Texto publicado no Jornal da Cidade 28/1/2016
Um blog para refletir sobre a educação... lembrando que a educação é do dia-a-dia, está em tudo e em todo lugar.
Deixo dois links de participações no 1º Congresso de Políticas Públicas.
Educação e Neoliberalismo
https://youtu.be/lgErQxEKV8s
Educação e Política
https://youtu.be/yCRcXRcOFPw
Imagem retirada no site https://www.youtube.com/watch?v=a3eO6-D4nHo
Bourdieu, um importante sociólogo francês, realizou um estudo complexo em relação aos mecanismos pelos quais uma classe social se coloca com mais prestígio, poder e dominação em relação a outra. Pensando no trabalho docente da Educação Básica, vou ater em apenas três conceitos: capital econômico, social e cultural.
A desigualdade ocorre via capital econômico, que podemos resumir não apenas na relação monetária, quantidade de dinheiro, mas de investimentos, propriedades, recursos pelos quais o indivíduo consegue gerar e acumular mais riquezas. A desigualdade também se estabelece no acúmulo de capital social, que em linhas bem gerais, seriam os benefícios simbólicos de pertencimento a um grupo, que permite que os membros acessem ao que é produzido nessa coletividade e se fortaleçam em comunhão seja para maiores inserções sociais ou valorizações salariais. E, por fim, e não menos importante, há o capital cultural, que ocorre por todos valores, perspectivas, linguagem, conhecimento, titulações que o sujeito se apropriará ao longo da vida e que servirão como elementos de distinção.
Nós professores não temos o potencial de acumular capital econômico, não somos donos das escolas privadas, nem de rede hoteleira, nem de fábricas, muito menos de bancos. Talvez de uma forma mais genérica possuamos um carro para nos transportar para as diversas escolas e uma casa. Aliás, em tempos de defesa do homeschooling, da perseguição ao que é lecionado, valorização do saber da internet sobrepondo o saber escolar ou a busca em destruir a força dos sindicatos questiono se nosso capital social diminuiu.
E nosso capital cultural? Afinal, temos a titulação de ser professor. Muitos já concluíram pós-graduações, participaram em seminários, congressos, cursos virtuais e presenciais de educação. Nesse sentido, os professores detêm um capital cultural que Bourdieu nomeia como institucionalizado, pois ele se manifesta pela via da diplomação. Porém há duas outras formas pelas quais o capital cultural ocorre que é o incorporado, a cultura que recebemos desde nossa infância, e o objetivado que pode ser adquirido pela aquisição material (compra de uma pintura por exemplo) ou de maneira simbólica na relação entre sujeito e objeto do conhecimento.
Não é difícil perceber que para uma vasta experimentação cultural, a fim de alargar o repertório do saber, duas coisas são extremamente importantes: tempo e dinheiro. É certo que há bibliotecas públicas, exposições gratuitas de arte ou museus com entrada de livre acesso. Porém, também é fato que a vivência cultural exige dinheiro, seja viagens em cidades históricas ou visita a exposições que estão distantes da vida no interior.
O problema é que à medida que o salário é praticamente um valor para a sobrevivência, os educadores se dobram em acúmulo de aulas para conseguir ter uma vida com um pouco mais de conforto e a consequência é menos tempo para o momento do ócio, que segundo o sociólogo italiano Domenico de Masi, é uma parte fundamental para o desenvolvimento da própria criatividade. Atrelado a isso, numa sociedade do consumo, a indústria cultural se aproveita desse curto espaço de lazer para trazer enlatados de informação que nos transformam em meros espectadores, com baixa potencialidade de reflexão, e cair nessa armadilha não é difícil, pois basta usar o controle da televisão.
Através do ócio podemos nos humanizar, nos sensibilizar com coisas que passariam desapercebidas, porque fugimos do automatismo para cultuar um pensamento livre, fortuito, que se entrega a si, ao outro, ao cultivo às diferentes produções artísticas, à possibilidade de vivência em comunidade e sem perceber tecemos uma colcha com vários retalhos simbólicos, revisando inclusive em nossos preconceitos, que na nossa visão míope do dia a dia, não conseguiríamos dar conta.
