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terça-feira, 22 de março de 2022

A mulher e o sistema capitalista um diálogo das obras Calibã e a Bruxa e O Conto da Aia

 



  • Resumo

O presente artigo faz um diálogo entre duas obras, uma teórica, de Silvia Federici (2017), e outra literária, de Margaret Atwood (2017), mostrando os caminhos que o capitalismo define para a mulher, entre o extermínio e o controle de corpos. Para esse comparativo, há um breve histórico do capitalismo e sua problematização em relação a gênero.
PALAVRAS-CHAVE: Capitalismo. Mulheres. Igreja. Estado. Violências.

Link     https://seer.ufu.br/index.php/neguem/article/view/65098

  • Ana Paula Ferreira
  • Fernanda Mendes Resende
  • Maria Cláudia da C. F. S. D’A. de Andrades

DOI: 

https://doi.org/10.14393/CEF-v34n2-2021-11

domingo, 20 de março de 2022

Greve: potencial educativo

           


            Em 2006, quando li o livro “Professora sim, tia não!” ficou em mim que ensinamos pelo exemplo da greve, sobre democracia, direitos trabalhistas e tantas outras coisas. O que eu não sabia na época e só fui entender mais tarde é que não ensinamos apenas, pois a greve tem um enorme potencial pedagógico, e professores em greve também aprendem. E o que o ato de fazer greve nos ensina? Poderia enumerar diversas questões, mas vou sinalizar cinco: clareza de quem é o destinatário da greve, o protagonismo, o esperançar, o compromisso com o coletivo e a consciência de classe.

Quando buscamos que nossos estudantes tenham um olhar crítico, para além do que está no texto, de perceberem com clareza a origem das desigualdades e os sensibilizamos para que saiam da condição de inércia para a de denúncia, estamos possibilitando uma educação que fortaleça a participação cidadã, a vida em coletividade, a preocupação com a defesa dos direitos humanos e de uma sociedade mais justa e sustentável. Porém, o papel dos professores engajados com a vida pública, está muito além em tacar a bola para as novas gerações resolverem problemas dos mais velhos.

Daí que ao escolher pela participação no movimento grevista o professor abre duas vantagens para ter sua demanda atendida. Primeiro porque traz o incômodo da greve, de fazer com que mais pessoas saibam e discutam o problema. Segundo porque terá mais tempo disponível para se engajar nas ações grevistas, haja vista que sem elas, corre-se o risco de o movimento grevista sucumbir e até mesmo não adquirir o apoio da sociedade, tão necessário em tempos de perseguição à funcionalismo público. As atividades são várias, sejam elas de confecção de cartazes, panfletagem, textos para jornais, cartas à deputados, conversa com a comunidade, visita às escolas que não aderiram, manifestações. Essa vida participativa ensina que o ato de educar vai além da escola, isso porque os donos do poder não estão sentados nos bancos escolares e devem ser esses os destinatários reais da nossa indignação.

Toda essa atuação orgânica no movimento nos abre outro aprendizado. Saímos da condição de assujeitados e nos tornamos sujeitos da história, daqueles que avaliam o contexto e analisam que é possível uma intervenção enquanto grupo, categoria, classe social e não os que apenas vão cumprindo a rotina, extremamente centrados no imediato.  Outro ensinamento é a sensação de esperança vinda pelas nossas mãos, e daí fugimos da condição do fatalismo histórico, do “não adianta de nada”. Exemplos disso não faltam, pois se hoje temos plano de carreira, concurso, obrigação de pagamento do piso salarial (mesmo que não cumprido), se deve ao fato de inúmeros professores e professoras terem deixado esse legado. Às vezes não conseguimos conquistas tal qual nossa esperança desejava, mas podemos ao menos levantar um muro simbólico contra o trator neoliberal que tudo quer devastar e assim, conseguimos barrar algumas destruições.

Por fim, a greve participativa nos convida a olhar as coisas para além do individualismo, tão presente nesse mundo do consumo, em que o indivíduo é posto acima do coletivo. Não significa que não devamos ter prioridades também com nossa saúde, nossos familiares, nossa vida pessoal. É comum em determinadas circunstâncias colocarmos o peso da balança maior na vida privada ou na vida pública e aliás, e fazer esse movimento de reflexão é saudável. Ninguém pede que o grevista tenha a mesma disciplina de militantes tal como foi o Marighella. Mas, a participação mostra força, evita sobrecarregar os companheiros que estão na ativa, permite que olhemos para o conjunto, para o contexto sócio-político, e nos esforcemos em nos doar em alguma proporção para essa história.  

Encerro com a questão da consciência de classe lembrando da primorosa peça de teatro “Eles não usam black tie”, que sob o pano de fundo da greve, mostra a relação conflituosa entre os que aderem ou não ao movimento. No final da peça, de modo bastante metafórico, a música de um sambista do morro é reconhecida no rádio, porém, os moradores identificam que a letra recebe o nome de outro músico. A produção mais valiosa de um artista foi roubada, nomeando outra pessoa no lugar. Trazendo para nossa atualidade, podemos comparar com o que produzimos... nosso trabalho acaba sendo roubado cada vez que desempenhamos zelosamente nossas funções, mas quem ganha o crédito é o governo, o qual nos retira o reconhecimento social e o reconhecimento financeiro. Somos saqueados anualmente, por um valor que deveríamos receber e não recebemos (uma defasagem de mais 50%), e enquanto isso, em contraposição, em 2019 o governo abriu mão de mais de 6 bilhões em impostos para diversas empresas.

Portanto, participar da greve, embora cansativo e extenuante, é um movimento que nos traz compensações de quem vive, participa, interage, aprende. Vale a pena seguir na luta.  

