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domingo, 29 de outubro de 2023

Escola pública: avanços e desafios

 

 
Imagem retirada do site: https://escolapt.wordpress.com/2017/05/06/a-escola-do-seculo-xix/ 

Há inverdades que nos contam e que precisamos refletir sobre elas. É dito, por exemplo, que se alguém viajasse no tempo e visse a escola 100 anos depois, não encontraria diferença. Continuaria a professora, os alunos, as carteiras enfileiradas, o quadro negro, como se nada tivesse mudado. O problema dessa falácia é o apagamento histórico de todos que lutaram pela escola e de todos os seus avanços. Mas, quais seriam eles?  

            Uma das principais mudanças é que o estudo era condição para poucos. Final do século XIX, o Brasil tinha mais de 80% da população analfabeta, um país de economia essencialmente agrária, trabalhadores em sua maioria escravizados ou uma população rural pobre.

Daí que na construção de um país republicano, a política tratada como coisa pública, e não de uma família ou de privilegiados, a educação também começa a ser observada como responsabilidade do Estado. É claro que o projeto nacional de educação não partiu da elite, mas de iniciativas da sociedade civil organizada e merece destaque o trabalho de intelectuais, professores e gestores que organizaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932.

Defendiam propostas em três aspectos principais: político, financeiro e pedagógico. Na questão de organização política da escola, levantavam a bandeira da escola pública, gratuita e laica, que promovesse uma sociedade mais acessível a todos, mais democrática, afinal, o conhecimento seria democratizado.  

Ao mesmo tempo que era importante a descentralização como forma da escola ter mais autonomia, isso não poderia significar um abandono dela a própria sorte no campo financeiro e daí que era fundamental que o Ministério da Educação criasse e cumprisse leis em relação a um percentual específico que fosse destinado para a educação. Já no aspecto pedagógico, propunham um tratamento respeitoso entre professores e alunos, fomento a um protagonismo maior por parte dos estudantes, críticas ao enciclopedismo, autoritarismo, castigos físicos e humilhações empreendidas.

Além do Manifesto, mães reivindicavam mais creches, famílias lutavam por mais escolas, porque estudo era um tipo de elevador social. Nesse sentido, foi-se ampliando ao longo do século XX e início de XXI os investimentos para a democratização ao ensino, mesmo que com pouco celeridade.  

Portanto, se formos resumir, a escola atual não se parece com a escola de 100 anos atrás, em três aspectos principais. 1) Na questão de universalização, ao ponto de não haver nenhuma restrição para o ato da matrícula,; 2) Avanços significativos na relação professor/ aluno, não mais no medo, mas na criação de vínculos e de outras formas de abordar o conhecimento; 3 ) Acessibilidades de diversas ordens: livro didático, merenda escolar, alunos com deficiência com matrícula garantida, etc.

Se é com base na luta que temos conquistas, quais então são os desafios atuais? Será que temos respostas condizentes com os problemas?

Um dos principais problemas é um baixo valor de CAQ, ou seja, de Custo Aluno Qualidade, que impacta diretamente na aula, diante da escassez de investimento estatal, seja para manutenção das escolas, construção de laboratórios de informática e de ciência, melhoraria no acervo da biblioteca, etc. Por outro lado, quais foram as alternativas? Alegam que a aula está desinteressante, mudam o currículo no Ensino Médio e ainda liberam o homescholling, sob argumento de que a família manifesta uma descrença em relação a educação regular e que sua vontade deve ser respeitada. Consequência: quebra-se a ideia de projeto de nação no qual a escola tem fundamental importância na constituição de cidadãos e, por outro lado se isola novas gerações do encontro com seus contemporâneos.

Outro problema é a falta do pagamento do piso, que como resultado, gera greve, e, dias seguidos sem aula. Solução óbvia: cumprimento da lei 11.738/2008. Mas, em contrapartida, o reajuste não é feito e, pelo contrário, os professores são culpabilizados, tratados como doutrinadores ou como ingratos por terem estabilidade empregatícia. Escondem que a estabilidade é uma garantia que mesmo que haja mudança de governo, os funcionários permaneçam e, portanto, ocorra a continuidade dos serviços prestados.

Também é importante diminuir a quantidade de alunos por sala. Isso traria a possibilidade de maior vínculo com os alunos, proximidade com suas demandas, planejamentos mais direcionados, e maior facilidade de potencializar o pertencimento de cada um com o grupo, haja vista que em turmas abarrotadas, alunos viram números e as situações de indisciplina são mais difíceis de contornar. De maneira distorcida, trazem a pauta das escolas cívico-militar, como se questões pedagógicas se resolvessem nas mãos de militares.

Assim sendo, percebe-se que educação pública embora seja um direito na Constituição Federal de 1988, ainda é algo a ser permanentemente defendida, seja para contrapor falsas soluções, seja para que avance em suas pautas de inclusão e democratização do saber, na construção de sujeitos que se comprometam com um mundo mais igualitário, justo, fraterno e bonito de se viver.  