Isso aconteceu comigo recentemente. Estive pela primeira vez no Rio de Janeiro cheia de medos, reflexo de anos de uma cultura midiática que coloca esse espaço na ótica da violência, da bala perdida, do tráfico. Não quero também reforçar que “o Rio de Janeiro continua lindo”. É evidente que há graves problemas. Mas ir até lá, me mostrou gente organizada que luta para que a história das minorias sociais não seja apagada; de profissionais da saúde que dedicaram uma vida a favor da humanização no atendimento aos pacientes diagnosticados como loucos; de pessoas comuns, de todos os fenótipos e idades que deixaram a felicidade tomar conta do seu gingado sob os batuques da bateria de escolas de samba.
Nesse sentido, é um grande engano quando tratamos a formação docente apenas no seu caráter burocrático, curricular ou didático. Ensinar não é explicar o que está no livro. É além disso. Envolve um trabalho de “gastronomia”, entre o que o professor sabe sobre o “prato”, o que o aluno conhece e os “ingredientes” que possuem à disposição. Quanto menos ingredientes simbólicos, menos possibilidades de inovação metodológica, de criação ou menores as chances de aguçar a vontade do estudante na experimentação do menu escolar.
Por isso, se o “prato principal” da formação docente exige tempo e dinheiro, que o cumprimento da regulamentação do piso seja urgente. Enquanto tivermos governadores que recorrem ao Tribunal de Justiça pedindo inconstitucionalidade da lei ou prefeitos que dizem que “lei não discute, lei se cumpre”, mas estão longe de tornar promessa em ação, assistiremos o desalento do trabalho docente e do futuro de gerações que passam pelas escolas.
Triste quando lembramos a frase do educador Darcy Ribeiro quando diz que “a crise da educação não é uma crise, é um projeto”. Porque daí reforça-se a perspectiva que não pagar o piso, previsto em lei nacional é contribuir novamente para que os diversos tipos de capital continuem concentrados apenas para um pequeno grupo dominante.
Ana Paula Ferreira
Mestre em Educação e supervisora escolar
Texto também publicado no Jornal da Cidade do dia 31/01/2022 e no Jornal Poços Já
https://www.pocosja.com.br/2023/01/31/artigo-capital-cultural-e-formacao-docente/
As fotos de desnutrição dos
yanomamis chocaram o mundo e é fato que esse genocídio sombrio não se iniciou
agora. Povos indígenas foram exterminados desde a chegada dos europeus, que
trouxeram gripe, sarampo, tuberculose, sífilis, pólvora, ou nas palavras de
Neruda “a espada, a cruz e a fome”.
Aimorés, Goitacazes, Carijós, Cariris,
Guaranis, Tamoios e tantos outros povos foram caracterizados como selvagens. A
perversidade da nomenclatura agia como lâmina: ao serem selvagens, não mereciam
viver na sua plenitude. Portanto, se a morte não fosse simbólica, de todas suas
memórias e identidades, amansados pelas cruzes cristãs ou reduzidos a escravos
pelas espadas dos bandeirantes, a morte seria real, sanguinária, dizimando
milhões de indígenas, enterrando culturas, línguas, formas de ver e viver o
mundo.
Na perspectiva europeia, ameríndios
deveriam trazer lucros, gerar riquezas, abastecer o capitalismo internacional
que já dava seus ensaios de mostrar os desequilíbrios econômicos entre os
colonizadores e colonizados. Se os indígenas não participassem dessa lógica eram
considerados preguiçosos, atrasados e daí a pergunta que muitos se fazem até
hoje: por que preservar suas culturas se são os inimigos do desenvolvimento
econômico?
Primeiro, é importante frisar que
os indígenas partem de outra ótica planetária. Num planeta que já não sabe o
que fazer com seu lixo, os indígenas produzem suas casas com materiais
biodegradáveis; numa economia neoliberal que desmata hectares para benefício
imediatista da agropecuária e de madeireiras, indígenas preservam florestas
mediante a agricultura itinerante; numa sociedade que transforma a todos como
meros consumidores, indígenas são produtores diretos de suas próprias
habitações, instrumentos musicais, alimentação.
