e raça. Deixar o aspecto classista subalternizado é contribuir para o feminismo liberal que pouco avança na ideia de igualdade. Ignorar a questão racial por sua vez é dar continuidade ao Pacto da branquitude e ao invés de se defender direitos, entrar numa seara de defesa de privilégios. Portanto, um feminismo revolucionário pode contribuir e muito na defesa dos Direitos Humanos, de modo que liberdade, igualdade e fraternidade ganhem mais sentido para todas as pessoas.

 

Ana Paula Ferreira

Integrante do Coletivo Feminista Mulheres pela Democracia

Texto publicado no Jornal da Cidade - 04/10/2023

 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Feminismo e combate ao fascismo

 


     Antes de compreender como o feminismo pode fazer esse combate, precisamos definir o que de fato é fascismo para ter mais clareza do alvo objetivo. E por outro lado, também é necessário reconhecer os instrumentos do feminismo para identificar como pode ser essa intervenção.

Fascismo é um pensamento, uma ideologia política da extrema direita, que se opõe ao socialismo, e no qual o Estado exerce uma presença forte e de controle sobre a vida pública e privada da população, justamente porque angaria esse apoio do povo. De acordo com o romancista e linguista Umberto Eco, o fascismo enquanto ideia se eterniza, justamente porque se apresenta inclusive com trajes civis, e compete a cada um de nós jamais esquecer o que significou sua presença na II Guerra Mundial e no Holocausto para que evitemos a reprodução dessa barbárie histórica.  

            Alguns pontos importantes do fascismo que Umberto Eco elenca e que se destaca para esse texto são: 1) Culto à tradição; 2) Medo das diferenças; 3) Desprezo pelos oprimidos; 4) Culto à figura de mitos; 5) Machismo; 6) A Novilíngua de Orwell. Ora, numa perspectiva de feminismo socialista, o qual vai além de uma perspectiva liberal, se nota que é possível se valer de suas ferramentas para contrapor a ideologia fascista, e vejamos o porquê, também em seis razões.

            Primeiro porque assumir o feminismo é algo que de acordo com bell hooks é para todos, lembrando que se trata de uma defesa de uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres. A partir desse ponto, já é uma forma de se remar contra a tradição patriarcal milenar, mas, que como qualquer outra cultura, é possível de mudança caso os sujeitos sociais se envolvam nesse processo.

            Segundo porque o feminismo e os estudos dentro da questão de gênero trabalham com uma coleção de conceitos que permite compreender melhor a questão de gênero: sexo, gênero, cis, trans, heterossexual, homossexual, orientação sexual, identidade de gênero, etc. Assim, à luz de definições, de entendimento e sensibilização sobre os grupos marginalizados numa sociedade homofóbica e machista, abre-se a possibilidade desse medo das diferenças diminuir. Isso porque o outro deixa de ser colocado como objeto descartável, para adquirir uma outra perspectiva, na qual é humanizado, visto não apenas em suas diferenças, mas também no que nos aproxima enquanto humanidade.

            Se por um lado o fascismo investe no desprezo aos grupos sociais mais vulnerabilizados, por outro, o feminismo socialista, vai intensificar reforços numa dupla batalha: contra a desigualdade econômica e contra a desigualdade de gênero. Assim, embora o fascismo venha com seus tratores ideológicos com frases do tipo “Ela não merece ser estuprada” ou “O erro da ditadura foi torturar e não matar” ou “As minorias precisam se curvar a maioria”, o feminismo socialista trabalha numa perspectiva de que levar em consideração que enquanto houver capitalismo, ocorrerá a desigualdade econômica e, portanto, haverá necessidade dos grupos que estão no poder em dividir a população, desarticular os movimentos sociais, sindicatos, associações que promovam a solidariedade e o bem comum, porque no abandono do indivíduo a própria sorte ele é mais manipulável e possuí menos condições de resistência.