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação e militante do Coletivo Educação

Texto publicado no Jornal da Cidade - 29/10/2023
E também no link 
https://www.jornaldacidade1.com.br/escola-publica-avancos-e-desafios-ana-paula-ferreira/ 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

Ainda sobre Kevin - ataque em Poços de Caldas

 

  
Imagem do site: https://revistacult.uol.com.br/home/entre-a-barbarie-e-a-civilizacao-o-que-nos-une/

Diante do ataque à escola em Blumenau, em abril deste ano, foi publicado o texto “Precisamos falar sobre Kevin” que refletia sobre o perfil de um personagem de um filme que premedita violência contra os colegas e de como nossa sociedade abastece esses atos à medida que crescem células nazifascistas e intensifica-se a ausência do Estado nas políticas públicas. Em meio a isso, os meios de comunicação de massa propagam o medo e o individualismo.

Seis meses depois, há um novo ataque e, se antes parecia história norte-americana, no Brasil, infelizmente, também tem se mostrado uma triste realidade. Dessa vez, a tragédia foi na cidade de Poços de Caldas.

Kevin pode ser considerado como estereótipo desse cenário, a qual muitas vezes queremos atribuir ao biológico ou apenas à história do indivíduo e às contingências, pois daí, então, pouca ou nenhuma ação nos competiria e seria mais confortável essa justificativa. Porém, nossa subjetividade é marcada por relações que, humanas, fornecem repertórios para conseguir operar e sobreviver no mundo. Nesse sentido, destaca-se aqui como estabelecemos trocas sociais e de consumo.

Desde bebê, há a relação com o outro e cada cultura faz isso à sua maneira. Em muitos grupos indígenas, o parto é normal e isso diminui a dificuldade com aleitamento, a mãe amamenta por mais tempo, já estabelecendo um vínculo com o filho, crianças crescem juntas brincando e interagindo com a natureza sob o olhar de cuidado de todos da tribo. Já em países como Estados Unidos, a licença maternidade não garante pagamento à mãe e por isso é muito comum a preocupação com o retorno ao trabalho e diante do excesso de carga horária trabalhada, pouco tempo sobra para os cuidados dos filhos. No Brasil, a licença maternidade ainda é uma conquista em construção. Notadamente, sabe-se da qualidade das políticas públicas de um país através da forma como lida com as mulheres e as crianças.

Se a redução da jornada de trabalho é uma pauta que não pode ser ignorada, por outro lado também precisamos enquanto família pensar as relações no ambiente privado. Criar uma criança demanda abraço, olho no olho, brincadeiras, ato de ser ninada, de se sentir amada. E isso não é incumbência apenas da mãe e do pai, porque diante de uma rede de apoio de tios, vizinhos, avós ou padrinhos, é possível que a criança receba influências diferentes para seu desenvolvimento. Se é necessária uma parceria com outras pessoas, a efetividade e colaboração entre as instituições públicas também é imprescindível, na defesa dos direitos da criança e do adolescente: Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, escola, Conselho Tutelar, CRAS, CREAS, etc.

Em se tratando das relações comerciais, aprecia-se o consumo que nos anuncia a chance de felicidade. E isso invade o processo educativo-ensinativo nas relações de pais e filhos/filhas, de família. Pais e educadores são instados constantemente a compensar a ausência de tempo com os filhos, comprando mais brinquedos, deixando-os excessivamente no celular e o que era para ser uma relação de afeto ou de estabelecer limites, se transforma numa relação mercadológica, na qual objetos são mais valorizados do que os momentos em família. Não raro, pais e educadores que já foram educados nessa lógica – o desmonte do lugar da tradição já dista mais de cinquenta anos...

É difícil para os adultos dimensionarem o lugar do consumo na modelagem da subjetividade tardomoderna. Quais tipos de filmes, músicas, comida, informações que digerimos? Contribuem para uma cultura de violência ou de paz? Colaboram para a felicidade de outras famílias ou para o sofrimento? E que tal felicidade é essa que tanto se vende, tanto se busca e nunca se acha?

Não há como mensurar a dor de uma família que perde seu filho de maneira tão violenta. É leva-lo para escola, mas não ver voltar. É ver a camisa dobrada na gaveta do guarda-roupa, mas ao mesmo tempo ter a imagem do uniforme ensanguentado. É olhar fotos e saber que não haverá mais aniversários a comemorar, nem abraços, nem selfies fazendo careta. É ir no quarto do filho e achar que o pesadelo vai acabar, mas se deparar com a cama vazia e arrumada.

Imensa solidariedade a essas famílias que vivem esse luto. Merecem acolhimento, carinho e o espaço da fala para que consigam lidar com tanta tristeza. E, pensando em como podemos refletir para criar chances de se evitar futuras dores desse tipo que precisamos enquanto sociedade, lembrar que somos, todos e todas, responsáveis pelas futuras gerações, também responsáveis, por uma formação civilizatória. Ou é isso ou é a barbárie...

