Um blog para refletir sobre a educação... lembrando que a educação é do dia-a-dia, está em tudo e em todo lugar.
domingo, 5 de novembro de 2023
Desafios e possibilidades do ensino de política no Ensino Médio em Sociologia
domingo, 29 de outubro de 2023
Escola pública: avanços e desafios
Há inverdades que nos contam e que precisamos refletir
sobre elas. É dito, por exemplo, que se alguém viajasse no tempo e visse a
escola 100 anos depois, não encontraria diferença. Continuaria a professora, os
alunos, as carteiras enfileiradas, o quadro negro, como se nada tivesse mudado.
O problema dessa falácia é o apagamento histórico de todos que lutaram pela
escola e de todos os seus avanços. Mas, quais seriam eles?
Uma das principais mudanças é que o
estudo era condição para
poucos. Final do século XIX, o Brasil tinha mais de 80% da população
analfabeta, um país de economia essencialmente agrária, trabalhadores em sua
maioria escravizados ou uma população rural pobre.
Daí que na construção de um país republicano, a política
tratada como coisa pública, e não de uma família ou de privilegiados, a
educação também começa a ser observada como responsabilidade do Estado. É claro
que o projeto nacional de educação não partiu da elite, mas de iniciativas da
sociedade civil organizada e merece destaque o trabalho de intelectuais,
professores e gestores que organizaram o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova em 1932.
Defendiam propostas em
três aspectos principais: político, financeiro e pedagógico. Na questão de
organização política da escola, levantavam a bandeira da escola pública,
gratuita e laica, que
promovesse uma sociedade mais acessível a todos, mais democrática, afinal, o
conhecimento seria democratizado.
Ao mesmo tempo que era importante a descentralização como
forma da escola ter mais autonomia, isso não poderia significar um abandono
dela a própria sorte no campo financeiro e daí que era fundamental que o
Ministério da Educação criasse e cumprisse leis em relação a um percentual
específico que fosse destinado para a educação. Já no aspecto pedagógico, propunham
um tratamento respeitoso entre professores e alunos, fomento a um protagonismo
maior por parte dos estudantes, críticas ao enciclopedismo, autoritarismo, castigos
físicos e humilhações empreendidas.
Além do Manifesto, mães reivindicavam mais creches, famílias
lutavam por mais escolas, porque estudo era um tipo de elevador social. Nesse
sentido, foi-se ampliando ao longo do século XX e início de XXI os
investimentos para a democratização ao ensino, mesmo que com pouco celeridade.
Portanto,
se formos resumir, a escola atual não se parece com a escola de 100 anos atrás,
em três aspectos principais. 1) Na questão de universalização, ao ponto de não
haver nenhuma restrição para o ato da matrícula,; 2) Avanços significativos na relação
professor/ aluno, não mais no medo, mas na criação de vínculos e de outras
formas de abordar o conhecimento; 3 ) Acessibilidades de diversas ordens: livro
didático, merenda escolar, alunos com deficiência com matrícula garantida, etc.
Se
é com base na luta que temos conquistas, quais então são os desafios atuais? Será
que temos respostas condizentes com os problemas?
Um
dos principais problemas é um baixo valor de CAQ, ou seja, de Custo Aluno
Qualidade, que impacta diretamente na aula, diante da escassez de investimento
estatal, seja para manutenção das escolas, construção de laboratórios de
informática e de ciência, melhoraria no acervo da biblioteca, etc. Por outro
lado, quais foram as alternativas? Alegam que a aula está desinteressante,
mudam o currículo no Ensino Médio e ainda liberam o homescholling, sob
argumento de que a família manifesta uma descrença em relação a educação
regular e que sua vontade deve ser respeitada. Consequência: quebra-se a ideia
de projeto de nação no qual a escola tem fundamental importância na
constituição de cidadãos e, por outro lado se isola novas gerações do encontro
com seus contemporâneos.
Outro
problema é a falta do pagamento do piso, que como resultado, gera greve, e,
dias seguidos sem aula. Solução óbvia: cumprimento da lei 11.738/2008. Mas, em
contrapartida, o reajuste não é feito e, pelo contrário, os professores são
culpabilizados, tratados como doutrinadores ou como ingratos por terem
estabilidade empregatícia. Escondem que a estabilidade é uma garantia que mesmo
que haja mudança de governo, os funcionários permaneçam e, portanto, ocorra a
continuidade dos serviços prestados.
Também
é importante diminuir a quantidade de alunos por sala. Isso traria a
possibilidade de maior vínculo com os alunos, proximidade com suas demandas, planejamentos
mais direcionados, e maior facilidade de potencializar o pertencimento de cada
um com o grupo, haja vista que em turmas abarrotadas, alunos viram números e as
situações de indisciplina são mais difíceis de contornar. De maneira
distorcida, trazem a pauta das escolas cívico-militar, como se questões
pedagógicas se resolvessem nas mãos de militares.