Aliás, cabe lembrar que através
da manutenção de suas reservas é possível ter a regularidade de rios voadores
que contribuirão com a umidade das plantações do Centro-oeste. Seca é
subdesenvolvimento, é fome, é falta de geração de renda. Assim sendo, povos
indígenas não remam contra um desenvolvimento que seja ecologicamente
sustentável.
Contudo, apesar de ajudarem na
nossa produção de comida, estão morrendo de fome, agravada pelo governo Bolsonaro
quando atribuiu que a demarcação das terras indígenas seria feita pelo
Ministério da Agricultura ao invés da FUNAI (Fundação Nacional dos Povos
Indígenas). Isso resultou em deixar que ruralistas se encarregassem de “cuidar”
das terras dos povos originários e a consequência foi a entrada maciça de
tratores, carretas, gado, arrendamentos ilegais, aumento exponencial do
desmatamento e da morte da população indígena nos últimos anos.
Inúmeras denúncias foram
realizadas, inclusive sobre os impactos do garimpo ilegal. Geração de renda!
Alguns dirão... Porém, renda e ganhos para quem? Novamente o capitalismo se
impõe e além da destruição de yanomamis, garimpeiros se mantem pobres sem a
previsão de qualquer direito trabalhista. Ainda na onda do desastre econômico,
ao ser ilegal, não há geração de imposto, fragilizando a eficiência do Estado
no cumprimento de suas ações. Enquanto isso, empresários nacionais exportam o
ouro em barra e joalheiros internacionais lucram com a devastação ambiental,
social e étnica de países que se curvam a seus interesses.
O garimpo traz junto de si o
mercúrio que contamina águas, terra, plantas e consequentemente interfere na produção
alimentar. O quadro piorou com os surtos de malária e na falta de medicamentos,
cuja empresa responsável entregou menos de 30% do previsto. Mulheres e crianças
yanomamis são alvos de exploração sexual em troca de comida, dezenas morreram desnutridos
e enquanto isso a indústria da mentira quer associar essa tragédia como se
pertencesse aos grupos indígenas que vivem na Venezuela.
Quais são as perspectivas
futuras? O que esperar? Ou melhor, como participar desse movimento de defesa de
suas vidas?
Em visita recente ao Museu do
Amanhã (RJ) me impressionei com as imagens de Sebastião Salgado em homenagem
aos nossos povos originários da Amazônia. A exposição não deixou de se articular
com o segundo andar e a iluminação do ambiente. Começava por salas mais escuras,
que serviam como um convite à reflexão do que deveremos manter para que haja um
“amanhã” e por isso não faltaram apelo à consciência ambiental, à preservação
cultural, passando por locais nos quais os visitantes, se enxergassem nesse
papel de estar no centro da sociedade, no meio e, logo, responsáveis também por
esse modelo violento de economia que incide em tantos outros problemas.
Mas no final do túnel havia
realmente luz. Luz do próprio sol que entrava pela estrutura do museu e nos
possibilitava ver com claridade duas imagens. A primeira, uma churinga, uma
espécie de urna de histórias, onde os anciãos australianos guardavam toda uma
cultura a ser contada para as novas gerações. A segunda, o horizonte do oceano,
horizonte que traz a beleza da metáfora em se confundir com o amanhã, que se
abre na nossa frente feito um imenso tapete de água, no qual se perde a ideia
do que virá.
Não sabemos se conseguiremos
preservar a cultura de nossos povos. Não sabemos se haverá meios para reverter
tantos danos ambientais que já foram cometidos. Mas estamos no meio disso e
fugir é dar o aval aos colonizadores da globalização, repetir mentiras é
esquecer o que está na churinga de nossas memórias enquanto povo, esquecer das
atrocidades ou ser conivente a elas é não se responsabilizar por um futuro do
cuidado, da diversidade, de uma vida que pode ser socialmente sustentável e que
os povos indígenas tanto revelam sobre isso.
Ana Paula Ferreira
Educadora e membro do Coletivo Educação
- É
Frida, mãe!