            Culto a figura de mitos é outra característica fascista, nesse apelo à personalismos, a pessoas que se colocam além do ser humano convencional e anseiam pela fama, numa notoriedade mesmo que sejam medíocres e não haja fundamentação racional para sua importância. Com o feminismo socialista ele nos proporciona a possibilidade de questionar esses lugares de empoderamento individual, afinal, para cada Paola Oliveira ou Djamila Ribeiro ficar em destaque nas propagandas da Avon, milhares de mulheres invisíveis precisam bater de porta em porta e oferecer o produto, num trabalho desenvolvido a anos de maneira precarizada, e sem a reflexão sobre esses lugares de subemprego.  

            Em quinto lugar, machismo é um dos pilares no qual o fascismo se assenta, lembrando que o fascismo é um movimento de defesa do capitalismo com a presença forte do Estado, na ideia de assegurar privilégios e não direitos sociais. Silvia Federici na obra “Calibã e a Bruxa” evidenciou que o processo de acumulação capitalista cerceou todos elementos que poderiam ser produtivos: terra, meios de produção e a mulher. Assim, o homem foi tratado como pequeno rei em seu lar e a mulher cabia ter cada vez mais filhos e operar dentro do ambiente doméstico. Aumentar a população era uma das tarefas para se garantir salários baixos na negociação com um grande exército de reserva e quem produzia esse contingente humano seriam as mulheres. Aliás, é curioso perceber que sempre em momentos de crise do capital, voltam os discursos que a mulher deveria ficar em casa, bela, recada e do lar, sob sustento do marido, pois, ao ir para o mercado estaria competindo com quem socialmente é aceito para estar ali.

            Por fim, no sexto ponto trazido, a Novilíngua de Orwell é uma ilustração excelente sobre o fascismo. Orwell no livro 1984 satiriza os grupos totalitários que faziam novas gramáticas reduzindo o vocabulário da população para deixa-lo mais pobre e consequentemente limitar o pensamento crítico. Sinônimo disso é quando grupos fascistas não querem explorar conceitos tão diferentes em si e pelo contrário, usam de palavras de baixo calão, jargões preconceituosos. Por isso, quando o feminismo ajuda a compreender o que é cis e o que é trans, o que é hetero e o que é homo, e não apenas o conceito em si, mas a contextualizar as marginalizações e a utopia de que outra sociedade é possível. Nesse sentido, o feminismo socialista ajuda a enfrentar o pensamento raso, as microviolências e a construir uma sociedade mais justa, numa perspectiva de consciência de classe social atrelada a consciência racial e de gênero.

            Feminismo não é coisa de mulher mal amada ou que ficou para tia. Novamente essas depreciações são parte de um raciocínio estreito de quem não se aventurou nas leituras sobre o tema. E para enfrentar o fascismo, o feminismo está também na trincheira das narrativas mais revolucionárias, visando a construção coletiva com vistas a uma sociedade com economia mais igualitária e relações mais livres.

 

Ana Paula Ferreira

Educadora e militante do Coletivo Mulheres Pela Democracia

Texto também publicado no Jornal da Cidade do dia 02 e 03 de setembro de 2023

             

             

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Entre cataratas e represas

         


                 Há uma boniteza nas coisas que são opostas: a característica é tão peculiar que preserva uma identidade mais genuína. Isso pode ser observado nas cataratas do Iguaçu e na usina de Itaipu, pois embora água em abundância em ambos espaços, ela se revela em dinâmicas diferentes.

            As cataratas se impõem pela natureza. Jorram milhões de água por segundo numa imagem belíssima de intensidade. A água segue o fluxo, sem amarras, demarcando rochas, arrastando tudo o que tiver pela frente, levando todas impurezas, seguindo o caminho até encontrar o mar.

            É como se a água se encontrasse em situação de liberdade. Está solta e por mais que haja um relevo que condiciona seu percurso, ela não se limita e prossegue aceitando sua própria força e sua própria existência de ser “água” ... Água que possibilita a vida na Terra, que escorre, que sacia a sede, que preserva o meio ambiente.

            Já a usina Itaipu também impressiona pela grandiosidade, a qual, desta vez, foi arte do ser humano, na sua engenharia e na mão de obra de 40 mil trabalhadores que se entregaram na construção da segunda maior usina hidrelétrica do mundo. A água, porém, está em outra situação: represada, passando por enormes tubulações para gerar a energia elétrica. Aliás, só abrem as comportas quando o limite é ultrapassado.