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora escolar, Mestre em Educação e militante no Coletivo Educação

 

Roberta Ecleide de Oliveira Gomes Kelly, psicanalista, pós doutora em Filosofia da Educação, coordenadora do Nepe - núcleo de estudos em psicanálise e educação


Texto publicado no Jornal da Cidade - 20/10/2023

domingo, 15 de outubro de 2023

Educação na rede municipal pública de Poços de Caldas

 



            Poços de Caldas é uma cidade bonita por natureza, agraciada com sua serra São Domingos e caracterizada pela sua água termal que a possibilitou receber ilustres turistas ao longo de décadas. Assim, foi se construindo com suas praças, balneários, cafés, cassinos e aqueles ou aquelas que não tivessem condições de morar próximos a essa região central eram periferizados em habitações populares que se formavam em bairros que não tinham inicialmente nenhuma estrutura para receber centenas de pessoas. Essa discrepância entre centro e bairros ficou inclusive mais evidente com o processo de industrialização, que contribuiu para que inúmeras famílias de cidades vizinhas migrassem para Poços de Caldas em busca de melhores condições de vida.

            Assim, Poços não deixa de ser uma ilustração de uma desigualdade social própria de nosso país, na qual a distância entre os que exercem o poder institucional e os trabalhadores não é apenas uma questão de local de moradia, mas de oportunidade de fala. Esse abismo entre classes sociais não deixa de ser reflexo histórico de uma elite que liderou a cidade e se colocou arrogantemente como quem sabe o que faz, negando o processo de escuta das vozes que ecoavam dos bairros, das escolas e das ruas.

            O mesmo ocorre na educação em Poços de Caldas. Tal visto que se ouvissem de fato os professores da rede municipal, se atentariam aos problemas do não pagamento do piso salarial, a falta de manutenção nas escolas que carecem de reparos estruturais, a ausência de livros e materiais no Centro Municipal de Línguas, a necessidade de haver concurso público para professores de apoio acompanharem os estudantes com deficiência em sala de aula. Se os pais fossem escutados, se perceberia a queixa referente a falta de ônibus escolar para os alunos que moram a mais de 5 quilômetros de distância da escola ou a necessidade de Programas Municipais da Juventude de unidades que foram fechadas. Se a equipe gestora fosse percebida, seria evitada a troca de professores no final do ano. E... até mesmo o Conselho Municipal de Educação, representação da sociedade civil organizada, se fosse respeitado, teria as respostas dos ofícios que foram encaminhados a Secretaria de Obras e ao Ministério Público.

            Se falta diálogo, o dinheiro para educação que é público, não é administrado atendendo aos anseios públicos. E assim, ao contrário de precaver os problemas, direciona-se um montante considerável com projetos de qualidade duvidosa e, que se houve melhorias, é justamente porque professores não se silenciaram. Exemplo disso ocorreu com o projeto denominado Ativamente, cujo o questionamento não recaí apenas sobre o custo, mas sobre a entrega do serviço. Quase um semestre depois da parceria público privada que houve uma coordenação específica de dentro da Secretaria para acompanhar mais de perto as ações da empresa. Em pesquisa realizada pelo Conselho Municipal para coletar informações sobre a opinião dos educadores que trabalhavam diretamente com o Projeto, foi identificado que havia uma média de 5 estudantes por computador para realizar as atividades, o material foi considerado por muitos educadores como de baixa qualidade e menos de 10% dos respondentes afirmaram que havia uma relação entre o Projeto Ativamente e o que era ensinado em sala de aula.

Nesse processo político, é retirado o foco em relação a população. E além disso... é retirado também o foco nos direitos sociais, uma vez que aspectos administrativos ganham mais peso do que a educação. Isso porque se falta concurso público para suprimento de vagas de professores, e a justificativa do prefeito Sérgio é a espera pela aprovação do regime estatutário, ao invés de corrigir o problema, o acentua, coloca seus projetos acima de demandas da população e desconsidera o fato que escolas com um quadro de funcionários efetivos possuem melhor desempenho do que aquelas que anualmente mudam boa parte de sua equipe.

Assim, diante desse antidiálogo, é preciso lembrar que a atividade fim de uma Secretaria de Educação é o fornecimento da educação. Esse é o objetivo principal. Por mais que seja obvio, é importante esse destaque para frisar que as outras atividades (contratação de funcionário, obras, manutenção, investimento) devem se subordinar a esse objetivo principal, e, portanto, quando a Secretaria de Gestão de pessoas não provê um quadro completo de servidores que seguirão até o final do ano, estamos invertendo a ordem das prioridades.

Se tivemos pouco tempo histórico na nossa cidade de orçamento participativo, comparado a décadas de um grupo que se diz técnico e ignora seu povo, que compreendamos que o processo democrático não é enfeite político, mas uma ferramenta de atender de fato o que a população precisa ao invés de ditar leis ou planos de palacetes como se conhecesse tudo o que precisa ser feito na questão sociopedagógica.