Ana Paula Ferreira - Educadora e grevista

Texto publicado no Jornal da Cidade, 18 de março de 2022 



quinta-feira, 17 de março de 2022

Passado, presente e futuro: sempre greve?


           

Foto: Professora de Arte Andrea Dalva (assembleia em BH 16/06/2022)

            
Onde a greve começa e onde ela termina? Ela termina? Ou termina para depois já começar outra? Como a greve nos atravessa? Ano de 1999. Esse foi meu último ano da Educação Básica e novamente uma greve foi deflagrada em Minas Gerais. Lembro da professora de Língua Portuguesa nos falando em aula com muita propriedade sobre gramática, literatura, vestibular e também da greve. Ela me chamava atenção por dois motivos. Primeiro porque ela tinha um pé calcado no futuro e outro no presente, e assim nos empurrava para que pensássemos na vida do pós Ensino Médio, mas sem que nos distanciássemos da leitura crítica do cotidiano, da luta diária, dos ataques que eram cometidos contra os trabalhadores. O segundo ponto de destaque era porque ela se mostrava uma imensa defensora do espaço público. Ela frisava que fazia questão que seu filho estudasse no ensino público e que ela, docente em duas redes diferentes, buscava trazer o mesmo plano de aula elaborado para escola privada para ser desenvolvido por seus alunos da escola David Campista. Sua prática antecedia o discurso e, portanto, não media esforços para que visitássemos livrarias, teatros, Instituto Moreira Salles, cinema. Ela dizia que os espaços devem ser democratizados e o acesso deve ser para todos.

            Hoje, ano de 2022, também sou educadora na rede pública, também estou em greve e também defendo o espaço público como forma de possibilitar que toda a riqueza simbólica produzida seja distribuída e não concentrada em apenas uma determinada classe social. Sei que muitos professores e professoras progressistas também se engajam nesse sentido, e até evitam a greve para que os estudantes não fiquem dias sem acesso ao conteúdo. Daí que volto na minha experiência escolar. A professora não se furtou de sua obrigação docente, de nos ensinar e nos ajudar na nossa formação linguística, literária, cidadã e de pensar em seus alunos. Por outro lado, também não abandonou seus colegas sozinhos no front da greve, nem se aconchegou no seu lar, enquanto outros iam para as ruas, assembleias ou manifestações.

Findada a greve, podemos traduzir novamente nossa preocupação com os estudantes, repondo com qualidade os dias paralisados, pois que espécie de defensores da escola pública que seríamos se defendêssemos apenas nossos salários, nossos direitos, nossas questões? É possível isso da nossa parte. Podemos continuar pensando no imediato, nos nossos estudantes e todas as suas demandas. Porém, é importante também uma preocupação com o médio e longo prazo, com questões que vão afetar a vida de todos, e, nesse momento, pensar sobre os serviços públicos é inadiável.

            Isso porque esse ano é específico. Por ser ano de eleição, os políticos observam se perdem ou não o poder perante o eleitorado. Portanto, é importante que outras escolas somem na luta, pois vão olhar números: quantos alunos estão sem aula, quantos professores estão em greve, quanto de aprovação se está perdendo. Na hora que o perfil autoritário perde o controle, o que faz? Aciona a força judiciária para suspender a greve e começa a atacar o funcionalismo público, como se o fato de possuirmos a estabilidade, tivéssemos que aceitar metade do que é o piso salarial.   

A educação não pede que o governo faça enormes esforços, até porque temos verba vinculada que é o FUNDEB, um fundo que provê nosso pagamento e que teve um crescimento de quase 40% desde 2019. Contudo, mesmo que a receita tenha aumentado, o governo mantém a política de onerar milhares de servidores da educação, cujo salário não acompanha a inflação. Além disso, foram 6,6 bilhões de recursos da educação que não foram investidos, e enquanto isso, faz 5 anos que os salários estão congelados.

O governador é um patrão temporário. Não temos o salário dele, nem tampouco seu poder político, nem a influência na mídia. Mas, uma hora ele sairá e nós ficaremos. Aliás, talvez por saber dessa condição do funcionalismo público e de nosso potencial de contraponto, que o atual governo esteja pressionando a Assembleia pela aprovação do Regime de Recuperação Fiscal, que nada mais é do que um pacote de ações que nos massacram enquanto trabalhadores. Nesse Regime há previsão de suspender o repasse do piso salarial, não haverá férias-prêmio, nem promoção por escolaridade, nem progressão na carreira por 9 anos. Concursos e salários ficarão congelados. Essa brutal Regime afeta trabalhador público, mas impacta também todos moradores da zona rural ou da zona urbana, que dependem da escola, da saúde ou da segurança pública, pois os cidadãos terão que conviver com uma precarização dos serviços, seja pela falta de servidor público, afinal não haverá concurso e a folha de pagamento ficará contida, ou pelas privatizações previstas que acabam por aumentar o valor dos serviços.

A greve existia na nossa infância, existiu na nossa adolescência e permeia nossa vida adulta. Existe diante da ineficiência do governo em conversar com a categoria. Pode ser que tenhamos a ideia de que elas são eternas, tal como o castigo de Sísifo que empurrava uma grande rocha até o topo de um monte e assim que a pedra caí, o processo se inicia tudo novamente. Mas, não é. Embora sejam cíclicas, não são iguais, nem nos motivos, nem na historicidade e por isso que com elas já avançamos em direitos e em outras, apenas barramos para que a devastação não fosse maior. Daí a importância de aprendermos com essas experiências, porque se defendemos a escola pública, não permitir a aprovação do Regime de Recuperação Fiscal é um dos caminhos urgentes.