Assim
sendo, percebe-se que educação pública embora seja um direito na Constituição
Federal de 1988, ainda é algo a ser permanentemente defendida, seja para
contrapor falsas soluções, seja para que avance em suas pautas de inclusão e
democratização do saber, na construção de sujeitos que se comprometam com um
mundo mais igualitário, justo, fraterno e bonito de se viver.
Ana
Paula Ferreira
Mestre
em Educação e militante do Coletivo Educação
E também no link
sexta-feira, 20 de outubro de 2023
Ainda sobre Kevin - ataque em Poços de Caldas
Diante do ataque à escola em
Blumenau, em abril deste ano, foi publicado o texto “Precisamos falar sobre
Kevin” que refletia sobre o perfil de um personagem de um filme que premedita
violência contra os colegas e de como nossa sociedade abastece esses atos à
medida que crescem células nazifascistas e intensifica-se a ausência do Estado
nas políticas públicas. Em meio a isso, os meios de comunicação de massa
propagam o medo e o individualismo.
Seis meses depois, há um novo ataque
e, se antes parecia história norte-americana, no Brasil, infelizmente, também
tem se mostrado uma triste realidade. Dessa vez, a tragédia foi na cidade de
Poços de Caldas.
Kevin pode ser considerado como
estereótipo desse cenário, a qual muitas vezes queremos atribuir ao biológico
ou apenas à história do indivíduo e às contingências, pois daí, então, pouca ou
nenhuma ação nos competiria e seria mais confortável essa justificativa. Porém,
nossa subjetividade é marcada por relações que, humanas, fornecem repertórios
para conseguir operar e sobreviver no mundo. Nesse sentido, destaca-se aqui como
estabelecemos trocas sociais e de consumo.
Desde bebê, há a relação com o outro
e cada cultura faz isso à sua maneira. Em muitos grupos indígenas, o parto é
normal e isso diminui a dificuldade com aleitamento, a mãe amamenta por mais
tempo, já estabelecendo um vínculo com o filho, crianças crescem juntas
brincando e interagindo com a natureza sob o olhar de cuidado de todos da
tribo. Já em países como Estados Unidos, a licença maternidade não garante
pagamento à mãe e por isso é muito comum a preocupação com o retorno ao
trabalho e diante do excesso de carga horária trabalhada, pouco tempo sobra
para os cuidados dos filhos. No Brasil, a licença maternidade ainda é uma
conquista em construção. Notadamente, sabe-se da qualidade das políticas
públicas de um país através da forma como lida com as mulheres e as crianças.
Se a redução da jornada de trabalho
é uma pauta que não pode ser ignorada, por outro lado também precisamos
enquanto família pensar as relações no ambiente privado. Criar uma criança
demanda abraço, olho no olho, brincadeiras, ato de ser ninada, de se sentir
amada. E isso não é incumbência apenas da mãe e do pai, porque diante de uma
rede de apoio de tios, vizinhos, avós ou padrinhos, é possível que a criança
receba influências diferentes para seu desenvolvimento. Se é necessária uma
parceria com outras pessoas, a efetividade e colaboração entre as instituições
públicas também é imprescindível, na defesa dos direitos da criança e do
adolescente: Poderes Executivo, Legislativo, Judiciário, escola, Conselho
Tutelar, CRAS, CREAS, etc.
Em se tratando das relações comerciais,
aprecia-se o consumo que nos anuncia a chance de felicidade. E isso invade o
processo educativo-ensinativo nas relações de pais e filhos/filhas, de família.
Pais e educadores são instados constantemente a compensar a ausência de tempo
com os filhos, comprando mais brinquedos, deixando-os excessivamente no celular
e o que era para ser uma relação de afeto ou de estabelecer limites, se
transforma numa relação mercadológica, na qual objetos são mais valorizados do
que os momentos em família. Não raro, pais e educadores que já foram educados
nessa lógica – o desmonte do lugar da tradição já dista mais de cinquenta
anos...
É difícil para os adultos
dimensionarem o lugar do consumo na modelagem da subjetividade tardomoderna. Quais
tipos de filmes, músicas, comida, informações que digerimos? Contribuem para
uma cultura de violência ou de paz? Colaboram para a felicidade de outras
famílias ou para o sofrimento? E que tal felicidade é essa que tanto se vende,
tanto se busca e nunca se acha?
Não há como mensurar a dor de uma
família que perde seu filho de maneira tão violenta. É leva-lo para escola, mas
não ver voltar. É ver a camisa dobrada na gaveta do guarda-roupa, mas ao mesmo
tempo ter a imagem do uniforme ensanguentado. É olhar fotos e saber que não
haverá mais aniversários a comemorar, nem abraços, nem selfies fazendo careta.
É ir no quarto do filho e achar que o pesadelo vai acabar, mas se deparar com a
cama vazia e arrumada.
Imensa solidariedade a essas famílias
que vivem esse luto. Merecem acolhimento, carinho e o espaço da fala para que
consigam lidar com tanta tristeza. E, pensando em como podemos refletir para criar
chances de se evitar futuras dores desse tipo que precisamos enquanto
sociedade, lembrar que somos, todos e todas, responsáveis pelas futuras
gerações, também responsáveis, por uma formação civilizatória. Ou é isso ou é a
barbárie...