            Embora à primeira vista a água represada mostre calmaria, nada mais é do que turbulência evitada pelo seu cercamento. É aquele choro entalado, intensidade contida, potência controlada com vistas a gerar energia a incontáveis pessoas. Enquanto a catarata é grito, a água que desce obedientemente as turbinas é soluço contido, que consegue ter seus momentos de vazão apenas quando está no máximo permitido.

            Ao pensar sobre essas analogias entre água e liberdade, lembrei do livro de bell hooks, “Tudo sobre o amor”. Isso porque em determinados momentos a autora pontua o quanto o sistema capitalista aprisiona com amarras sutis as pessoas, tendo em vista que incentiva sermos produtivistas e a nossa tristeza é capturada pela via do consumo, exigindo que trabalhemos mais e consequentemente, passemos menos tempo com a família ou em momento de puro ócio.

Assim, se para uma grande parcela da população a liberdade é palavra de dicionário, porque estão ainda buscando pela sobrevivência, em contrapartida há também a situação de que para muitos a liberdade é evitada, pois ela significa assumir quem somos e termos decisões mais autênticas. Na intenção de sermos úteis, dizemos “não” a nós mesmos e acabamos por ser a água que desce pelas turbinas, gerando energia para os outros e não para si. Essa energia pode ser o lucro, o tempo, o cuidado e tantas outras coisas que fornecemos nas nossas relações afetivas, de trabalho ou sociais.

            O problema é que caso não seja um movimento de mão dupla, horizontal, em que ambas partes estejam num processo de mutualismo, provoca um cansaço mental e físico, desgaste e gera a dor de nunca se conectar com a própria energia. Diante dessa falsa calmaria, há um silenciamento que traz angustia, insônia, ansiedade, adoecimentos, pois ao invés de liberar esse sentimento represado através da arte, escrita, terapia, atividade física ou qualquer modo que ajude a reelaborar, buscamos o alento em nos encher de coisas e nos esvaziamos do ser, do sentir, do viver intensamente.

            Liberdade e amor estão juntos e não separados. Porque ao fazer escolhas e se contentar com elas há um sentimento de bem estar, de amor próprio, de se permitir sonhar e de se aceitar ao ponto de se jogar por inteiro, no amor a si, ao outro e ao mundo. Quando há esse aceite, há menos autocobrança e mais responsabilização, mais reflexão e menos sentimento de culpa, mais relações saudáveis e menos toxidade. 

Por mais que a catarata traga mais insegurança e incerteza, ela nos move num processo de autenticidade, de autoconfiança e percepção de nosso universo interno, com nossas limitações e potencialidades. Já na represa, buscamos o encaixe social, justamente pelo medo de ficarmos isolados e nesse processo, represamos toda plenitude da qual poderíamos desfrutar.

Que possamos enfim, ser mais catarata e menos represa.

  

Ana Paula Ferreira

Texto publicado no Jornal da Cidade - 02/08/2023


quarta-feira, 28 de junho de 2023

Ensinar a desobediência civil


            É bem anárquico o título, mas é essa intenção.
            Isso não quer dizer que eu seja contrária à disciplina e acredito na perspectiva de que “disciplina é liberdade”, pois organização, canalização de uma energia com vistas a um objetivo, planejamento, são formas de sermos livres, termos escolhas cada vez mais alinhadas à consciência crítica e aos direitos humanos. Aliás, se não houvesse o “não”, nem civilização existiria, e provavelmente agiríamos bem próximos aos animais, que seguem a ordem do desejo. Assim, diante da vontade de fornicar, haveria a copulação, sem constrangimento se fosse na rua com observadores; em situação de fome, não existiria o uso de talheres, do sentar à mesa, nem a decisão por determinados alimentos mais sustentáveis, bastava devorar o que se tinha à frente.