Ana Paula Ferreira

Educadora e grevista

Texto publicado no Jornal da Cidade, 17 de março de 2022 e no Jornal da Mantiqueira 18 de março.
https://www.jornalmantiqueira.com.br/2022/03/18/passado-presente-e-futuro-sempre-greve/ 

terça-feira, 8 de março de 2022

Mulher, patriarcado e capitalismo

             


            Desde crianças somos marcados por violências veladas que definem o que podemos ou não fazer, ser, falar de acordo com nossa chegada ao mundo enquanto meninos ou meninas. Se por um lado, o garoto foi incentivado o tempo todo a ocupar o espaço público, seja nas brigas por causa de pipa ou num conflito de futebol de rua, a mulher foi a condicionada ao espaço doméstico: cuidar de bonecas, preparar comidinha. Não é sem razão que muitas profissões aceitáveis para o público feminino são um prolongamento do cuidar e por isso é tão comum a mulher enfermeira ou professora, mas não é visto como natural se são engenheiras ou deputadas.

Aceita-se a impulsividade, a energia, a força masculina em se posicionar, e por outro lado, criamos as meninas inseguras, doceis, amarradas no ideário da felicidade conjugal do “príncipe encantado”. Assim, se tornam vítimas fáceis de relacionamentos abusivos, desencorajadas em retrucar o patrão e consumidoras até mesmo compulsivas do setor de cosméticos e vestuários. Por fim, elas são, nós somos, segundo sexo (tomando por base o título do livro de Beauvoir) de três palavras no masculino: do marido ou pai, (na figura de esposas ou filhas), do mercado de trabalho (na posição de trabalhadoras e/ou consumidoras) e do Estado (no papel subalterno de cidadãs).

Essa opressão sentida em termos simbólicos ou físicos é o que marca a violência de gênero, o que é chamado por algumas feministas por “patriarcado”, ou seja, uma nítida demarcação de poder do homem na sociedade em relação a mulher, um problema de ordem estrutural, pois está na política, nas relações trabalhistas, na cultura e na nossa subjetividade.

            Contudo, embora tenhamos o patriarcado a séculos, ele não é igual em todas as épocas nem em todos lugares. Cito dois países para evidenciar de como a economia interfere na relação de gênero: Estados Unidos e Cuba. No caso do primeiro, as mulheres não contam com a salário maternidade, creches públicas são quase inexistentes e a porcentagem de mulheres no Congresso é menos que 30%. Em contrapartida, no país de economia socialista, a presença feminina em cargos políticos na Assembleia é mais de 50%, as creches são públicas, 100% das crianças são atendidas, liberando as mães para o trabalho. Além disso, a licença maternidade é de 4 meses e até que a criança complete um ano de idade há o benefício social que é pago para que algum tutor (mãe, pai ou avó) cuide da criança. O estudo técnico de Cláudia Virgínia Brito de Melo mostra alguns desses dados.

Por que a diferença? Porque de acordo com a linha neoliberal, o Estado deve intervir o mínimo possível, de modo que as empresas e os indivíduos possam operar por si só. A retórica é de democracia, mas a evidência na concretude e nas porcentagens é que a vida digna é apenas para usufruto de algumas. Uma ilustração disso é pensarmos nas inúmeras mulheres invisibilizadas vendendo de porta em porta os produtos de revistas de cosméticos em troca de um percentual ínfimo e sem nenhuma garantia trabalhista, enquanto poucas, na maioria das vezes brancas, são colocadas nas capas, como símbolo do poder, numa lógica de evidenciar o sucesso individual.

No Brasil além do patriarcado e do capitalismo, ambas estruturas que condicionam a mulher em papel subalterno, temos também outro fator: a questão de nosso subdesenvolvimento econômico, que empurra as mulheres pobres para serviços precarizados, de baixa remuneração e nem sempre com direitos trabalhistas garantidos. Assim a mulher é duplamente explorada, haja vista que sofre exploração por ser trabalhadora e por ser mulher, lembrando que seu salário é geralmente inferior ao do homem, mesmo realizando as mesmas funções. Somada a essa desigualdade econômica, a violência doméstica no Brasil mata mais que câncer e acidente de trânsito. Quando se destaca não apenas a condição de gênero, mas também a questão étnica, tem-se um dado ainda mais perverso contra a mulher negra, que representa 74% da violência de gênero no Brasil.

É importante percebermos que não diminuímos a violência simplesmente com leis mais enérgicas. É necessário que cidadãs usufruam de direitos políticos, econômicos e sociais. Já é comprovado na Sociologia que quanto mais investimento social, menos violência se tem, e por isso, que um feminismo branco, liberal, que apenas nos fale “Você pode ser o que quiser”, é um feminismo falso, ardiloso, porque deixa apenas a cargo do indivíduo um problema que é social, e assim, nada muda a situação de incontáveis mulheres que estão abaixo da linha da miséria, que são objetificadas pela sociedade como propriedade do marido, do mercado ou do Estado.  

Enquanto não conseguimos a superação de um modelo econômico de sociedade no qual o ser humano deixe de explorar o trabalho alheio, enquanto não superamos a abismal desigualdade entre homens e mulheres, é necessário um feminismo visionário transformador, tal como nos fala bell hooks, ou seja, aquele que não se coaduna nem com o capitalismo nem com o patriarcado, que fortalece as trincheiras na consolidação de políticas públicas e que não abandona as mulheres a própria sorte.

Ana Paula Ferreira

Texto publicado no Jornal Mantiqueira 08/03/2022
https://www.jornalmantiqueira.com.br/2022/03/07/mulher-violencia-e-economia/ 


quarta-feira, 5 de janeiro de 2022

Ano novo: educação nova?

          


            Quando se fala em “novo” se remete a algo que não aconteceu ainda, que está sendo gestado, algo inédito, surpreendente e em se tratando de educação, alguns podem imaginar uma educação focada no ensino de língua inglesa, no empreendedorismo na escola, no uso de tecnologias. Muitos acreditam, pautados em discursos de Banco Mundial ou de acionistas, que isso já traria uma inclusão dentro de um mundo capitalista, uma vez que a pessoa teria mais oportunidade de emprego ou montar seu próprio negócio e assim ter uma vida mais confortável.