 

Ana Paula Ferreira

Integrante do Coletivo Educação

Texto publicado no Jornal da Cidade - 10/10/2023


sábado, 7 de outubro de 2023

Direitos Humanos e o Feminismo

 

Imagem do site: https://contrafcut.com.br/noticias/luta-das-mulheres-por-direitos-humanos-e-permanente/


         Os Direitos Humanos não nasceram prontos de fábrica. Foram séculos de luta e para fins didáticos, o jurista Vasak os dividiu em três grandes gerações: os relacionados à liberdade, à igualdade e à fraternidade. Isso não significa que se estagnaram num momento histórico ou que se consolidaram de maneira uniforme em todo lugar da Terra. Apenas é uma forma de compreender dentro de uma conjuntura.

Os direitos de apreço à liberdade se situam no que foi denominada de Primeira Geração, tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. Os pedidos de ordem eram na questão civil e política, de modo que, resumidamente, as pessoas tivessem liberdade de expressão, de ir e vir, de votar e serem votadas. Contudo, é de chamar atenção que embora fossem Direitos Humanos, e obviamente as mulheres também sejam humanas, o mesmo peso no campo legal não era direcionado às mulheres, ao ponto de Olympe de Gouges ter sido guilhotinada quando discutiu a falta de acesso aos direitos vivenciado pelas mulheres. Basta lembrarmos que várias décadas se passaram para que as mulheres conquistassem o direito ao voto.

A Segunda Geração é marcada pelo valor da igualdade, haja vista que se situaria junto à expansão do Estado de Bem Estar Social. Estão aqui os direitos sociais, que devem ser usufruídos por todos, ou seja, a educação, saúde, saneamento básico, segurança, etc. Aqui novamente as mulheres não são colocadas no âmbito dos Direitos Humanos, uma vez que o direito ao estudo muitas vezes era negado, e a mulher era tratada como cidadã de segunda categoria, um “segundo sexo”, como nomeou Simone Beauvoir

Por fim, na Terceira Geração, alinhada à ideia de fraternidade, estaria a defesa de grupos minorizados socialmente e a importância de políticas públicas que os retirem do espaço da marginalização política e econômica. Nos grupos oprimidos, estariam os indígenas, população negra, pessoas com deficiência, as mulheres, dentre outros. 

Daí segue a pergunta: Como o feminismo poderia colaborar para os Direitos Humanos? Ora, como dizia a escritora bell hooks... o feminismo é para todo mundo e, nesse sentido, se nota um teor da ideia de igualdade, de distribuir direitos e o que humanidade produziu de melhor. Não há supremacia. Não há hierarquia. Há a defesa de uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres. Não é inverter a lógica e as mulheres oprimirem os homens. É inclusive combater que essa dinâmica de opressão, pelo marcador de gênero, raça, orientação sexual, nacionalidade ou qualquer outra coisa. Isso porque se entende que essas segmentações sociai nada mais são do que uma forma de fragmentar os trabalhadores, e, portanto, facilitar a continuidade de um sistema econômico que mantém a desigualdade, massacra indígenas, expulsa população rural do campo, mata moradores da favela, culpabiliza jovens pobres pela sua condição, controla corpos femininos e assassina a população LGBTQIA+.

Esse é o pressuposto de todos tipos de feminismo? Não. Por outro lado, esse feminismo, que é um feminismo revolucionário, ou nas palavras de bell hooks, visionário, é o que possibilita que de fato a justiça social, mediante uma luta que se faz constante em se tratando de uma perspectiva anti imperialista, antirracista, anti neoliberal.

Por que isso? Porque caso contrário, não alcançamos de fato a democracia plena, mas damos continuidade na opressão, dessa vez de, por exemplo, uma mulher oprimir a outra. Se antes o discurso mais corrente era de que homens são mais inteligentes para se valerem de espaços de poder, hoje essa narrativa vai sendo aos poucos substituída pela ideia de que independente de homem ou mulher, terá oportunidade quem for competente. O velho discurso meritocrático se fazendo presente, taxando algumas de fracassadas e colocando holofote em outras, como se esse binarismo fosse resultado apenas do esforço. 

Se queremos seguir na defesa dos Direitos Humanos que se leve em consideração a tríade classe social, gênero e raça. Deixar o aspecto classista subalternizado é contribuir para o feminismo liberal que pouco avança na ideia de igualdade. Ignorar a questão racial por sua vez é dar continuidade ao Pacto da branquitude e ao invés de se defender direitos, entrar numa seara de defesa de privilégios. Portanto, um feminismo revolucionário pode contribuir e muito na defesa dos Direitos Humanos, de modo que liberdade, igualdade e fraternidade ganhem mais sentido para todas as pessoas.

 

Ana Paula Ferreira

Integrante do Coletivo Feminista Mulheres pela Democracia

Texto publicado no Jornal da Cidade - 04/10/2023

 

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Feminismo e combate ao fascismo

 


     Antes de compreender como o feminismo pode fazer esse combate, precisamos definir o que de fato é fascismo para ter mais clareza do alvo objetivo. E por outro lado, também é necessário reconhecer os instrumentos do feminismo para identificar como pode ser essa intervenção.