Ana Paula Ferreira
Supervisora escolar, Mestre em
Educação e militante no Coletivo Educação
Roberta Ecleide de Oliveira Gomes
Kelly, psicanalista, pós doutora em Filosofia da Educação, coordenadora do Nepe
- núcleo de estudos em psicanálise e educação
domingo, 15 de outubro de 2023
Educação na rede municipal pública de Poços de Caldas
Poços de Caldas é uma cidade bonita
por natureza, agraciada com sua serra São Domingos e caracterizada pela sua
água termal que a possibilitou receber ilustres turistas ao longo de décadas.
Assim, foi se construindo com suas praças, balneários, cafés, cassinos e
aqueles ou aquelas que não tivessem condições de morar próximos a essa região
central eram periferizados em habitações populares que se formavam em bairros
que não tinham inicialmente nenhuma estrutura para receber centenas de pessoas.
Essa discrepância entre centro e bairros ficou inclusive mais evidente com o
processo de industrialização, que contribuiu para que inúmeras famílias de
cidades vizinhas migrassem para Poços de Caldas em busca de melhores condições
de vida.
Assim, Poços não deixa de ser uma ilustração de uma
desigualdade social própria de nosso país, na qual a distância entre os que
exercem o poder institucional e os trabalhadores não é apenas uma questão de
local de moradia, mas de oportunidade de fala. Esse abismo entre classes
sociais não deixa de ser reflexo histórico de uma elite que liderou a cidade e
se colocou arrogantemente como quem sabe o que faz, negando o processo de
escuta das vozes que ecoavam dos bairros, das escolas e das ruas.
O mesmo ocorre na educação em Poços de Caldas. Tal visto
que se ouvissem de fato os professores da rede municipal, se atentariam aos
problemas do não pagamento do piso salarial, a falta de manutenção nas escolas
que carecem de reparos estruturais, a ausência de livros e materiais no Centro
Municipal de Línguas, a necessidade de haver concurso público para professores
de apoio acompanharem os estudantes com deficiência em sala de aula. Se os pais
fossem escutados, se perceberia a queixa referente a falta de ônibus escolar
para os alunos que moram a mais de 5 quilômetros de distância da escola ou a
necessidade de Programas Municipais da Juventude de unidades que foram fechadas.
Se a equipe gestora fosse percebida, seria evitada a troca de professores no
final do ano. E... até mesmo o Conselho Municipal de Educação, representação da
sociedade civil organizada, se fosse respeitado, teria as respostas dos ofícios
que foram encaminhados a Secretaria de Obras e ao Ministério Público.
Se falta diálogo, o dinheiro para educação que é público,
não é administrado atendendo aos anseios públicos. E assim, ao contrário de
precaver os problemas, direciona-se um montante considerável com projetos de
qualidade duvidosa e, que se houve melhorias, é justamente porque professores
não se silenciaram. Exemplo disso ocorreu com o projeto denominado Ativamente,
cujo o questionamento não recaí apenas sobre o custo, mas sobre a entrega do
serviço. Quase um semestre depois da parceria público privada que houve uma
coordenação específica de dentro da Secretaria para acompanhar mais de perto as
ações da empresa. Em pesquisa realizada pelo Conselho Municipal para coletar
informações sobre a opinião dos educadores que trabalhavam diretamente com o
Projeto, foi identificado que havia uma média de 5 estudantes por computador
para realizar as atividades, o material foi considerado por muitos educadores
como de baixa qualidade e menos de 10% dos respondentes afirmaram que havia uma
relação entre o Projeto Ativamente e o que era ensinado em sala de aula.
Nesse
processo político, é retirado o foco em relação a população. E além disso... é
retirado também o foco nos direitos sociais, uma vez que aspectos
administrativos ganham mais peso do que a educação. Isso porque se falta concurso
público para suprimento de vagas de professores, e a justificativa do prefeito
Sérgio é a espera pela aprovação do regime estatutário, ao invés de corrigir o
problema, o acentua, coloca seus projetos acima de demandas da população e desconsidera
o fato que escolas com um quadro de funcionários efetivos possuem melhor
desempenho do que aquelas que anualmente mudam boa parte de sua equipe.
Assim,
diante desse antidiálogo, é preciso lembrar que a atividade fim de uma
Secretaria de Educação é o fornecimento da educação. Esse é o objetivo
principal. Por mais que seja obvio, é importante esse destaque para frisar que
as outras atividades (contratação de funcionário, obras, manutenção,
investimento) devem se subordinar a esse objetivo principal, e, portanto,
quando a Secretaria de Gestão de pessoas não provê um quadro completo de
servidores que seguirão até o final do ano, estamos invertendo a ordem das
prioridades.
Se
tivemos pouco tempo histórico na nossa cidade de orçamento participativo,
comparado a décadas de um grupo que se diz técnico e ignora seu povo, que
compreendamos que o processo democrático não é enfeite político, mas uma ferramenta
de atender de fato o que a população precisa ao invés de ditar leis ou planos
de palacetes como se conhecesse tudo o que precisa ser feito na questão
sociopedagógica.