Porém, se quem gera emprego não é a escola, é a economia, precisamos nos perguntar qual é o mercado no qual o Brasil se situa. Enquanto compramos produtos de preços mais elevados tais como medicamentos, inseticidas, automóveis e produtos manufaturados, somos um imenso celeiro mundial que vende laranja, soja, café, carne, cana-de-açúcar e minérios. O que isso significa? Que há mais possibilidade de empregos nas mineradoras, no campo ou em indústrias que processam os alimentos.

Infelizmente sabe-se que a realidade não é essa. Na ausência de uma Reforma Agrária, tem-se 73% da área agrícola ocupada apenas por 10% de grandes imóveis rurais (Castro e Moreira, 2021), cujas áreas muitas são improdutivas ou mecanizadas ao ponto de dispensar a maior parte da mão-de-obra, empurrando os antigos camponeses para os centros urbanos, que somam nas casas improvisadas, nos subempregos, na violência urbana, no número de pessoas desempregadas.

Então, os mais entusiastas por uma educação empreendedora podem considerar que se os estudantes tivessem orientação relacionada aos negócios, poderiam futuramente ser bem sucedidos nos seus empreendimentos. Isso não é realidade. Na escola em que trabalho, uma professora de Matemática desenvolveu um projeto com os alunos para que elaborassem o passo a passo de abertura e acompanhamento de uma pequena empresa, observando capital, entrada, saída, custos, etc. Uma aluna que na época fazia brigadeiros, participou do projeto e mais tarde, junto com as irmãs, montaram sua própria lanchonete. O que aconteceu? Com a alta do preço dos alimentos, se elas repassassem esse valor para os clientes, perdiam a venda, se não passassem, não conseguiam pagar o aluguel. Consequência: fecharam o estabelecimento. Não foi falta de vontade, não foi falta de trabalho, não foi ausência de entendimento de mercado, mas sim, porque esse formato de mercado é para poucos, e bem poucos.

Trata-se de uma realidade cruel encontrada no capitalismo financeiro, haja vista que não há fronteiras para o lucro e as imposições políticas, tarifárias, judiciais ou de fiscalizações são cada vez mais difíceis de ser concretizadas. Exemplifico. Em 2018, a rede Walmart, que é a maior empregadora de comércio no mundo, superava em mais de um milhão a empresa Amazon. Por outro lado, é a Amazon quem mais tem lucros no varejo e juntamente a outras empresas que atuam no ramo digital, são as que pagam menos impostos (Silvia Ribeiro, 2021).

Aliás, isenção de imposto é própria das grandes corporações. A Vale do Rio Doce, que foi privatizada na época FHC, tem isenção de uma média de 1 bilhão de reais por ano (Brasil de Fato, 2019). Daí temos o triste cenário: não há emprego no campo, tampouco há emprego na cidade e junto a isso, o Estado brasileiro, numa aliança política com o grande capital, arrecada menos impostos desse grupo e, portanto, não consegue injetar dinheiro em obras ou políticas públicas para geração de empregos ou de renda.

Portanto, não é a educação a propulsora direta por uma economia mais inclusiva. Entretanto, de uma forma geral, o discurso recorrente é que se houver disciplinas tais como “Projeto de Vida” ou conteúdos de Matemática financeira, ou se a gestão escolar souber usar seus recursos, os estudantes já teriam condições de vida digna no capitalismo. Então voltemos ao título. Seria possível uma educação nova se problemas velhos não forem superados?

Listo três pontos para pensarmos nesses gargalos. O primeiro seria uma defesa substancial da escola pública. Isso requer revogar a PEC 55/2016 que controla os gastos públicos, significa uma política ousada que ao invés de privilegiar a iniciativa privada, invista pesadamente na esfera pública, pois em relação ao disposto no Plano Nacional da Educação, menos de 1% das escolas se encaixam no padrão de qualidade ali previsto (Daniel Cara, 2019).

Segundo: uma educação que se faça contra a exclusão deve se posicionar frente aos problemas sociais, políticos e econômicos. Não há neutralidade, nem nunca houve. Aliás, o que houve historicamente é a ideologia burguesa que inculcou valores de meritocracia, de naturalização da desigualdade, da individualização da responsabilidade. Uma educação que se pretenda contra a exclusão, deve questionar esse sistema que não gera empregos e culpabiliza os sujeitos pela situação de fome ou de pobreza.

Daí entramos no terceiro ponto: a escola sozinha não conseguirá reverter anos de desigualdade perversa e o que mais precisamos não é de um Projeto de Vida, mas de um “Projeto de Sociedade”. Pretendemos que haja empregos, direitos trabalhistas, distribuição da riqueza, mais impostos sobre grandes fortunas ou projetamos uma sociedade que obedeça a lei da selva em que comprar osso ao invés de carne é tratado como se fosse algo natural? É urgente que a sociedade pense sobre isso, pois caso contrário, terminaremos mais um ano e os problemas continuarão os mesmos.

 

Ana Paula Ferreira

                                                                                                                 Pedagoga e Mestra em Educação

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Ensinar: a sociedade está preparada a fazer?

           

Figura do vídeo "Zumbis ao celular

          Começo esse texto pensando quando tive contato com o livro “Notícias de lugar nenhum”, pois uma das coisas que marca essa obra literária é a compreensão do trabalho.  Ele não seria marcado pela exaustão, exploração ou alienação. O sujeito poderia exercer atividade de pesca durante a manhã, marceneiro a tarde e escrever resenhas de livros ao entardecer. Não haveria a divisão entre o trabalho braçal e o intelectual, pois as pessoas, movidas pelo interesse em aprender, poderiam desenvolver durante a vida vários ofícios e ninguém ganharia lucro pelo trabalho alheio. Essa seria a sociedade ideal.