-
Mas por que vocês que lutam pelas mulheres, admiram alguém que sofreu tanto por
um homem?
Com base nessa conversa, pensei muito no assunto, pois meu próprio e-mail faz referência à uma personagem de livro que me marcou profundamente na adolescência. Karenina era uma aristocrata que abandona o marido e o filho para viver um impetuoso amor, e, posteriormente, atormentada pelo isolamento social e sentindo o amante cada vez mais distante, num ato de desespero, joga-se na frente de um trem.
Daí que surgiu o título desse texto na tríade “mulher, sofrimento e amor”. Não que o sofrer seja específico da alma feminina e os sucessos da música sertaneja apontam isso. Mas, por outro lado, cabe refletirmos na questão do afeto e do gênero como construções culturais.
Isso porque desde pequenas somos acostumadas a assistir cenas que nos remetam a ideia de que a mulher precisa suportar o sofrimento para depois desfrutar de um amor. Assim, Bela aguenta o cárcere privado imposto pela Fera, Cinderela fica na angústia da espera pelo príncipe, Ariel emudece para tentar ter a paixão correspondida. Além do impacto da indústria cultural que produz filmes, músicas, livros, novelas inspirando um jeito de viver na subjetividade feminina, a infância demonstra outros marcadores de gênero, nos quais a menina ganha panelinhas, bonecas bebês de tudo quanto é tamanho, kits de maquiagem, que em resumo lhe tentam traçar o destino: do lar, boa mãe, vaidosa com vistas a chamar a atenção do gênero masculino.
O universo público não é posto para a mulher, mas sim o doméstico. Sendo assim, é vendido o projeto de que é preciso conservar o amor, a beleza, a sensualidade, o marido e fazer de tudo para que seja reconhecida. Ocupar-se disso, dói, machuca porque escravizamos nosso corpo. Não é fácil encolher a barriga em cintas, andar sobre saltos, machucar a perna numa depilação, com laser, lâmina ou cera.
Fazemos porque gostamos, alguns dirão... Pode ser escolha, afinal, nos definimos como seres racionais capazes de decisão. Contudo, é inegável a pressão social, a imposição cultural de que mais vale seguir tendências do que ter a autenticidade respeitada.
“Mirem-se no exemplo das mulheres de Atenas”, já musicava Chico, reforçando o quanto nossa cultura ocidental olhou o espelho do nosso berço civilizatório para colocar a mulher a serviço do marido. O modelo patriarcal está presente a milhares de anos e perdura com as histórias bíblicas, na figura de mansidão de Maria, nos discursos de padres e pastores, nas políticas públicas impostas principalmente por homens que se ocupam da política, nos assédios cotidianos, na criação de uma mentalidade que atribuí a mulher a característica da sensibilidade para torná-la serva do cuidar.
Historicamente a sensibilidade nos foi cultivada, o cuidado com os demais nos foi imposto. Ensinaram-nos que para atingir a felicidade precisaríamos de um parceiro e que mesmo numa relação tóxica, era necessário exercitar a paciência, a quietude, o equilíbrio. Daí que independente de sermos ricas igual a Karenina ou talentosas tanto quanto a Frida, ou com reconhecimento social, ainda sim, poderíamos estar presas nas nossas dependências emocionais.
O que fazer? Nos libertarmos de nossas prisões psíquicas? Talvez um caminho seja pensar que “Você é seu próprio lar” trecho que ecoa da banda “Franscisco, El hombre”. Assim, independente se casadas ou solteiras, ou qualquer outra definição, que consigamos ter uma relação de paz conosco.
E se o sofrer aparecer? Uma possível estratégia seja o que Nietzche chamou de “Amor Fati”, ou amor ao destino, o que não significa uma postura de resignação, mas de usar esse potencial de dor para criar, para refletir, para se reinventar, até porque somos o que somos pela nossa história e como olhamos para ela. Haverá as que colocam a mochila nas costas e partem para uma liberdade estilo Frozen “livre estou” e outras que tentarão com tintas, cores, pensamentos, traduzir o sofrimento amoroso em arte.