Ana Paula Ferreira
Integrante do Coletivo Educação
sábado, 7 de outubro de 2023
Direitos Humanos e o Feminismo
Os direitos de apreço à liberdade se
situam no que foi denominada de Primeira Geração, tendo como pano de fundo a Revolução Francesa. Os pedidos de
ordem eram na questão civil e política, de modo que, resumidamente, as pessoas
tivessem liberdade de expressão, de ir e vir, de votar e serem votadas.
Contudo, é de chamar atenção que embora fossem Direitos Humanos, e obviamente
as mulheres também sejam humanas, o mesmo peso no campo legal não era
direcionado às mulheres, ao ponto de Olympe de Gouges ter sido guilhotinada
quando discutiu a falta de acesso aos direitos vivenciado pelas mulheres. Basta
lembrarmos que várias décadas se passaram para que as
mulheres conquistassem o direito ao voto.
A Segunda Geração é marcada pelo valor
da igualdade, haja vista que se situaria junto à expansão do Estado de Bem Estar Social. Estão aqui os direitos sociais,
que devem ser usufruídos por todos, ou seja, a educação, saúde, saneamento
básico, segurança, etc. Aqui novamente as mulheres não são colocadas no âmbito
dos Direitos Humanos, uma vez que o direito ao estudo muitas vezes era negado,
e a mulher era tratada como cidadã de segunda categoria, um “segundo sexo”,
como nomeou Simone Beauvoir
Por fim, na Terceira Geração, alinhada
à ideia de fraternidade, estaria a defesa de grupos minorizados socialmente e a
importância de políticas públicas que os retirem do espaço da marginalização
política e econômica. Nos grupos oprimidos, estariam os indígenas, população
negra, pessoas com deficiência, as mulheres, dentre outros.
Daí segue a pergunta: Como o feminismo poderia colaborar para os Direitos
Humanos? Ora, como dizia a escritora bell hooks... o feminismo é para todo
mundo e, nesse sentido, se nota um teor da ideia de igualdade, de distribuir
direitos e o que humanidade produziu de melhor. Não há supremacia. Não há
hierarquia. Há a defesa de uma sociedade mais igualitária entre homens e
mulheres. Não é inverter a lógica e as mulheres oprimirem os homens. É
inclusive combater que essa dinâmica de opressão, pelo marcador de gênero,
raça, orientação sexual, nacionalidade ou qualquer outra coisa. Isso porque se
entende que essas segmentações sociai nada mais são do que uma forma de
fragmentar os trabalhadores, e, portanto, facilitar a continuidade de um
sistema econômico que mantém a desigualdade, massacra
indígenas, expulsa população rural do campo, mata moradores da favela,
culpabiliza jovens pobres pela sua condição, controla corpos femininos e
assassina a população LGBTQIA+.
Esse é o pressuposto de todos tipos de feminismo? Não. Por
outro lado, esse feminismo, que é um feminismo revolucionário, ou nas palavras
de bell hooks, visionário, é o que possibilita que de fato a justiça social,
mediante uma luta que se faz constante em se tratando de uma perspectiva anti
imperialista, antirracista, anti neoliberal.
Por que isso? Porque caso contrário, não alcançamos de fato
a democracia plena, mas damos continuidade na opressão, dessa vez de, por
exemplo, uma mulher oprimir a outra. Se antes o discurso mais corrente era de
que homens são mais inteligentes para se valerem de espaços de poder, hoje essa
narrativa vai sendo aos poucos substituída pela ideia de que independente de
homem ou mulher, terá oportunidade quem for competente. O velho discurso
meritocrático se fazendo presente, taxando algumas de fracassadas e colocando
holofote em outras, como se esse binarismo fosse resultado apenas do
esforço.
Se queremos seguir
na defesa dos Direitos Humanos que se leve em consideração a tríade classe
social, gênero e raça. Deixar o aspecto classista subalternizado é contribuir
para o feminismo liberal que pouco avança na ideia de igualdade. Ignorar a
questão racial por sua vez é dar continuidade ao Pacto da branquitude e ao
invés de se defender direitos, entrar numa seara de defesa de privilégios.
Portanto, um feminismo revolucionário pode contribuir e muito na defesa dos
Direitos Humanos, de modo que liberdade, igualdade e fraternidade ganhem mais
sentido para todas as pessoas.
Ana Paula Ferreira
Integrante do
Coletivo Feminista Mulheres pela Democracia
segunda-feira, 4 de setembro de 2023
Feminismo e combate ao fascismo
Fascismo é um pensamento, uma ideologia política
da extrema direita, que se opõe ao socialismo, e no qual o Estado exerce uma
presença forte e de controle sobre a vida pública e privada da população,
justamente porque angaria esse apoio do povo. De acordo com o romancista e
linguista Umberto Eco, o fascismo enquanto ideia se eterniza, justamente porque
se apresenta inclusive com trajes civis, e compete a cada um de nós jamais
esquecer o que significou sua presença na II Guerra Mundial e no Holocausto
para que evitemos a reprodução dessa barbárie histórica.