            Já que deixei claro que defendo a disciplina, e principalmente uma educação que construa autonomia, vamos para o título. “Desobediência civil” é um termo de Thoreau cujo livro é homônimo. De maneira resumida ocorreu o seguinte... Em meados do século XIX os Estados Unidos entraram em guerra contra o México objetivando anexar territórios. Contrário à guerra e à escravidão que ainda existia, Thoreau simplesmente opta por não pagar mais impostos, uma vez que esse montante contribuía para o financiamento da guerra. Ele não apenas foi preso, como escreveu o livro que inspirou Gandhi e Luther King Jr, pois enfatizava a importância de resistências pacíficas, de combate a leis injustas, pois obedecê-las é também contribuir com opressão.

            Na escola também há leis injustas e quando os alunos se negam a executá-las muitas vezes os adultos os advertem oralmente, por escrito, ou tratam a queixa como se fosse insignificante. Nessa compreensão, o espaço escolar não é um espaço de troca, de diálogo, mas um panóptico, no qual Foucault faz a comparação da arquitetura com a ideia de controle e de vigília, tão comum em quartéis, hospitais, manicômios, e até mesmo escolas. Por conseguinte, se busca o silenciamento, a obediência, generalizando alguns comportamentos e punindo desvios.

            Se a crítica é desconsiderada, tratada com frases do tipo “só vocês estão reclamando”, ou pior, se ao invés de profissionais que defendam os princípios democráticos, prima-se pela defesa corporativista, o que está se ensinando? Que a educação enquanto direito social é tratada como caridade, do funcionário público que doa e do cidadão que deveria apenas receber. Não somente isso, mas ensina-se a calar, a se contentar, a se subordinar.

            Qual é o tempo destinado para a fala dos estudantes, para a utilização do saber na argumentação, na tomada de posição ou defesa de uma ideia? Em contrapartida, qual o tempo que estão tagarelando sem sentido, sem proposta, sem direcionamento? Qual o tempo que o professor fala? Qual é o tempo destinado a assembleias, grêmios ou para ouvir de sala em sala os estudantes?  Será que a escola fica passiva esperando o estudante levar suas demandas, ou ela mesma promove momentos de escuta ativa? Qual é o tempo destinado para produção de texto e qual é o tempo usado para cópia de textos infindáveis?

            Se ao pensar nesses tempos e chegar à conclusão que o tempo escolar está mal administrado, uma escola de tempo integral no mesmo modelo, seria redundância de antidiálogo. E por falar em tempo, ele passa e nem sempre as coisas mudam, ou talvez não na velocidade que gostaríamos. Publiquei em 2016 um texto intitulado “A fabricação de máquinas de xerox na escola” que questionava o quanto as crianças copiam a matéria do quadro e o significativo número de analfabetismo funcional. Será que se elas parassem de copiar estaria errado ou errado é o ato de minar a curiosidade em aprender mediante uma prática cansativa e de teor altamente questionável?

            Alienação, conceito marxista, é a ausência de identificação do trabalhador com o produto de seu trabalho. Trazendo para o campo da escola, será que os estudantes se reconhecem no que copiam ou se identificam nos textos autorais que produzem? Estamos alienando ou proporcionando emancipação? Em época de expansão da informação, que em fração de segundos temos tantos dados ao nosso dispor, é extremamente inoperante reforçar a cópia pela cópia. A máquina já faz isso e o que nós humanos temos de diferencial é na nossa capacidade de criar, projetar, sonhar, fazer planos criativos. Por isso, aprecio a escrita como técnica de memória, mas desde que conduza a uma escrita criativa, que incentive a produção dos estudantes, seja num mapa mental, resumo, registro por tópicos ou tabela.

            E voltando na desobediência civil, se a escola pouco provê de momentos de diálogo, se a prática docente é mais ancorada em passar textos para cópia do que estratégias mais significativas, como encararíamos a ideia se os estudantes, por exemplo, se recusassem a copiar?

            Rosa Parks foi uma mulher negra que se recusou a levantar do banco de um ônibus para ceder o lugar a um homem branco. Era uma lei, mas ela foi contra. Esse singelo gesto desencadeou passeatas na defesa dos direitos afro-americanos e boicotes às empresas de transporte público até que assinaram o fim da segregação racial nos ônibus.