Frida estava emocionalmente ligada ao pintor Diego tal como a escultora Camile Claudel também se apaixonou pelo famoso artista Rodin. Não significa que elas se abandonaram a própria sorte, mas escolheram se entregar ao sentimento de maneira profunda fazendo brotar o quadro “Diego on my mind” ou a escultura “L'Âge mûr” que retrata uma jovem implorando amor a um homem mais velho.
Seria muito pueril desejar o não sofrimento. Ele é inerente a nossa condição de seres desejantes, que fazem suas escolhas apesar de todas condições adversas. Por isso admira-se a história de muitas mulheres. Não porque sejam perfeitas, mas porque souberam em algum momento lidar com suas feridas e se colocar de alguma forma frente a esse mundo patriarcal, uma cultura milenar que cabe a cada um e cada uma de nós quebrar.
Ana Paula Ferreira
Membro do Mulheres pela Democracia
Na escola podemos trabalhar com um acervo enorme de textos e transformá-los em encenação.
Mas, tendo em vista que o ano escolar é extremamente curto para tanto conhecimento a ser apresentado aos estudantes, precisamos de um crivo, de critérios que estabeleçam o porquê de uma coisa e não de outra.
Qual o crivo?
Primeiro não abandonar o currículo e o teatro tem uma possibilidade enorme para isso, afinal é uma arte que se articula com diversas outras linguagens: leitura, literatura, música, dança, encenação corporal, fotografia.
O teatro em si é um instrumento para trabalhar com várias competências socioemocionais, pois exige a disciplina de quem espera a vez do outro dar a fala; a segurança de encarar uma plateia; a autoestima daqueles que entenderam que podem se posicionar no mundo; o companheirismo de estar junto ao outro; a solidariedade de ajudar o colega a se expressar; a criatividade na interpretação teatral.
Além disso, o texto pode colaborar com as áreas de saber que são referentes ao currículo daquele ano letivo e com o próprio perfil da turma e faixa etária.
Assim sendo, teve ano escolar que eu mesma fiz o texto e busquei aproximar com os componentes curriculares estudados. No 5º ano por exemplo, em História, é parte do currículo o tema da escravidão e a colonização portuguesa no Brasil, daí, criei duas peças para sensibilizar sobre os assuntos. E isso é outra coisa bacana no teatro, pois o conhecimento científico em si, traz a bagagem de dados, fatos, compreensão de causas e consequências, porém, é com a arte que tocamos a alma para impactar sobre problemas que afligem nossa sociedade decorrentes de escolhas tomadas no passado.
Já numa turminha de 2º ano, aproveitei o conteúdo do folclore e a cultura popular e construí uma peça que permeava esse tema junto a questão da sustentabilidade. Foi incrível ver os mais arteiros envolvidos com a peça, deixando a bagunça para a hora do recreio...rsrsr
Ocorre que na sociedade capitalista,
a principal desigualdade é a de capital, onde uns poucos detêm os meios de
produção e compram a força de trabalho da maioria da população, por preço
mínimo. Contudo, para que o poder seja de fato consolidado, os donos do jogo
hierarquizaram a sociedade atribuindo privilégios a alguns em detrimento a outros,
na perspectiva de “dividir para conquistar”. Assim sendo, ao que seria apenas
uma desigualdade entre classes sociais, se somam desigualdades definidas pela
cor, raça, gênero, orientação sexual, nacionalidade, e tantas outras questões
que diminuem o outro para que sua exploração no mercado seja ainda maior.
Pois bem, voltemos à ideia do prédio
e a questão do machismo estrutural. É fato que a mulher conquistou o direito de
votar, estudar, exercer diversos cargos, escolher ou não a vida matrimonial. Entretanto,
não alteramos a estrutura, uma vez que a distribuição da riqueza e do poder
ainda é concentrada nas mãos masculinas, ao ponto de haver a “feminização da
pobreza”, seja porque há uma discriminação salarial entre homens e mulheres,
seja porque a mulher exerce diversos trabalhos não remunerados, seja por suas
ocupações com pouca rentabilidade.