Alguns pontos importantes do
fascismo que Umberto Eco elenca e que se destaca para esse texto são: 1) Culto à
tradição; 2) Medo das diferenças; 3) Desprezo pelos oprimidos; 4) Culto
à figura de mitos; 5) Machismo; 6) A Novilíngua de Orwell. Ora, numa perspectiva de feminismo socialista, o qual vai
além de uma perspectiva liberal, se nota que é possível se valer de suas
ferramentas para contrapor a ideologia fascista, e vejamos o porquê, também em seis
razões.
Primeiro porque assumir o feminismo
é algo que de acordo com bell hooks é para todos, lembrando que se trata de uma
defesa de uma sociedade mais igualitária entre homens e mulheres. A partir desse
ponto, já é uma forma de se remar contra a tradição patriarcal milenar, mas,
que como qualquer outra cultura, é possível de mudança caso os sujeitos sociais
se envolvam nesse processo.
Segundo porque o feminismo e os
estudos dentro da questão de gênero trabalham com uma coleção de conceitos que
permite compreender melhor a questão de gênero: sexo, gênero, cis, trans,
heterossexual, homossexual, orientação sexual, identidade de gênero, etc. Assim,
à luz de definições, de entendimento e sensibilização sobre os grupos
marginalizados numa sociedade homofóbica e machista, abre-se a possibilidade
desse medo das diferenças diminuir. Isso porque o outro deixa de ser colocado
como objeto descartável, para adquirir uma outra perspectiva, na qual é
humanizado, visto não apenas em suas diferenças, mas também no que nos aproxima
enquanto humanidade.
Se por um lado o fascismo investe no
desprezo aos grupos sociais mais vulnerabilizados, por outro, o feminismo
socialista, vai intensificar reforços numa dupla batalha: contra a desigualdade
econômica e contra a desigualdade de gênero. Assim, embora o fascismo venha com
seus tratores ideológicos com frases do tipo “Ela não merece ser estuprada” ou
“O erro da ditadura foi torturar e não matar” ou “As minorias precisam se
curvar a maioria”, o feminismo socialista trabalha numa perspectiva de que
levar em consideração que enquanto houver capitalismo, ocorrerá a desigualdade
econômica e, portanto, haverá necessidade dos grupos que estão no poder em dividir
a população, desarticular os movimentos sociais, sindicatos, associações que
promovam a solidariedade e o bem comum, porque no abandono do indivíduo a
própria sorte ele é mais manipulável e possuí menos condições de resistência.
Culto a figura de mitos é outra
característica fascista, nesse apelo à personalismos, a pessoas que se colocam
além do ser humano convencional e anseiam pela fama, numa notoriedade mesmo que
sejam medíocres e não haja fundamentação racional para sua importância. Com o
feminismo socialista ele nos proporciona a possibilidade de questionar esses
lugares de empoderamento individual, afinal, para cada Paola Oliveira ou
Djamila Ribeiro ficar em destaque nas propagandas
da Avon, milhares de mulheres invisíveis precisam bater de porta em porta e
oferecer o produto, num trabalho desenvolvido a anos de maneira precarizada, e
sem a reflexão sobre esses lugares de subemprego.
Em quinto lugar, machismo é um dos
pilares no qual o fascismo se assenta, lembrando que o fascismo é um movimento
de defesa do capitalismo com a presença forte do Estado, na ideia de assegurar
privilégios e não direitos sociais. Silvia Federici na obra “Calibã
e a Bruxa” evidenciou que o processo de acumulação capitalista cerceou todos
elementos que poderiam ser produtivos: terra, meios de produção e a mulher.
Assim, o homem foi tratado como pequeno rei em seu lar e a mulher cabia ter
cada vez mais filhos e operar dentro do ambiente doméstico. Aumentar a
população era uma das tarefas para se garantir salários baixos na negociação
com um grande exército de reserva e quem produzia esse contingente humano
seriam as mulheres. Aliás, é curioso
perceber que sempre em
momentos de crise do capital, voltam os discursos que a mulher deveria ficar em
casa, bela, recada e do lar, sob sustento do marido, pois, ao ir para o mercado
estaria competindo com quem socialmente é aceito para estar ali.
Por fim, no sexto ponto trazido, a Novilíngua de Orwell é
uma ilustração excelente sobre o fascismo. Orwell no livro 1984 satiriza os
grupos totalitários que faziam novas gramáticas reduzindo o vocabulário da
população para deixa-lo mais pobre e consequentemente limitar o pensamento
crítico. Sinônimo disso é quando grupos fascistas não querem explorar conceitos
tão diferentes em si e pelo contrário, usam de palavras de baixo calão, jargões
preconceituosos. Por isso, quando o feminismo ajuda a
compreender o que é cis e o que é trans, o que é hetero e o que é homo, e não
apenas o conceito em si, mas a contextualizar as marginalizações e a utopia de que
outra sociedade é possível. Nesse sentido, o feminismo socialista ajuda a
enfrentar o pensamento raso, as microviolências e a construir uma sociedade
mais justa, numa perspectiva de consciência de classe social atrelada a
consciência racial e de gênero.