Na sociedade real, onde estamos com os pés fincados, a situação infelizmente é outra. A divisão do trabalho começa na classe social e quem é filho de trabalhador aprenderá desde cedo alguma ocupação, nem que isso signifique ter menos tempo para o estudo. Ora, as oportunidades para galgar profissões financeiramente mais valorizadas não são promissoras a grande maioria da população, e, portanto, é muito mais comum que a camada popular continue a desempenhar um trabalho de força bruta.

Qual o problema dessa divisão do trabalho? Um deles é que o ser humano não atinge seu potencial enquanto sujeito, e características que nos diferenciam dos outros animais, tal como o ato de criar, de ter uma linguagem, de refletir e até mesmo de ensinar são parcamente desenvolvidas.

Sim. Nós todos temos a capacidade de transmitir algo, seja uma receita culinária, um passo de dança ou qualquer coisa da qual saibamos. Fazemos isso porque somos seres de linguagem e simbólicos, o que torna possível pensarmos num passado, refletirmos em relação a um presente e projetarmos um futuro. Mas, a pergunta é: será que na sociedade em que vivemos todos conseguem ensinar? Se sim, com qual custo?

Antes de responder a primeira pergunta, cabe pensarmos que sociedade é essa. De acordo com o pensador polonês Bauman, estamos inseridos numa sociedade do consumo, no qual as relações humanas se tornam líquidas, diante de um excesso de individualismo que corrompe os laços comunitários. Não apenas produtos são publicizados, como também as próprias pessoas buscam por holofotes. É como se estivéssemos num reality show no qual os aplausos são os likes, as curtidas e os compartilhamentos, pois o nosso vazio se preenche em sermos vistos, e nessa ânsia em pertencer a sociedade do espetáculo, perde-se a noção qual é o limite entre privado e o público, o objeto e a pessoa.

As consequências são trágicas. Cidadão é transformado em consumidor e discursos do tipo “Eu pago seu salário” para funcionários públicos são cada vez mais comuns, enfatizando um tratamento no qual direito social vira produto. Ao invés da conversa, é a filmagem e exposição do outro, hostilizado como inimigo; ao invés de se ouvir o que a pessoa tem a dizer é frase de efeito, rápida e cortante. Não se tem a intenção de perceber o outro: os olhos estão vidrados na tela do celular e tal como Narciso que se afunda na miragem do seu próprio eu, da sua própria verdade, o que o outro tem a falar não importa, o que importa é ridicularização pública, o extermínio simbólico do sujeito.

Portanto, por mais que seres humanos tenham a capacidade de ensinar uns aos outros, nesse modelo social em que vivemos, ao tentarem por via de uma comunicação intimidatória, não exercem a capacidade de ensinar de maneira responsável e respeitosa. Quem se propõe a ensinar, a corrigir, a criticar, deve ter como foco a mudança do que foi percebido como inadequado e, portanto, não se trata da aniquilação do sujeito, mas a mudança do ato em si. Caso contrário, voltaríamos no modelo social dos castigos e as humilhações serem tratados como algo normal.  

Um dos objetivos de se ensinar é para a construção de um processo civilizatório, que se distancie da barbárie. Lamentavelmente a barbárie não é mera ilustração de livros de história dos campos de concentração da II Guerra Mundial ou as celas do DOI-CODI na época da ditadura. A barbárie está em toda ação violenta que objetifica os seres humanos, quando são tratados como coisas que devem ser banidas da terra.

Se a intenção é retirar uma palavra de um muro e a palavra foi retirada, se a explicação foi dada, qual é o objetivo de se expor, xingar, ou tratar com ironia e desprezo? É o discurso de ódio, daqueles que querem existir apenas na destruição do outro. Paulo Freire já dizia que amor é um ato de coragem. Lendo Fromm que fui entender. Amor não é algo gratuito, não é espontâneo. Exige paciência, exercício contínuo para não tomar a via fácil do rancor, do ódio.

Eu quero acreditar que é possível a utopia de uma sociedade que todos tenham vida digna e trabalhem por prazer. Quero acreditar que outra humanidade, mais empática é possível. Quero ter esperanças que as pessoas possam falar o que as incomodam sem ter que destruir o outro. Hoje não está fácil crer nisso. Mas, amanhã é outro dia.

Ana Paula Ferreira

Educadora     

terça-feira, 2 de novembro de 2021

Triste, louca ou má: o que é ser mulher

           O que é ser mulher? O conceito parece fácil de definir, mas não é. Ao longo dos séculos foi associada a arquétipos de Maria Madalena ou Maria mãe de Jesus, a pecadora ou santa, a bruxa a ser executada em fogueira ou a esposa cativa. Essa polaridade não dá conta das nuances, das mulheres de carne e osso, das singularidades, das lutas e resistências.

Em meados do século XX, a filósofa Simone Beauvoir já descrevia que não se nasce mulher, se torna mulher, mostrando que não é a questão de nosso sexo biológico que nos define, mas todos os aspectos culturais, políticos, econômicos que incidem sobre o corpo feminino, estabelecendo padrões de comportamento, perspectivas, linguagens.