            Ensinar a desobediência civil: será possível? Se não for, que pelo menos haja atenção no comportamento estudantil e abertura para um diálogo franco, no qual possamos melhorar enquanto profissionais, sem esquecer de que o tempo todo estamos formando pessoas. Daí vamos entender que existem Rosa Parks e Thoreau nas carteiras escolares e que nem sempre são indisciplinados, mas estão à sua maneira mostrando a indignação.

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação

Referências

Ana Paula Ferreira - “A fabricação de máquinas de xerox na escola”

https://www.jornaldacidade1.com.br/maquinas-de-xerox-na-escola/

Henry David Thoreau – “Desobediência Civil”

Texto publicado no Jornal da Cidade 28/06/2023 p. 9

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Postagem: impostora?

 

Eu queria postar um comentário
Deixar clara minha posição
Mas o que está no posicionamento
já foi posto por alguém?
Ou realmente fui eu?
Foi imposição?
Daí fiquei em dúvida 
Se era original 
ou se era impostora comigo mesma.


Ana Paula Ferreira
11/out/2023





terça-feira, 6 de junho de 2023

Tudo passa


           Faz mais de ano que comprei um quadro com a frase “tudo passa”. Todos os dias eu me deparava com essas duas palavras e ia internalizando, quase num mantra, para aceitar que os anos ficam para trás, cabelos brancos aparecem, filhos crescem, amigos inestimáveis estão presos às fotografias, vivências pelas quais sofremos um dia viram pura recordação.

            E por que mesmo sabendo disso é tão difícil concordar que a mudança bata na nossa porta? Por que é tão doloroso reconhecer o que Heráclito disse há milhares de anos de que nada é estático, nem nós mesmos?

            Porque envolve a ideia de luto e lidar com a morte não é fácil, seja a morte de entes queridos, seja a morte de tantas coisas... da juventude, das relações, das expectativas, dos planos. Em ambas situações, de uma morte real ou da morte de algo, há a necessidade de ser fazer o funeral (literal ou simbólico) como processo de seguir em frente, de agir sobre o que ficou de nós mesmos, de fechar ciclos.

            Mas além da dificuldade do luto existe outro desafio: trabalhar com o sentimento do apego. Sabe a famosa frase do Pequeno Príncipe “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”? Resumindo, o apego é isso... uma doação, vínculos, memórias, histórias que fizeram que o objeto amado se torne bonito e especial. Daí temos outra questão: em que medida desapegar envolve descartabilidade?

            O sociólogo Balman quando trouxe o termo de modernidade líquida apontou o quanto as coisas estão mais frágeis, fugazes e que se antes era comum o sujeito aposentar no mesmo emprego que trabalhou a vida toda, matrimônios que duravam décadas ou o estudo (técnico ou graduação) já ser quase uma garantia de emprego, hoje nada é seguro, tudo é efêmero.

             Mário Sergio Cortella trouxe uma metáfora nesse sentido quando conta que era comum encontros familiares para fazer pamonha e que o trabalho era igualmente proporcional ao tempo em estar junto, de rir, conversar, contar causos e partilhar a produção. Atualmente, na contramão, além dessa prática não ser comum, consome-se macarrão instantâneo feito em três minutos, tudo rápido, tudo veloz para atender nossa lógica desenfreada de tarefas e que nos retira aos poucos das nossas convivências mais genuínas.

            Essas convivências autênticas são aquelas em que desnudamos nossa alma. Até porque se na sociedade somos CPF, nas relações comerciais somos cartão de banco e no trânsito CNH, são nas relações mais próximas que podemos sentir que somos únicos e que tornamos o outro também especial. Por isso é tão sofrido encarar esses lutos, pois envolve um período solitário, de não importar com o que importávamos. Aliás, essa palavra “importar” é interessante porque além de se referir ao que damos importância, é também verbo do que trazemos de outros lugares para dentro do nosso espaço, e nesse momento de solidão, o que mais precisamos é de nos abastecer de nós mesmos, até para diferenciar entre o desapego e a descartabilidade.