Feminismo não é coisa de mulher mal
amada ou que ficou para tia. Novamente essas depreciações são parte de um
raciocínio estreito de quem não se aventurou nas leituras sobre o tema. E para
enfrentar o fascismo, o feminismo está também na trincheira das narrativas mais
revolucionárias, visando a construção coletiva com vistas a uma sociedade com economia mais igualitária e relações mais
livres.
Ana Paula Ferreira
Educadora e militante do Coletivo Mulheres Pela Democracia
Texto também publicado no Jornal da Cidade do dia 02 e 03 de setembro de 2023
terça-feira, 1 de agosto de 2023
Entre cataratas e represas
Há uma boniteza nas coisas que são opostas: a característica é tão peculiar que preserva uma identidade mais genuína. Isso pode ser observado nas cataratas do Iguaçu e na usina de Itaipu, pois embora água em abundância em ambos espaços, ela se revela em dinâmicas diferentes.
As cataratas se impõem pela
natureza. Jorram milhões de água por segundo numa imagem belíssima de
intensidade. A água segue o fluxo, sem amarras, demarcando rochas, arrastando
tudo o que tiver pela frente, levando todas impurezas, seguindo o caminho até
encontrar o mar.
É como se a água se encontrasse em
situação de liberdade. Está solta e por mais que haja um relevo que condiciona
seu percurso, ela não se limita e prossegue aceitando sua própria força e sua
própria existência de ser “água” ... Água que possibilita a vida na Terra, que
escorre, que sacia a sede, que preserva o meio ambiente.
Já a usina Itaipu também impressiona
pela grandiosidade, a qual, desta vez, foi arte do ser humano, na sua
engenharia e na mão de obra de 40 mil trabalhadores que se entregaram na
construção da segunda maior usina hidrelétrica do mundo. A água, porém, está em
outra situação: represada, passando por enormes tubulações para gerar a energia
elétrica. Aliás, só abrem as comportas quando o limite é ultrapassado.
Embora à primeira vista a água
represada mostre calmaria, nada mais é do que turbulência evitada pelo seu
cercamento. É aquele choro entalado, intensidade contida, potência controlada
com vistas a gerar energia a incontáveis pessoas. Enquanto a catarata é grito,
a água que desce obedientemente as turbinas é soluço contido, que consegue ter
seus momentos de vazão apenas quando está no máximo permitido.
Ao pensar sobre essas analogias
entre água e liberdade, lembrei do livro de bell hooks, “Tudo sobre o amor”.
Isso porque em determinados momentos a autora pontua o quanto o sistema
capitalista aprisiona com amarras sutis as pessoas, tendo em vista que
incentiva sermos produtivistas e a nossa tristeza é capturada pela via do
consumo, exigindo que trabalhemos mais e consequentemente, passemos menos tempo
com a família ou em momento de puro ócio.
Assim,
se para uma grande parcela da população a liberdade é palavra de dicionário,
porque estão ainda buscando pela sobrevivência, em contrapartida há também a
situação de que para muitos a liberdade é evitada, pois ela significa assumir
quem somos e termos decisões mais autênticas. Na intenção de sermos úteis,
dizemos “não” a nós mesmos e acabamos por ser a água que desce pelas turbinas,
gerando energia para os outros e não para si. Essa energia pode ser o lucro, o
tempo, o cuidado e tantas outras coisas que fornecemos nas nossas relações
afetivas, de trabalho ou sociais.
O problema é que caso não seja um
movimento de mão dupla, horizontal, em que ambas partes estejam num processo de
mutualismo, provoca um cansaço mental e físico, desgaste e gera a dor de nunca
se conectar com a própria energia. Diante dessa falsa calmaria, há um
silenciamento que traz angustia, insônia, ansiedade, adoecimentos, pois ao
invés de liberar esse sentimento represado através da arte, escrita, terapia,
atividade física ou qualquer modo que ajude a reelaborar, buscamos o alento em
nos encher de coisas e nos esvaziamos do ser, do sentir, do viver intensamente.
Liberdade e amor estão juntos e não
separados. Porque ao fazer escolhas e se contentar com elas há um sentimento de
bem estar, de amor próprio, de se permitir sonhar e de se aceitar ao ponto de
se jogar por inteiro, no amor a si, ao outro e ao mundo. Quando há esse aceite,
há menos autocobrança e mais responsabilização, mais reflexão e menos
sentimento de culpa, mais relações saudáveis e menos toxidade.
Por
mais que a catarata traga mais insegurança e incerteza, ela nos move num
processo de autenticidade, de autoconfiança e percepção de nosso universo
interno, com nossas limitações e potencialidades. Já na represa, buscamos o
encaixe social, justamente pelo medo de ficarmos isolados e nesse processo,
represamos toda plenitude da qual poderíamos desfrutar.
Que
possamos enfim, ser mais catarata e menos represa.