É importante conceituar o que é mulher? Em termos de políticas públicas sim. Afinal, somos a maioria da população brasileira, mas a minoria nos espaços decisórios; somos a imagem do trabalho precarizado nos serviços domésticos e tantos outros, mas a minoria nos cargos de liderança; somos a filha, a mãe, a avó, que cuida da família, quando os homens abandonaram os filhos, ou os próprios pais; e infelizmente fazemos parte das estatísticas que colocam o Brasil na 5ª posição vergonhosa de feminicídio. Embora em países de economia periférica a situação de vulnerabilidade da mulher se torne mais desigual em relação ao homem, a mulher no mundo é figura de segundo plano e por isso compõe as minorias sociais. Não é sem razão que Simone Beauvoir nomeia seu livro “Segundo Sexo” para tratar sobre a situação feminina.

Uma vez uma colega me perguntou se realmente era importante continuar tocando no assunto do feminismo, afinal hoje em dia as mulheres podem votar, dirigir, fazer faculdade e tantas outras conquistas. Contudo, a pergunta é: qual grupo feminino tem essa possibilidade? Temos a liberdade de dirigir, mas em termos concretos da realidade crua, somos as que engrossam as filas nos transportes coletivos; temos o direito previsto em Constituição do voto, mas ainda há milhões que não exercem esse direito de forma plena, guiando a opinião política com base na do pai ou do marido; somos o grupo com mais Ensino Superior que homens, porém, também compomos os números que mais sofrem com as crises econômicas.

Feminismo não perde a atualidade enquanto houver patriarcado e capitalismo. Isso porque o que faz o capitalismo para continuar operando? Divide a sociedade entre ricos e pobres, brancos e negros, homens e mulheres e tantas outras divisões para que todos os explorados não se articulem, não se unam para a quebra desse sistema perverso de desigualdades e opressões. Atribui-se privilégios a um determinado grupo e esse se sentirá como um pequeno rei com seus súditos, diminuindo as possibilidades de solidariedade entre os oprimidos sociais.

As estatísticas mostram que isso não é mimimi. Em tempos de pandemia, a mulher foi um dos grupos mais atingidos socialmente, seja pelo número de desemprego, onde a taxa de ocupação em 2019 da mulher era de 46,2% e caiu para 39,7% em 2020 (IPEA, 2021). No campo da saúde, as mulheres são 70% dos cargos, mas ganham menos que os homens (CNN, 2021). No que diz respeito aos estudos, esse também ficou comprometido uma vez que inúmeras mulheres jovens abandonaram a escola para cuidar dos familiares. Qual impacto disso? Quanto mais distante da escolaridade, mais se cria possibilidades para casamentos precoces, gravidez na adolescência e autonomia financeira limitada.  

O abismo de desigualdades em relação a mulher aumenta somado a vários outros fatores que não podem ser desconsiderados. É o que a socióloga Saffioti chama de nó entre classe, etnia e gênero. Sobre esse, não se pode deixar de refletir a exclusão social da mulher trans, aquela que nasce com a genitália masculina, mas se identifica como mulher. Raramente conseguem empregos de cargos com visibilidade social e não é incomum xingamentos, linchamentos, violências, haja vista que o Brasil também lidera o cruel ranking de mortes a esse grupo populacional (CNN, 2021).

Se há violência, o que era de se esperar das políticas públicas é que houvesse leis com propostas de diminuição da violência. Pensando sobre essa realidade, em Minas Gerais o deputado André Quintão (PT) propôs multas a estabelecimentos que se dirigissem com preconceitos em relação a orientação sexual ou identidade de gênero.  Contudo, isso gerou uma aversão de políticos alinhados a alguma ala religiosa e na cidade de Poços de Caldas, isso não foi diferente. Um vereador chegou a se pronunciar dizendo que a questão de gênero era mais perigosa que o nazismo, mostrando o quanto precisamos avançar em conceitos, em discussões sociológicas e históricas profundas para que representantes políticos entendam que seus cargos legislativos ou executivos não são para advogar a favor de suas igrejas, mas sim, como representantes de toda população, inclusive aquela que não querem enxergar, que fazem questão de não ver.

É importante a luta e já dizia a música que “Só mesmo, rejeita, bem conhecida receita, quem não com dores, aceita que tudo deve mudar”. E para isso, que nós mulheres, independente de cis ou trans, negras ou brancas, saibamos que a luta não se faz na divisão, mas na união, pois enquanto houver patriarcado e capitalismo, há muita desigualdade para se quebrar e há muito a que se construir sobre sororidade e justiça social.

 

Ana Paula Ferreira

Militante do Coletivo Feminista

 Mulheres pela Democracia




Imagem: https://www.blogs.unicamp.br/pemcie/2018/03/15/mulher-um-ato-politico/

domingo, 26 de setembro de 2021

Sintomas de saudade

 


“Tem dias que a gente se sente, Como quem partiu ou morreu” já dizia Chico Buarque na música Roda Viva. Há coisas que nos ocorrem que perdemos o chão. Vamos caindo, caindo, caindo, que nem a Alice quando ela entra na árvore e se surpreende com um enorme buraco. Aliás, esse buraco não se faz apenas onde pisamos, mas também numa pontada no peito que parece que estão fazendo uma cirurgia e arrancando algo que estava lá. Entretanto, não arrancam. Abre-se um buraco, e nas suas paredes ficam armazenadas as fotos, filmes, lembranças, e a cada vez que há o interesse em olhar para essas memórias, o buraco se abre para nos mostrar que tudo está ali e minha vó estava ali.

            Minha vó faleceu no dia 03 desse mês. Na hora que eu soube da notícia, busquei um pano para secar as lágrimas e para minha surpresa, estava por cima de todos os outros um pano de prato que ela tinha bordado flores. É como se ela estivesse por ali dizendo, “eu não morri, estou aqui, nesse pano e em tantas outras coisas”.

Eu não pude deixar de lembrar de um texto do Leonardo Boff que li na minha época de aluna de colégio religioso. O texto era sobre um toco de cigarro que virou um sacramento, pois não era apenas um objeto em si, mas uma ponte que levava à figura do pai falecido. E, isso era o pano de prato... deixou de ser coisa, para resgatar a memória de uma velhinha que com seus 82 anos cuidava da casa, do marido, do filho, fazia sabão caseiro e adorava receber a família com alguma quitanda.