            Talvez uma frase que ajude nesse sentido é a de Frida “Onde não puderes amar, não te demores”. Não significa que as coisas devem permanecer apenas por hábito, tradição ou qualquer coisa do tipo. Contudo, não é tampouco descartar, porque descartamos o que é facilmente trocado, é o guardanapo que não virou papel de mensagem de paquera. Se há luto, é porque houve afeto, fomos afetados e, portanto, a ideia não é descartar o que foi, mas de saber que se não há condições de ser e de fazer o outro feliz, que tomemos outros caminhos.

Ana Paula Ferreira

Aspirante a escritora


Texto publicado no Jornal da Cidade, 07/06/2023

terça-feira, 16 de maio de 2023

Trabalho com educação étnica nas escolas

 Aqui fica um link de uma entrevista à TV Plan, de quando desenvolvi o Projeto "Menina Bonita do laço de fita" e que ganhou prêmio Educaminas em BH no ano de 2014.


https://youtu.be/u9XOfbuecTw

Contra a cultura do ódio

 


            Dia 5 de maio finalizamos um dos Projetos de Psicologia na escola Padrão. As estagiárias, extremamente sensíveis, além de perceberem as incivilidades entre os adolescentes, também observaram que o banheiro feminino era espaço para a detração e “muro da maledicência”.

            Cada uma que ia lá, via nas portas, divisórias ou perto do espelho as ofensas destinadas às mulheres, nomes de jovens que já passaram pela escola e que talvez até fossem conhecidas na comunidade. Um simples gesto de veneno misturado com errorex ia plantando raiz de desqualificar umas às outras pela aparência, pelo corpo, pela vida amorosa, mostrando que a obra “Mito da Beleza” de Naomi Wolf ainda era atual, no controle estético com vistas ao controle de gênero, tantas vezes incorporado pelas próprias mulheres sem que se dessem conta. 

            Isso serviu para uma ação articulada de 7 encontros, sendo um deles planejado com apoio dos docentes da escola. Em dia combinado, os rapazes se reuniram com o professor responsável da aula e conversavam sobre masculinidade tóxica. Enquanto isso, as adolescentes participaram com as estagiárias de uma roda de conversa sobre sororidade, machismo estrutural, cultura do linchamento moral.

            Através desse diálogo foi possível a consciência de que as violências verbais não eram coisas de espaços desorganizados ou bárbaros, mas podem ocorrer em todo lugar, a partir do momento que os sujeitos não estão refletindo sobre seus atos, com vistas à mudança de comportamento.

            Diante disso, as estagiárias propuseram que as estudantes escrevessem frases de empoderamento para serem coladas nos banheiros, por cima das ofensas. Não houve apagamento dos absurdos. Isso foi simbólico, porque da mesma forma que é difícil limpar o que estava registrado na pedra, também é moroso o processo de apagar grosserias que nos dizem. Entretanto, por cima colou-se cartões de todas as cores, com frases encorajadoras, para que quem lesse entendesse que havia alguém pensando num mundo com mais boniteza.

            A intervenção das estagiárias foi carregada de sutileza e de sentido. Porque em tempos de redes sociais denominadas “fofocas da escola”, em uma sociedade que consome em grande escala a cultura do ódio, os indivíduos normalizam o menosprezo, a ofensa, a calúnia. E o pior... como são inúmeras vozes, quase num coro, os ultrajados chegam em algum momento a acreditar nos insultadores, mesmo que sejam palavras sem coerência, sem fundamento para existir. Isso nada mais é do que a voz do opressor existindo no oprimido.

            Em relação a isso, há dois passos de enfrentamento que vejo por ora.

            O primeiro vai ao encontro do que o Papa Francisco escreveu numa carta encíclica sobre o que significa amar o opressor. Não é aceitar o que faz, mas sim, procurar mostrar o quão arbitrário está agindo e criar condições para que deixe de oprimir. Assim, quando se prefere expor diretamente aos insultadores as violências observadas há o cumprimento dessa responsabilidade de se tirar o poder do opressor, mesmo que naquele momento ele não tenha condições de refletir e de pedir desculpas.