Ana Paula Ferreira
quarta-feira, 28 de junho de 2023
Ensinar a desobediência civil
É bem anárquico o título, mas é essa intenção.
Já
que deixei claro que defendo a disciplina, e principalmente uma educação que
construa autonomia, vamos para o título. “Desobediência civil” é um termo de
Thoreau cujo livro é homônimo. De maneira resumida ocorreu o seguinte... Em
meados do século XIX os Estados Unidos entraram em guerra contra o México
objetivando anexar territórios. Contrário à guerra e à escravidão que ainda
existia, Thoreau simplesmente opta por não pagar mais impostos, uma vez que
esse montante contribuía para o financiamento da guerra. Ele não apenas foi preso,
como escreveu o livro que inspirou Gandhi e Luther King Jr, pois enfatizava a
importância de resistências pacíficas, de combate a leis injustas, pois
obedecê-las é também contribuir com opressão.
Na
escola também há leis injustas e quando os alunos se negam a executá-las muitas
vezes os adultos os advertem oralmente, por escrito, ou tratam a queixa como se
fosse insignificante. Nessa compreensão, o espaço escolar não é um espaço de
troca, de diálogo, mas um panóptico, no qual Foucault faz a comparação da
arquitetura com a ideia de controle e de vigília, tão comum em quartéis,
hospitais, manicômios, e até mesmo escolas. Por conseguinte, se busca o
silenciamento, a obediência, generalizando alguns comportamentos e punindo
desvios.
Se
a crítica é desconsiderada, tratada com frases do tipo “só vocês estão
reclamando”, ou pior, se ao invés de profissionais que defendam os princípios
democráticos, prima-se pela defesa corporativista, o que está se ensinando? Que
a educação enquanto direito social é tratada como caridade, do funcionário
público que doa e do cidadão que deveria apenas receber. Não somente isso, mas
ensina-se a calar, a se contentar, a se subordinar.
Qual
é o tempo destinado para a fala dos estudantes, para a utilização do saber na
argumentação, na tomada de posição ou defesa de uma ideia? Em contrapartida,
qual o tempo que estão tagarelando sem sentido, sem proposta, sem
direcionamento? Qual o tempo que o professor fala? Qual é o tempo destinado a
assembleias, grêmios ou para ouvir de sala em sala os estudantes? Será que a escola fica passiva esperando o
estudante levar suas demandas, ou ela mesma promove momentos de escuta ativa?
Qual é o tempo destinado para produção de texto e qual é o tempo usado para cópia
de textos infindáveis?
Se
ao pensar nesses tempos e chegar à conclusão que o tempo escolar está mal
administrado, uma escola de tempo integral no mesmo modelo, seria redundância
de antidiálogo. E por falar em tempo, ele passa e nem sempre as coisas mudam,
ou talvez não na velocidade que gostaríamos. Publiquei em 2016 um texto
intitulado “A fabricação de máquinas de xerox na escola” que questionava o
quanto as crianças copiam a matéria do quadro e o significativo número de
analfabetismo funcional. Será que se elas parassem de copiar estaria errado ou
errado é o ato de minar a curiosidade em aprender mediante uma prática
cansativa e de teor altamente questionável?
Alienação,
conceito marxista, é a ausência de identificação do trabalhador com o produto
de seu trabalho. Trazendo para o campo da escola, será que os estudantes se
reconhecem no que copiam ou se identificam nos textos autorais que produzem?
Estamos alienando ou proporcionando emancipação? Em época de expansão da
informação, que em fração de segundos temos tantos dados ao nosso dispor, é
extremamente inoperante reforçar a cópia pela cópia. A máquina já faz isso e o
que nós humanos temos de diferencial é na nossa capacidade de criar, projetar,
sonhar, fazer planos criativos. Por isso, aprecio a escrita como técnica de
memória, mas desde que conduza a uma escrita criativa, que incentive a produção
dos estudantes, seja num mapa mental, resumo, registro por tópicos ou tabela.
E voltando
na desobediência civil, se a escola pouco provê de momentos de diálogo, se a
prática docente é mais ancorada em passar textos para cópia do que estratégias
mais significativas, como encararíamos a ideia se os estudantes, por exemplo,
se recusassem a copiar?
Rosa
Parks foi uma mulher negra que se recusou a levantar do banco de um ônibus para
ceder o lugar a um homem branco. Era uma lei, mas ela foi contra. Esse singelo
gesto desencadeou passeatas na defesa dos direitos afro-americanos e boicotes
às empresas de transporte público até que assinaram o fim da segregação racial
nos ônibus.
Ensinar
a desobediência civil: será possível? Se não for, que pelo menos haja atenção
no comportamento estudantil e abertura para um diálogo franco, no qual possamos
melhorar enquanto profissionais, sem esquecer de que o tempo todo estamos
formando pessoas. Daí vamos entender que existem Rosa Parks e Thoreau nas
carteiras escolares e que nem sempre são indisciplinados, mas estão à sua
maneira mostrando a indignação.