Aquele pano simbolizava bem minha vó. Primeiro porque realmente ela ajudava a gente a enxugar as lágrimas, pois em qualquer fase de nossas vidas foi presente. Estava em todo crescimento dos netos, puxando a orelha, dando sermão, preparando almoço dia de domingo. Aniversário nunca esquecia nenhum. Participava das formaturas, foi uma das primeiras pessoas a me visitar quando decidi morar sozinha e assim que minha filha Isabela nasceu lá estava ela. O pano também tem a característica de ser forte e isso ela foi e muito. Trabalhou como empregada doméstica, cuidadora de idosos, vendedora autônoma de semijoias, e mesmo aposentada, nunca parava, e parecia que seu mundo interior se preenchia no movimento. Apesar de forte, não deixou de ser encantadora. Lembro inclusive de passear com minha vó e as pessoas elogiarem seu jeito calmo, educado, manso de se comunicar. Essa forma de dizer com simpatia as palavras era a mesma ternura que fez as flores do meu pano, formando desenhos na união de uma linha com a outra. Contudo, não conseguiu fazer essa junção das pessoas. Cada pequeno grupo a visitava em dias diferentes. Mas, estavam ali porque ela sabia amar de forma incondicional. Não julgava, acolhia. Por outro lado, para essa escolha, aguentava muita coisa quieta, resignada, calada.

A morte nos leva um ente querido e nos deixa um silêncio. Nos desenhos japoneses há muito a presença dessa pausa, que chamam de “Ma”, que é simbolizado por um portal na onde o sol entra. E é bem isso... no luto somos forçados a esse encontro com um vazio e com a luz. É um processo doloroso, mas de grande possibilidade de crescimento, pois à medida que se vive a dor da morte, se pensa sobre a vida e sobre quem ficou; pensa-se no que deve morrer em nós mesmos e o que deve sobreviver; o que precisamos matar no nosso interior e o que é importante cultivar. A morte e vida se entremeiam num tecido único, estão juntas e não tem como uma ficar sem a outra.

Por coincidência eu lia na época “Mulheres que correm com os lobos” e numa parte a autora conta que teve um sonho no qual ficava por cima dos ombros de uma outra mulher. Ao perceber que se tratava de uma senhora, falou que por ter mais força, a senhora que deveria se apoiar em seu ombro. Nisso a senhora, fala que assim é a vida, e por fim é possível ver que a idosa também se sustentava sobre os ombros de um monte de outras mulheres.

Há belezas demais deixadas pelos os que nos precederam, e forma-se uma verdadeira árvore humana na qual fazemos parte. Diante desse olhar sobre o que veio antes de nós, há um movimento de espelho, onde enxergamos certos pontos de aliança entre o que somos e nossos antepassados. Esquecer quem é nossa família, ou homens ou mulheres que nos marcaram é nos abandonarmos num abismo, sem raízes que nos sustentam. É comum ficar sem chão em momentos de tristeza, mas a terra firme aparece quando conhecemos quem somos e diante da vivência do “Ma”, sob panos de prato, a gente cria e recria, numa busca de sentido na continuidade dessa árvore, com base em memórias e símbolos que elaboramos. Por isso, Maria Juvercina Soares: presente!

 

 

Ana Paula Ferreira
Educadora
membro do Coletivo Feminista 
Mulheres Pela Democracia


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Centenário do nascimento de Paulo Freire

          


             Dia 19 de setembro o grande mestre brasileiro em educação completaria 100 anos. É uma alegria revisitar seus textos, porque dá a impressão que sempre há algo escondidinho entre uma linha e outra e que passa desapercebido numa primeira leitura. Aliás, se há um termo muito usual na obra de Freire é “leitura”, que além de juntar letras e compreender um texto, seria um movimento de ação e reflexão, no qual vão se juntando pistas econômicas, culturais, sociais e políticas, para se ler o mundo, objetivando-se intervenções compromissadas com a mudança para uma sociedade mais justa.

Sociedade justa, de acordo com esse educador, seria quando superássemos as opressões de classe social, de dominação do homem sobre a mulher, do branco sobre o negro e todas as diversas formas que subtraem, que oprimem uns aos outros. A caridade é necessária para suprir a fome, os desassistidos, mas “A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, estas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica (Freire, 1987).

E como fazemos isso? Paulo Freire indica alguns caminhos. Um deles é entender que o ser humano deva ser sujeito e não assujeitado, pois se há uma prescrição do que deva ser feito para apenas o outro cumprir, continua-se a cisão na sociedade tão comum e tão reforçada de que alguns devam pensar e outros apenas obedecer. Justamente por acreditar na capacidade de pensar e agir, em relação pautada na horizontalidade, no respeito ao senso comum como ponto de partida, que Paulo Freire frisava que o ato educativo deva ser em comunhão.

O contrário disso seria uma educação que objetifica o estudante, que reforça a desigualdade, formando subcidadãos apáticos em relação a política; inseguros e acríticos em relação aos patrões; mulheres ou homens cujos corpos e mentes foram docilizados. Nos dicionários que essas pessoas levam consigo, palavras como “liberdade”, “emancipação” e “resistência” estariam apagadas.

A propósito, apagar e escrever são duas faces da mesma moeda. Enquanto a história dos oprimidos é apagada dos livros, monumentos, mídia e da escola, a história dos opressores é contada tão fortemente que repetimos em práticas coloniais sem perceber. Quando não se apaga a história de resistência e de luta de um determinado grupo social, ocorre também de seus feitos serem dissolvidos numa outra narrativa, onde o “quem” e o “como” perdem espaço para que a ideologia de exploração do grupo dominante impere.