            Entretanto, como identificar se realmente houve opressão, se por acaso não é algo que possamos estar confundindo com brincadeiras ou com temperamento mais impulsivo? A opressão se manifesta na diminuição do outro como ser humano, em montar narrativas que se utilizam de ofensas, que menosprezam, que falsificam, ou na escolha de posturas antidialógicas de se virar as costas num momento de conversa, de apontar o dedo, de impedir a democratização do acesso a bens ou espaços que estão consagrados para um pequeno número de pessoas.

             Compreendida a opressão e como combatê-la, o segundo passo, é saber que integridade exige não contar com a aprovação alheia, mas sim com a própria consciência. Não é fácil. É mais comum seguir a onda, imitar o que os outros fazem, rir das maledicências destinadas a terceiros, postar mensagens nas redes que exponham e humilham a fim de ganhar aplausos do grupo de convivência. Nessa perspectiva, lembrei de um trecho do livro “Persépolis” da escritora iraniana Marjane Satrapi. Trata-se de um HQ autobiográfico que a autora nos conta quando foi morar na Áustria e fingiu ser francesa, sendo alvo de deboches. Por fim, ela se impõe, assume quem é, chega na conclusão de que “Se eu não mantivesse a minha integridade, jamais poderia me integrar”.

            Se a adaptação é para ganhar credibilidade, para adquirir apreço, mesmo que isso venha às custas de xingar e deixar recados maldosos no banheiro, a pessoa se integrará, porém se afastará de um processo humanizatório, de desenvolvimento ético. Por fim, cabe reforçar que haverá quem fere a história que construímos, quem planta detração, mas haverá aqueles e aquelas que vão colocar por cima mensagem de gentileza, de sinceridade misturada com acolhimento. Assim, há grupos íntegros que podemos nos integrar sem que nos percamos de nós mesmos.

 

Ana Paula Ferreira



Texto publicado no Jornal da Cidade de 16 de maio de 2023

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Pedras no sapato feminino para as trilhas na Educação a Distância (EAD)

Esse artigo foi produzido juntamente com a querida professora Ana Chaves e pretende refletir sobre as mulheres e sua entrada na Educação a Distância que pode (ou não) se apresentar como uma possibilidade de acesso ao ensino superior. De modo a termos uma compreensão mais cabal sobre condições objetivas da mulher no mundo do trabalho capitalista serão evidenciados sob análise conceitual os estudos de Heleieth Saffioti (1976; 1984; 2015) e Silvia Federici (2017; 2021) aliando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Link de acesso ao artigo:

SciELO - Brasil - Pedras no sapato feminino para as trilhas na Educação a Distância (EAD) Pedras no sapato feminino para as trilhas na Educação a Distância (EAD) 

 



quinta-feira, 4 de maio de 2023

Ensino Médio e o canto da sereia

 


            A expressão “canto da sereia” é comum para designar algo encantador, sedutor, num ritmo musical que enfeitiça, no qual o ouvinte fica tão inebriado ao ponto de não se dar conta que está se afogando, numa morte certeira. Ulisses, o grande herói grego de Homero, sabia que em determinado local, tripulantes dos navios morriam ao ouvir a melodia das sereias, e muito astuto, pediu para seus guerreiros colocarem cera nos ouvidos para evitar que fossem capturados pelo som. Entretanto, na sua curiosidade, mandou que o amarrassem no mastro da embarcação para que pudesse escutar, sem correr o risco de se jogar em alto-mar.

            Há diversos cantos da sereia que também nos seduzem. Um deles, foi o discurso do MEC de anos anteriores e de empresas da área da educação para capturar mentes e corações na aceitação do Novo Ensino Médio, estipulado via Medida Provisória em 2016 e oficializado em 2017 por lei federal. Aliás, um parêntesis. Se as mudanças eram tão positivas assim para os estudantes, porque usar de um procedimento arbitrário, como Medida Provisória? Por que fazer uma alteração curricular de tal peso com um governo de legitimidade duvidosa, que foi o Michel Temer? Pois bem… então onde está o canto da sereia?