De modo a garantir que essa
desigualdade permaneça, a cultura, tão entranhada nas relações humanas, nas
instituições e nos meios de comunicação, cumpre papel fundamental. É a cultura
que validará o machismo cotidiano manifesto em gestos sutis, mesmo entre os que
se dizem progressistas ou defensores da igualdade de gênero. Na vida familiar
estará por exemplo, na sobrecarga de tarefas domésticas ou relacionadas ao
cuidado, estritamente despendidas por mulheres. No ambiente de trabalho se
apresenta com homens que alteram o tom de voz, batem em mesas ou apontam os
dedos quando o outro funcionário é uma mulher; na vida pública o machismo
cotidiano está em tentar silenciar a mulher, depreciando seus discursos ou
colocando em xeque seu equilíbrio mental ou sua moral.
Daí que enquanto não mudamos a
estrutura do capitalismo, que se ergue sobre os pilares das desigualdades,
nunca eliminaremos o machismo, e sempre haverá o risco de direitos que até
então que estavam consolidados, serem questionados. É o caso atual, brutal e
extremamente misógino, apresentado com o PL 478/07, chamado de “Estatuto do
nascituro”, que prevê a anulação de direito ao aborto em casos de violência
sexual, algo até então garantido desde o Código Penal de 1940.
A aprovação desse Projeto de Lei
seria a força do estuprador se estendendo para além do ato violento, corroendo
não somente a estrutura psíquica da vítima, como também sua estrutura biológica,
fazendo-lhe crescer uma barriga que ela não desejava, uma criança que ela não
queria.
Se é de estruturas que somos feitos,
se é de estrutura que a sociedade é elaborada, quais pilares precisaremos
desmontar para reerguer outra perspectiva de mundo? Aliás, é interessante
perceber que o símbolo arquitetônico do poder, o obelisco, tem formato fálico,
vertical, imponente, simbolizando superioridade.
Creio ser necessário uma engenharia
social plantada na horizontalidade, tanto da distribuição do capital econômico,
quanto cultural, social, simbólico. É um projeto possível e por isso precisamos
ficar atentos e participar na medida do possível da construção das políticas
públicas que tanto balizam sobre essa distribuição do que é produzido pela
humanidade. Junto a isso que possamos olhar para os machismos do dia a dia, nos
repensarmos enquanto seres humanos, para não endossarmos uma violência contra a
mulher que já é por si só, tão gritante.
Ana
Paula Ferreira
Membro
do Coletivo Mulheres Pela Democracia
Texto também publicado no Jornal da Mantiqueira e no Jornal da Cidade do dia 20/12/2022
A autora Chimamanda nos alerta sobre
a hegemonia de uma narrativa que alimenta preconceitos e injustiças sociais uma
vez que grupos historicamente desprivilegiados são estigmatizados… negros e
latinos são associados ao mundo do crime; indígenas brasileiros a preguiça e as
mulheres às pessoas destemperadas e desprovidas de racionalidade para cargos de
liderança.
Além da difamação a grupos
socialmente minoritários, pode ocorrer a calúnia ao “outro”, enquanto ser
individual. Nesse caso é a fofoca. A régua não é a dos Direitos Humanos, mas
pelas concepções de quem as emite. Esse é o termômetro. Assim, se o avaliador é
alguém mais moderado, o outro é sempre radical e o mesmo vale para a situação
contrária. Não se trata do comentário de quem valoriza a pluralidade, mas de
quem quer simbolicamente eliminar o que é diferente.
Isso porque a fofoca não tem por
finalidade possibilitar que o outro reflita, repense e mude até porque “o outro”
não é o destinatário da conversa, mas o conteúdo em questão. O outro não é o
sujeito, mas sim, objeto e, portanto, é coisificado.
Todos nós somos suscetíveis a
participar da detração, afinal ela possibilita o sentimento que somos dignos de
confiança na partilha de informações alheias, independentemente de serem falsas
ou verdadeiras. Há um vínculo entre os que trocam os dados, numa sensação de
ser superior a quem está sendo caluniado.