Em se tratando da educação não são raros o apagamento, o silenciamento e a opressão quanto mais vulnerável for o grupo atendido. Isso pode ser ilustrado quando se ignora os estudantes que possuem dificuldade de ensino ou no tratamento excludente direcionado a alunos da classe popular. No campo da gestão o discurso do opressor se manifesta quando diretores tendem naturalizar a sobrecarga abusiva de trabalho ou supervisores que vivem estritamente em prol da burocracia de ensino. Inclusive, na própria educação há áreas com mais valorização do que outras, reforçando assimetrias.

A EJA foi e talvez seja ainda a filha bastarda da educação até porque dar visibilidade a ela é evidenciar o lado cruel do ensino regular que transfere alunos de baixo aproveitamento para EJA, um problema estrutural de séculos de uma educação sem substancial investimento e sem condições para lidar com a inclusão de todos. Não é sem razão que há inúmeros escritos de Freire mostrando sua preocupação com a EJA.

Sua pedagogia não é clientelista, não se faz no assistencialismo, nem tampouco abandona o estudante a própria sorte sob o discurso do “sempre evadiram, então sempre será assim”. Compreende que o currículo é vasto e é papel do educador selecionar conteúdos indispensáveis para uma leitura mais atenda da realidade, sob um processo dialógico entre o pensar e o fazer, o micro e o macro, o local e o global, educandos e professores.

100 anos de Paulo Freire nos mostram o quanto ele é atual em época de protofascismo e de ultraconservadorismo religioso que impossibilitam esse diálogo tão valoroso que ele defendia. Enquanto houver desigualdade haverá necessidade de se falar desse educador pernambucano que nos aponta alguns caminhos para uma libertação em comunhão. Por isso, Paulo Freire: presente!

 

Referência:

FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 17ª ed., 1987.

 

Ana Paula Ferreira


segunda-feira, 19 de julho de 2021

Austeridade: a quem interessa?

            


            Quando os liberais falam de economia em períodos de crises é muito comum usarem o termo austeridade. E o que de fato ela representa? Ela está vinculada com a ideia de retidão, de prudência, bom senso, disciplina, fazer sacrifícios com vistas a desfrutar disso mais tarde. É o que tentam introjetar nas pessoas desde a mais tenra idade através principalmente da fábula “A formiga e a cigarra”, ilustrando que quanto mais indisciplinados, mais correremos o risco de passarmos pelo frio ou pela fome. Não que não haja certa sabedoria na fábula, mas ela evidencia como se estivéssemos sujeitos apenas a nossas decisões, o que não é verdade.

         Para falarem de austeridade com os adultos a linguagem é outra. Comparam o orçamento doméstico com o orçamento público e dizem que assim como a família não pode gastar mais do que arrecada, o “bom” gestor também não pode ter esse comportamento desviante.

     Entretanto, essa comparação é infundada por três motivos. Primeiro porque o governo tem a capacidade de estabelecer o aumento de seu orçamento e assim, escolher entre tributar os mais ricos ou taxar os mais pobres. Já a maioria das famílias não possuí a liberdade de vender a força de trabalho, mas sim a necessidade e, portanto, dificilmente há negociação do salário, e sim aceitação.

         O segundo motivo é que quando o governo acelera o crescimento econômico com programas sociais ou políticas de incentivo isso retorna na forma de impostos e, portanto, há um aumento de receita. Com as famílias já acontece o contrário. Se gastarem com supermercado ou no pagamento de suas contas, esse valor não lhes voltará.

         E a terceira razão que evidencia o equívoco dessa comparação é porque as famílias quando contraem dívidas junto às financeiras, elas não definem as taxas de juros, e aliás, elas também não emitem moeda, diferente do governo federal que possuí essa flexibilidade.

             Assim sendo, a austeridade não provoca o crescimento de uma nação. Pelo contrário. Se há o corte de gastos públicos, haverá menos retorno e consequentemente menos receita para novos investimentos. Qual é o interesse na sua aprovação se não há benesses para a maioria da população? Trata-se de uma escolha política para coroar os mais ricos, afinal ao gerar o desemprego, haverá menos pressões trabalhistas e consequentemente achatamento salarial seguido de aumento da desigualdade de renda. Além disso, a diminuição de gastos com educação, saúde e várias outras pastas, abre espaço para setores corporativos da sociedade. Deixo como exemplo o faturamento do grupo Unimed que fechou 2020 com o maior lucro desde 1998.

         E no nosso cenário municipal? Como que o governo Sérgio tem conduzido a economia? Tomando como referência uma análise feita pelo professor Tiago Mafra na audiência pública sobre o Plano Plurianual de Poços de Caldas, é possível perceber uma retração dos investimentos em diversas áreas. Na educação o plano prevê a redução de mais de 50% em setores tais como Programa Municipal da Juventude, que atende crianças e adolescentes em período complementar a escola, serviço normalmente utilizado por pais e mães trabalhadores. Na saúde estabelecem um corte de mais de 10  milhões em Programa de Vigilância em Saúde e na pasta de Esporte o corte estimado é de 14 milhões, o que impactará diretamente programas de incentivo à prática desportiva. Investimento em moradia popular praticamente é citado no Plano de forma insignificante, mesmo num momento de crise econômica que inúmeras famílias passam por enormes dificuldades em pagar o aluguel.

        Em linhas gerais é isso que é a austeridade: impacta os mais vulneráveis e os pequenos empresários, afasta o poder público de suas responsabilidades com a maioria dos cidadãos e no final, não gera a receita que é tão divulgada. Aliás, gera sim, mas apenas para uma elite econômica que discursará a plenos pulmões a favor da austeridade do outro.


Ana Paula Ferreira