Fascismo é um pensamento, uma ideologia política da extrema direita, que se opõe ao socialismo, e no qual o Estado exerce uma presença forte e de controle sobre a vida pública e privada da população, justamente porque angaria esse apoio do povo. De acordo com o romancista e linguista Umberto Eco, o fascismo enquanto ideia se eterniza, justamente porque se apresenta inclusive com trajes civis, e compete a cada um de nós jamais esquecer o que significou sua presença na II Guerra Mundial e no Holocausto para que evitemos a reprodução dessa barbárie histórica.  

            Alguns pontos importantes do fascismo que Umberto Eco elenca e que se destaca para esse texto são: 1) Culto à tradição; 2) Medo das diferenças; 3) Desprezo pelos oprimidos; 4) Culto à figura de mitos; 5) Machismo; 6) A Novilíngua de Orwell. Ora, numa perspectiva de feminismo socialista, o qual vai além de uma perspectiva liberal, se nota que é possível se valer de suas ferramentas para contrapor a ideologia fascista, e vejamos o porquê, também em seis razões.

            Primeiro porque assumir o feminismo é algo que de acordo com bell hooks é para todos, lembrando que se trata de uma defesa de uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres. A partir desse ponto, já é uma forma de se remar contra a tradição patriarcal milenar, mas, que como qualquer outra cultura, é possível de mudança caso os sujeitos sociais se envolvam nesse processo.

            Segundo porque o feminismo e os estudos dentro da questão de gênero trabalham com uma coleção de conceitos que permite compreender melhor a questão de gênero: sexo, gênero, cis, trans, heterossexual, homossexual, orientação sexual, identidade de gênero, etc. Assim, à luz de definições, de entendimento e sensibilização sobre os grupos marginalizados numa sociedade homofóbica e machista, abre-se a possibilidade desse medo das diferenças diminuir. Isso porque o outro deixa de ser colocado como objeto descartável, para adquirir uma outra perspectiva, na qual é humanizado, visto não apenas em suas diferenças, mas também no que nos aproxima enquanto humanidade.

            Se por um lado o fascismo investe no desprezo aos grupos sociais mais vulnerabilizados, por outro, o feminismo socialista, vai intensificar reforços numa dupla batalha: contra a desigualdade econômica e contra a desigualdade de gênero. Assim, embora o fascismo venha com seus tratores ideológicos com frases do tipo “Ela não merece ser estuprada” ou “O erro da ditadura foi torturar e não matar” ou “As minorias precisam se curvar a maioria”, o feminismo socialista trabalha numa perspectiva de que levar em consideração que enquanto houver capitalismo, ocorrerá a desigualdade econômica e, portanto, haverá necessidade dos grupos que estão no poder em dividir a população, desarticular os movimentos sociais, sindicatos, associações que promovam a solidariedade e o bem comum, porque no abandono do indivíduo a própria sorte ele é mais manipulável e possuí menos condições de resistência.

            Culto a figura de mitos é outra característica fascista, nesse apelo à personalismos, a pessoas que se colocam além do ser humano convencional e anseiam pela fama, numa notoriedade mesmo que sejam medíocres e não haja fundamentação racional para sua importância. Com o feminismo socialista ele nos proporciona a possibilidade de questionar esses lugares de empoderamento individual, afinal, para cada Paola Oliveira ou Djamila Ribeiro ficar em destaque nas propagandas da Avon, milhares de mulheres invisíveis precisam bater de porta em porta e oferecer o produto, num trabalho desenvolvido a anos de maneira precarizada, e sem a reflexão sobre esses lugares de subemprego.  

            Em quinto lugar, machismo é um dos pilares no qual o fascismo se assenta, lembrando que o fascismo é um movimento de defesa do capitalismo com a presença forte do Estado, na ideia de assegurar privilégios e não direitos sociais. Silvia Federici na obra “Calibã e a Bruxa” evidenciou que o processo de acumulação capitalista cerceou todos elementos que poderiam ser produtivos: terra, meios de produção e a mulher. Assim, o homem foi tratado como pequeno rei em seu lar e a mulher cabia ter cada vez mais filhos e operar dentro do ambiente doméstico. Aumentar a população era uma das tarefas para se garantir salários baixos na negociação com um grande exército de reserva e quem produzia esse contingente humano seriam as mulheres. Aliás, é curioso perceber que sempre em momentos de crise do capital, voltam os discursos que a mulher deveria ficar em casa, bela, recada e do lar, sob sustento do marido, pois, ao ir para o mercado estaria competindo com quem socialmente é aceito para estar ali.

            Por fim, no sexto ponto trazido, a Novilíngua de Orwell é uma ilustração excelente sobre o fascismo. Orwell no livro 1984 satiriza os grupos totalitários que faziam novas gramáticas reduzindo o vocabulário da população para deixa-lo mais pobre e consequentemente limitar o pensamento crítico. Sinônimo disso é quando grupos fascistas não querem explorar conceitos tão diferentes em si e pelo contrário, usam de palavras de baixo calão, jargões preconceituosos. Por isso, quando o feminismo ajuda a compreender o que é cis e o que é trans, o que é hetero e o que é homo, e não apenas o conceito em si, mas a contextualizar as marginalizações e a utopia de que outra sociedade é possível. Nesse sentido, o feminismo socialista ajuda a enfrentar o pensamento raso, as microviolências e a construir uma sociedade mais justa, numa perspectiva de consciência de classe social atrelada a consciência racial e de gênero.