            Nessa nova configuração, há aumento da carga horária, para que estudantes tenham mais acesso a educação integral e em período integral. Ora, se ficarão mais tempo na unidade, haverá necessidade de mais recurso para alimentação para duas refeições, mais contratação de professores, mais investimento em laboratórios de informática ou de ciências no desenvolvimento de metodologias ativas. Daí vem a pergunta, de como é possível aumentar o tempo na escola sem aumentar gastos? Isso porque no mesmo período que Michel Temer aprovou o Novo Ensino Médio, também assinou a Lei de teto de gastos, que congela por 20 anos os recursos em educação.

            O canto da sereia embutido aí é que o problema da educação não é de falta de recurso, mas de gestão, o famoso slogan “fazer mais com menos”. A comunidade escolar não conseguirá aumentar o número de salas com festas juninas. Nenhum professor conseguirá saber das demandas de todos alunos, de suas características peculiares dando aula em 40 turmas, cada uma com mais de trinta alunos. Não se trata apenas de doação, de compromisso, é questão de política pública, de um Estado cumpridor com suas obrigações constitucionais, para que o funcionário público desempenhe suas funções com qualidade.

            A ideia propagada com o Novo Ensino Médio é de algo cativante, no qual o estudante pode escolher o que cursar, de acordo com seus interesses. Falam de autonomia na decisão sobre o itinerário, porém, não avisam que mais de 50% dos municípios possuem apenas uma escola de Ensino Médio, sem a estrutura adequada para ofertar os 4 itinerários de modo que haja a escolha estudantil. Qual seria a alternativa? A família se mudar para outra cidade de modo que o jovem conseguisse acesso? Além disso, é uma realidade educacional que faltam professores, espaço físico, laboratórios e, por isso, nem sempre a escola conseguirá atender as áreas de interesse dos estudantes.

            Outro canto da sereia reproduzido pelos burocratas da educação é que o Ensino Médio anterior era chato, desinteressante e que isso causava evasão. Quem trabalha nessa etapa do ensino sabe o quanto é falacioso isso, pois um dos maiores motivos é a necessidade de jovens em se inserirem no mundo do trabalho, em garantir um dinheiro no final do mês, mesmo que para isso, se subordinem a trabalhos precarizados. É a realidade de inúmeros estudantes em Poços de Caldas, que são garçons, atendentes, recreadores em hotéis de luxo da cidade, que além de não fazerem o registro em carteira de trabalho, cobram mais carga horária, e, consequentemente acabam levando essa juventude a abandonar a escola. Ora, por que em vez de se mudar o currículo, não há fiscalização desses empregos? Por que não há geração de renda suficiente para as famílias brasileiras, de modo a não permitir que jovens se antecipem em serviços que os levarão a desistir dos estudos?

           Diante do Novo Ensino Médio, as aulas serão mais dinâmicas, sob mais metodologia ativa e novos componentes curriculares – é o que diz a propaganda. Se será tão bom assim, por que a família de um apresentador global, que se mostrou a favor dessa mudança, não coloca os filhos no Novo Ensino Médio na rede pública de ensino? A verdade escondida nessa capa é que haverá uma distância ainda maior entre as redes pública e privada de ensino, pois enquanto a primeira estará suscetível ao destino de carga horária para ensinar a fazer bolo de pote ou brigadeiro, o ensino da rede privada tende a caminhar para reforçar o modelo propedêutico, preparando para o acesso ao Ensino Superior.

            O discurso é de melhorar o ensino público. Mas, sem investimento no valor do Custo Aluno Qualidade (CAQ), sem a formação de qualidade dos professores, sem um currículo que realmente valorize o saber, o Novo Ensino Médio será um canto da sereia com vistas a afogar os tripulantes de navios, preferencialmente os de escolas públicas. Não se trata de não escutar o canto, nem de ficar paralisado perante ele, mas de entender seus engodos, e nos articularmos enquanto sociedade para a sua revogação, enquanto há possibilidade democrática para tal.

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual de ensino

Texto publicado no Jornal da Cidade 4/05/2023

E no Jornal Poços Já https://www.pocosja.com.br/2023/05/02/ensino-medio-e-o-canto-da-sereia/