A fofoca é múltipla e atende ao
provérbio “quem ouve um conto aumenta um ponto”. Pode ser elaborada no ambiente
de trabalho, na família, nos espaços de lazer, religiosos e os mais variados
lugares. Se, por um lado, a luz em excesso cega, o excesso de mensagem provoca
desinformação. Na mesma analogia, se um deficiente visual precisa de um suporte
para se locomover, o cego de informação, terá como crivo a confiança depositada
em quem lhe transmite a mensagem. Apoia-se na opinião naqueles e naquelas por
quem tem simpatia, consideração e respeito e por isso não é uma comunicação
pautada apenas na racionalidade. Há a questão subjetiva, afetiva, emocional.
Isso pode trazer várias
consequências. Dor e sofrimento para quem se percebe caluniado, sem saber como
reagir, porque o direito a voz é negado, afinal, não sabe exatamente o que é
dito e nem quem diz. No caso de detração política é ainda pior, pois ceifa a
democracia, e o valor do debate é substituído por invenções para tirar o foco
de propostas, de projetos que poderiam ser construídos.
Os autores do livro “Como as
democracias morrem” analisaram que antes havia uma ditadura bem delimitada que
acabava com os processos democráticos e que hoje o “retrocesso democrático
começa nas urnas”. Podemos pensar inclusive, que o retrocesso se inicia antes
das urnas, uma vez que a mentira ganha mais espaço, seja diante da letargia do
Judiciário em agir no combate à propagação de notícias falsas, seja pela
ambição de empresas que gerenciam a comunicação e lucram com as boatarias, e
até mesmo por conta de uma parcela da população que se exime da
responsabilidade de observar, de buscar saber outras versões e simplesmente
compartilha mensagens falsas.
Não é o fato de estar acostumado a
fofoca, que ela deve ser naturalizada. Ela não está no nosso DNA, ela é
cultural, e como tal, precisa ser repensada. Se queremos um ambiente
democrático isso perpassa em falar “com” o outro e não “do” outro. Se queremos
um ambiente democrático não significa sair em busca da onde a fofoca surgiu,
porque democracia não se faz com perseguição. Por outro lado, também, não
podemos fingir que ela não exista, pois isso significaria aceitar que histórias
sejam apagadas ou rasgadas por difamações.
Enquanto educadora, lembro de Paulo
Freire quando ressalta sobre nosso inacabamento, já que estamos em constante
formação. Isso dá certa leveza, pois há liberdade para assumir falhas, abrindo
brecha para disposição em acertar, principalmente quando a reflexão se faz
presente para desnaturalizar determinadas posturas. Afinal, se projetamos
beleza, justiça, transparência para o mundo, é incoerente persistir com a
detração, pois significaria um ataque não apenas às pessoas, mas à democracia e
à semente de um novo projeto de sociedade.
Ana Paula Ferreira, supervisora escolar e mestre em Educação
Texto também publicado no Jornal da Cidade, 26 de novembro de 2022
É emblemático o “antes da Coca-Cola”
porque quando uma corporação ocupa um espaço, não ocorre apenas a entrada de
compra e venda desse produto. É a produção de um modo de agir, de ser e de
compreender o mundo. Nesse caso em específico, fica no imaginário a figura da
família sentada a mesa farta, entre risos brancos e conversas amigáveis bebendo
esse refrigerante. Ou de um papai Noel esbanjando saúde com seus cabelos
grisalhos tomando um gole ou outro da bebida.
Nas prateleiras de supermercado não
compramos família, nem amigos, nem felicidade. Por outro lado, o que a
propaganda faz é produzir esse combo: compre um refrigerante e ganhe amigos. Os
dentes que nos sorriem os personagens do comercial não são os mesmos dentes de
quem toma frequentemente essa bebida, nem tampouco a pele lisa e lustrosa do
bom velhinho é a mesma pele dos consumidores desse produto.
A distância entre a propaganda e a
realidade não é novidade. E, diga-se de passagem, é tão comum as pessoas
saberem o poder corrosivo desse produto que usam para desentupir pias. Porém,
os efeitos maléficos não se restringem a saúde humana de problemas com
diabetes, ansiedade ou diminuição da quantidade de vitaminas no corpo. Os
impactos também são ambientais e sociais.