            Feminismo não é coisa de mulher mal amada ou que ficou para tia. Novamente essas depreciações são parte de um raciocínio estreito de quem não se aventurou nas leituras sobre o tema. E para enfrentar o fascismo, o feminismo está também na trincheira das narrativas mais revolucionárias, visando a construção coletiva com vistas a uma sociedade com economia mais igualitária e relações mais livres.

 

Ana Paula Ferreira

Educadora e militante do Coletivo Mulheres Pela Democracia

Texto também publicado no Jornal da Cidade do dia 02 e 03 de setembro de 2023

             

             

terça-feira, 1 de agosto de 2023

Entre cataratas e represas

         


                 Há uma boniteza nas coisas que são opostas: a característica é tão peculiar que preserva uma identidade mais genuína. Isso pode ser observado nas cataratas do Iguaçu e na usina de Itaipu, pois embora água em abundância em ambos espaços, ela se revela em dinâmicas diferentes.

            As cataratas se impõem pela natureza. Jorram milhões de água por segundo numa imagem belíssima de intensidade. A água segue o fluxo, sem amarras, demarcando rochas, arrastando tudo o que tiver pela frente, levando todas impurezas, seguindo o caminho até encontrar o mar.

            É como se a água se encontrasse em situação de liberdade. Está solta e por mais que haja um relevo que condiciona seu percurso, ela não se limita e prossegue aceitando sua própria força e sua própria existência de ser “água” ... Água que possibilita a vida na Terra, que escorre, que sacia a sede, que preserva o meio ambiente.

            Já a usina Itaipu também impressiona pela grandiosidade, a qual, desta vez, foi arte do ser humano, na sua engenharia e na mão de obra de 40 mil trabalhadores que se entregaram na construção da segunda maior usina hidrelétrica do mundo. A água, porém, está em outra situação: represada, passando por enormes tubulações para gerar a energia elétrica. Aliás, só abrem as comportas quando o limite é ultrapassado.

            Embora à primeira vista a água represada mostre calmaria, nada mais é do que turbulência evitada pelo seu cercamento. É aquele choro entalado, intensidade contida, potência controlada com vistas a gerar energia a incontáveis pessoas. Enquanto a catarata é grito, a água que desce obedientemente as turbinas é soluço contido, que consegue ter seus momentos de vazão apenas quando está no máximo permitido.

            Ao pensar sobre essas analogias entre água e liberdade, lembrei do livro de bell hooks, “Tudo sobre o amor”. Isso porque em determinados momentos a autora pontua o quanto o sistema capitalista aprisiona com amarras sutis as pessoas, tendo em vista que incentiva sermos produtivistas e a nossa tristeza é capturada pela via do consumo, exigindo que trabalhemos mais e consequentemente, passemos menos tempo com a família ou em momento de puro ócio.

Assim, se para uma grande parcela da população a liberdade é palavra de dicionário, porque estão ainda buscando pela sobrevivência, em contrapartida há também a situação de que para muitos a liberdade é evitada, pois ela significa assumir quem somos e termos decisões mais autênticas. Na intenção de sermos úteis, dizemos “não” a nós mesmos e acabamos por ser a água que desce pelas turbinas, gerando energia para os outros e não para si. Essa energia pode ser o lucro, o tempo, o cuidado e tantas outras coisas que fornecemos nas nossas relações afetivas, de trabalho ou sociais.

            O problema é que caso não seja um movimento de mão dupla, horizontal, em que ambas partes estejam num processo de mutualismo, provoca um cansaço mental e físico, desgaste e gera a dor de nunca se conectar com a própria energia. Diante dessa falsa calmaria, há um silenciamento que traz angustia, insônia, ansiedade, adoecimentos, pois ao invés de liberar esse sentimento represado através da arte, escrita, terapia, atividade física ou qualquer modo que ajude a reelaborar, buscamos o alento em nos encher de coisas e nos esvaziamos do ser, do sentir, do viver intensamente.

            Liberdade e amor estão juntos e não separados. Porque ao fazer escolhas e se contentar com elas há um sentimento de bem estar, de amor próprio, de se permitir sonhar e de se aceitar ao ponto de se jogar por inteiro, no amor a si, ao outro e ao mundo. Quando há esse aceite, há menos autocobrança e mais responsabilização, mais reflexão e menos sentimento de culpa, mais relações saudáveis e menos toxidade. 

Por mais que a catarata traga mais insegurança e incerteza, ela nos move num processo de autenticidade, de autoconfiança e percepção de nosso universo interno, com nossas limitações e potencialidades. Já na represa, buscamos o encaixe social, justamente pelo medo de ficarmos isolados e nesse processo, represamos toda plenitude da qual poderíamos desfrutar.