Ana Paula Ferreira
Mestre em Educação
Referências
Ana Paula Ferreira - “A fabricação
de máquinas de xerox na escola”
https://www.jornaldacidade1.com.br/maquinas-de-xerox-na-escola/
Henry David
Thoreau – “Desobediência Civil”
Texto publicado no Jornal da Cidade 28/06/2023 p. 9
segunda-feira, 19 de junho de 2023
Postagem: impostora?
terça-feira, 6 de junho de 2023
Tudo passa
E por que mesmo sabendo disso é tão
difícil concordar que a mudança bata na nossa porta? Por que é tão doloroso
reconhecer o que Heráclito disse há milhares de anos de que nada é estático,
nem nós mesmos?
Porque envolve a ideia de luto e
lidar com a morte não é fácil, seja a morte de entes queridos, seja a morte de
tantas coisas... da juventude, das relações, das expectativas, dos planos. Em
ambas situações, de uma morte real ou da morte de algo, há a necessidade de ser
fazer o funeral (literal ou simbólico) como processo de seguir em frente, de
agir sobre o que ficou de nós mesmos, de fechar ciclos.
Mas além da dificuldade do luto
existe outro desafio: trabalhar com o sentimento do apego. Sabe a famosa frase
do Pequeno Príncipe “Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão
importante”? Resumindo, o apego é isso... uma doação, vínculos, memórias,
histórias que fizeram que o objeto amado se torne bonito e especial. Daí temos
outra questão: em que medida desapegar envolve descartabilidade?
O sociólogo Balman quando trouxe o
termo de modernidade líquida apontou o quanto as coisas estão mais frágeis,
fugazes e que se antes era comum o sujeito aposentar no mesmo emprego que
trabalhou a vida toda, matrimônios que duravam décadas ou o estudo (técnico ou
graduação) já ser quase uma garantia de emprego, hoje nada é seguro, tudo é
efêmero.
Mário Sergio Cortella trouxe uma metáfora
nesse sentido quando conta que era comum encontros familiares para fazer
pamonha e que o trabalho era igualmente proporcional ao tempo em estar junto,
de rir, conversar, contar causos e partilhar a produção. Atualmente, na
contramão, além dessa prática não ser comum, consome-se macarrão instantâneo
feito em três minutos, tudo rápido, tudo veloz para atender nossa lógica
desenfreada de tarefas e que nos retira aos poucos das nossas convivências mais
genuínas.
Essas convivências autênticas são
aquelas em que desnudamos nossa alma. Até porque se na sociedade somos CPF, nas
relações comerciais somos cartão de banco e no trânsito CNH, são nas relações
mais próximas que podemos sentir que somos únicos e que tornamos o outro também
especial. Por isso é tão sofrido encarar esses lutos, pois envolve um período
solitário, de não importar com o que importávamos. Aliás, essa palavra
“importar” é interessante porque além de se referir ao que damos importância, é
também verbo do que trazemos de outros lugares para dentro do nosso espaço, e
nesse momento de solidão, o que mais precisamos é de nos abastecer de nós
mesmos, até para diferenciar entre o desapego e a descartabilidade.
Talvez uma frase que ajude nesse
sentido é a de Frida “Onde não puderes amar, não te demores”. Não significa que
as coisas devem permanecer apenas por hábito, tradição ou qualquer coisa do
tipo. Contudo, não é tampouco descartar, porque descartamos o que é facilmente
trocado, é o guardanapo que não virou papel de mensagem de paquera. Se há luto,
é porque houve afeto, fomos afetados e, portanto, a ideia não é descartar o que
foi, mas de saber que se não há condições de ser e de fazer o outro feliz, que
tomemos outros caminhos.
Aspirante a escritora
Texto publicado no Jornal da Cidade, 07/06/2023
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Educação nossa de cada dia
Porque assim como o pão tem que ser de cada dia, também a educação está no nosso cotidiano, nas nossas ações, na nossa formação.
Educação num sentido amplo, não só de escolarização, mas de humanização, de conhecer o que nos foi deixado pelo legado histórico, de apropriar do que a humanidade produziu e buscar trazer releituras, recontos, novas perspectivas, aumentar um ponto, enfim... mostrar que a educação está em vários momentos da vida: no nosso desenvolvimento, na de nossos filhos, de nossos alunos, da sociedade.
Da mesma forma que o trigo precisa ser debulhado para depois ser pão, o conhecimento precisa ser trabalhado para se constituir em saber. Não vivemos sem pão, sem o alimento para o corpo, porém não nos suprimos sem o conhecimento, pois o tempo todo nos defrontamos com escolhas e com a necessidade de intervir sobre as coisas existentes.
O trigo não basta! É preciso pão!
A concretude não basta! É preciso ir além do palpável e do visível!
Por isso não vivemos sem educação. Não comemos, não vestimos, não habitamos, não sonhamos sem educação.
E daí o fato de precisarmos nos apoderar do saber para termos mais controle sobre o que comer, o que vestir, onde morar e o que sonhar , pois caso contrário estaremos vivendo de forma rasa, superficial, uma vez que sempre haverá alguém para querer pensar por nós.
Ana Paula Ferreira
Outubro de 2015