De acordo com o documentário “The
Corporation” as corporações norte-americanas se fortaleceram em cima da 14ª
emenda que as consideraram como se fossem pessoas. Num paralelo de que tipo de
pessoas seriam, os documentaristas as comparam com o perfil psicopático, tendo
em vista que são incapazes de seguir regras ou de sentirem culpa, não se
preocupam com a segurança ou bem-estar alheio, usam da mentira para obter
lucros ou vantagens, manifestam desprezo pelo sentimento alheio.
Não é sem razão que houve denúncia
em 2018 de que as nascentes dos rios de Minas Gerais estavam secando com a
exploração da água pela empresa ou que ela se destaca na quantidade de lixo
plástico nos mares e oceanos. Nega um compromisso com o meio ambiente e usurpa
a qualidade de vida de gerações que dependem daquele meio para sua
sobrevivência. Não satisfeita ao faturamento sempre crescente, a companhia
evitou esforços para ajudar os pequenos empresários em período de pandemia.
Isso aconteceu com Maria, uma amiga dona de um pequeno bar de bairro. Devido as
quedas de consumo, a proprietária não conseguiu vender a quantidade de
refrigerantes disposta no contrato e a consequência foi a retirada do freezer
que era cedido para a dona do estabelecimento. Se já era difícil vender em
plena pandemia num bar, sem freezer isso ficou mais insustentável. Essa recusa
em perceber o outro não é caso isolado. Houve situação da distribuidora da
bebida ser condenada pelo Ministério Público por estender a jornada de trabalho
em 14 horas.
Podemos enquanto consumidores
comprar de empresas que sejam mais responsáveis com o meio ambiente e com a
sociedade, mas isso é apenas um início de pressão social. É necessário que
altas fortunas sejam taxadas de maneira a haver mais recursos para as políticas
públicas; que haja regulamentações sérias por parte do Estado e que a
fiscalização ambiental seja uma constante; que as propagandas de produtos
nocivos ao desenvolvimento infantil sejam evitadas em canais destinados às
crianças, evitando um consumismo inconsciente; e que leis trabalhistas forneçam
direito ao descanso, ao salário digno e a segurança.
Para isso, não é necessário resgatar
uma China que já passou e que também teve seus percalços. Os tempos e as
demandas são outras. Por outro lado, se precisamos das empresas, que haja um
controle dessas, de modo que possamos ter um ambiente sustentavelmente seguro e
uma sociedade com mais condições humanizatórias de desenvolvimento.
Ana Paula Ferreira
Supervisora escolar e
Mestre em Educação
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Porque assim como o pão tem que ser de cada dia, também a educação está no nosso cotidiano, nas nossas ações, na nossa formação.
Educação num sentido amplo, não só de escolarização, mas de humanização, de conhecer o que nos foi deixado pelo legado histórico, de apropriar do que a humanidade produziu e buscar trazer releituras, recontos, novas perspectivas, aumentar um ponto, enfim... mostrar que a educação está em vários momentos da vida: no nosso desenvolvimento, na de nossos filhos, de nossos alunos, da sociedade.
Da mesma forma que o trigo precisa ser debulhado para depois ser pão, o conhecimento precisa ser trabalhado para se constituir em saber. Não vivemos sem pão, sem o alimento para o corpo, porém não nos suprimos sem o conhecimento, pois o tempo todo nos defrontamos com escolhas e com a necessidade de intervir sobre as coisas existentes.
O trigo não basta! É preciso pão!
A concretude não basta! É preciso ir além do palpável e do visível!
Por isso não vivemos sem educação. Não comemos, não vestimos, não habitamos, não sonhamos sem educação.
E daí o fato de precisarmos nos apoderar do saber para termos mais controle sobre o que comer, o que vestir, onde morar e o que sonhar , pois caso contrário estaremos vivendo de forma rasa, superficial, uma vez que sempre haverá alguém para querer pensar por nós.
Ana Paula Ferreira
Outubro de 2015