Que possamos enfim, ser mais catarata e menos represa.

  

Ana Paula Ferreira

Texto publicado no Jornal da Cidade - 02/08/2023


quarta-feira, 28 de junho de 2023

Ensinar a desobediência civil


            É bem anárquico o título, mas é essa intenção.
            Isso não quer dizer que eu seja contrária à disciplina e acredito na perspectiva de que “disciplina é liberdade”, pois organização, canalização de uma energia com vistas a um objetivo, planejamento, são formas de sermos livres, termos escolhas cada vez mais alinhadas à consciência crítica e aos direitos humanos. Aliás, se não houvesse o “não”, nem civilização existiria, e provavelmente agiríamos bem próximos aos animais, que seguem a ordem do desejo. Assim, diante da vontade de fornicar, haveria a copulação, sem constrangimento se fosse na rua com observadores; em situação de fome, não existiria o uso de talheres, do sentar à mesa, nem a decisão por determinados alimentos mais sustentáveis, bastava devorar o que se tinha à frente.

            Já que deixei claro que defendo a disciplina, e principalmente uma educação que construa autonomia, vamos para o título. “Desobediência civil” é um termo de Thoreau cujo livro é homônimo. De maneira resumida ocorreu o seguinte... Em meados do século XIX os Estados Unidos entraram em guerra contra o México objetivando anexar territórios. Contrário à guerra e à escravidão que ainda existia, Thoreau simplesmente opta por não pagar mais impostos, uma vez que esse montante contribuía para o financiamento da guerra. Ele não apenas foi preso, como escreveu o livro que inspirou Gandhi e Luther King Jr, pois enfatizava a importância de resistências pacíficas, de combate a leis injustas, pois obedecê-las é também contribuir com opressão.

            Na escola também há leis injustas e quando os alunos se negam a executá-las muitas vezes os adultos os advertem oralmente, por escrito, ou tratam a queixa como se fosse insignificante. Nessa compreensão, o espaço escolar não é um espaço de troca, de diálogo, mas um panóptico, no qual Foucault faz a comparação da arquitetura com a ideia de controle e de vigília, tão comum em quartéis, hospitais, manicômios, e até mesmo escolas. Por conseguinte, se busca o silenciamento, a obediência, generalizando alguns comportamentos e punindo desvios.

            Se a crítica é desconsiderada, tratada com frases do tipo “só vocês estão reclamando”, ou pior, se ao invés de profissionais que defendam os princípios democráticos, prima-se pela defesa corporativista, o que está se ensinando? Que a educação enquanto direito social é tratada como caridade, do funcionário público que doa e do cidadão que deveria apenas receber. Não somente isso, mas ensina-se a calar, a se contentar, a se subordinar.

            Qual é o tempo destinado para a fala dos estudantes, para a utilização do saber na argumentação, na tomada de posição ou defesa de uma ideia? Em contrapartida, qual o tempo que estão tagarelando sem sentido, sem proposta, sem direcionamento? Qual o tempo que o professor fala? Qual é o tempo destinado a assembleias, grêmios ou para ouvir de sala em sala os estudantes?  Será que a escola fica passiva esperando o estudante levar suas demandas, ou ela mesma promove momentos de escuta ativa? Qual é o tempo destinado para produção de texto e qual é o tempo usado para cópia de textos infindáveis?

            Se ao pensar nesses tempos e chegar à conclusão que o tempo escolar está mal administrado, uma escola de tempo integral no mesmo modelo, seria redundância de antidiálogo. E por falar em tempo, ele passa e nem sempre as coisas mudam, ou talvez não na velocidade que gostaríamos. Publiquei em 2016 um texto intitulado “A fabricação de máquinas de xerox na escola” que questionava o quanto as crianças copiam a matéria do quadro e o significativo número de analfabetismo funcional. Será que se elas parassem de copiar estaria errado ou errado é o ato de minar a curiosidade em aprender mediante uma prática cansativa e de teor altamente questionável?

            Alienação, conceito marxista, é a ausência de identificação do trabalhador com o produto de seu trabalho. Trazendo para o campo da escola, será que os estudantes se reconhecem no que copiam ou se identificam nos textos autorais que produzem? Estamos alienando ou proporcionando emancipação? Em época de expansão da informação, que em fração de segundos temos tantos dados ao nosso dispor, é extremamente inoperante reforçar a cópia pela cópia. A máquina já faz isso e o que nós humanos temos de diferencial é na nossa capacidade de criar, projetar, sonhar, fazer planos criativos. Por isso, aprecio a escrita como técnica de memória, mas desde que conduza a uma escrita criativa, que incentive a produção dos estudantes, seja num mapa mental, resumo, registro por tópicos ou tabela.

            E voltando na desobediência civil, se a escola pouco provê de momentos de diálogo, se a prática docente é mais ancorada em passar textos para cópia do que estratégias mais significativas, como encararíamos a ideia se os estudantes, por exemplo, se recusassem a copiar?

            Rosa Parks foi uma mulher negra que se recusou a levantar do banco de um ônibus para ceder o lugar a um homem branco. Era uma lei, mas ela foi contra. Esse singelo gesto desencadeou passeatas na defesa dos direitos afro-americanos e boicotes às empresas de transporte público até que assinaram o fim da segregação racial nos ônibus.

            Ensinar a desobediência civil: será possível? Se não for, que pelo menos haja atenção no comportamento estudantil e abertura para um diálogo franco, no qual possamos melhorar enquanto profissionais, sem esquecer de que o tempo todo estamos formando pessoas. Daí vamos entender que existem Rosa Parks e Thoreau nas carteiras escolares e que nem sempre são indisciplinados, mas estão à sua maneira mostrando a indignação.

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação

Referências

Ana Paula Ferreira - “A fabricação de máquinas de xerox na escola”

https://www.jornaldacidade1.com.br/maquinas-de-xerox-na-escola/

Henry David Thoreau – “Desobediência Civil”

Texto publicado no Jornal da Cidade 28/06/2023 p. 9

segunda-feira, 19 de junho de 2023

Postagem: impostora?

 

Eu queria postar um comentário
Deixar clara minha posição
Mas o que está no posicionamento
já foi posto por alguém?
Ou realmente fui eu?
Foi imposição?
Daí fiquei em dúvida 
Se era original 
ou se era impostora comigo mesma.


Ana Paula Ferreira
11/out/2023





terça-feira, 6 de junho de 2023

Tudo passa


           Faz mais de ano que comprei um quadro com a frase “tudo passa”. Todos os dias eu me deparava com essas duas palavras e ia internalizando, quase num mantra, para aceitar que os anos ficam para trás, cabelos brancos aparecem, filhos crescem, amigos inestimáveis estão presos às fotografias, vivências pelas quais sofremos um dia viram pura recordação.

            E por que mesmo sabendo disso é tão difícil concordar que a mudança bata na nossa porta? Por que é tão doloroso reconhecer o que Heráclito disse há milhares de anos de que nada é estático, nem nós mesmos?

            Porque envolve a ideia de luto e lidar com a morte não é fácil, seja a morte de entes queridos, seja a morte de tantas coisas... da juventude, das relações, das expectativas, dos planos. Em ambas situações, de uma morte real ou da morte de algo, há a necessidade de ser fazer o funeral (literal ou simbólico) como processo de seguir em frente, de agir sobre o que ficou de nós mesmos, de fechar ciclos.

            Mas além da dificuldade do luto existe outro desafio: trabalhar com o sentimento do apego. Sabe a famosa frase do Pequeno Príncipe “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante”? Resumindo, o apego é isso... uma doação, vínculos, memórias, histórias que fizeram que o objeto amado se torne bonito e especial. Daí temos outra questão: em que medida desapegar envolve descartabilidade?

            O sociólogo Balman quando trouxe o termo de modernidade líquida apontou o quanto as coisas estão mais frágeis, fugazes e que se antes era comum o sujeito aposentar no mesmo emprego que trabalhou a vida toda, matrimônios que duravam décadas ou o estudo (técnico ou graduação) já ser quase uma garantia de emprego, hoje nada é seguro, tudo é efêmero.

             Mário Sergio Cortella trouxe uma metáfora nesse sentido quando conta que era comum encontros familiares para fazer pamonha e que o trabalho era igualmente proporcional ao tempo em estar junto, de rir, conversar, contar causos e partilhar a produção. Atualmente, na contramão, além dessa prática não ser comum, consome-se macarrão instantâneo feito em três minutos, tudo rápido, tudo veloz para atender nossa lógica desenfreada de tarefas e que nos retira aos poucos das nossas convivências mais genuínas.

            Essas convivências autênticas são aquelas em que desnudamos nossa alma. Até porque se na sociedade somos CPF, nas relações comerciais somos cartão de banco e no trânsito CNH, são nas relações mais próximas que podemos sentir que somos únicos e que tornamos o outro também especial. Por isso é tão sofrido encarar esses lutos, pois envolve um período solitário, de não importar com o que importávamos. Aliás, essa palavra “importar” é interessante porque além de se referir ao que damos importância, é também verbo do que trazemos de outros lugares para dentro do nosso espaço, e nesse momento de solidão, o que mais precisamos é de nos abastecer de nós mesmos, até para diferenciar entre o desapego e a descartabilidade.

            Talvez uma frase que ajude nesse sentido é a de Frida “Onde não puderes amar, não te demores”. Não significa que as coisas devem permanecer apenas por hábito, tradição ou qualquer coisa do tipo. Contudo, não é tampouco descartar, porque descartamos o que é facilmente trocado, é o guardanapo que não virou papel de mensagem de paquera. Se há luto, é porque houve afeto, fomos afetados e, portanto, a ideia não é descartar o que foi, mas de saber que se não há condições de ser e de fazer o outro feliz, que tomemos outros caminhos.

Ana Paula Ferreira

Aspirante a escritora


Texto publicado no Jornal da Cidade, 07/06/2023