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domingo, 30 de abril de 2023

O Novo Ensino Médio: é preciso fechar a torneira

 



Tem um livro que gosto muito que é o “Conto da Aia”. Trata-se de uma distopia na qual poucas mulheres conseguem gerar um filho e são transformadas em propriedade de famílias ricas para perpetuarem o patrimônio, mediante os herdeiros. O livro é narrado em primeira pessoa e quando a protagonista buscas pistas sobre como tudo começou, se dá conta que as mudanças nunca são instantâneas, é como uma banheira com água quente, que é possível levar a morte, caso o aquecimento seja gradual. 

Assim foi com o que chamamos de “Novo Ensino Médio”, que já está sendo gestado há algum tempo sem que nos déssemos conta, pois independente de assumir-se como propedêutico ou ensino profissional, há o que Tomaz Tadeu da Silva chama de currículo oculto, ou melhor, o que a escola não deixa escancarado, mas ensina através de seus discursos, posturas, comportamentos. Ora, sendo a hegemonia cultural organizada pelos ditames neoliberais, muitas vezes, se contribuí com essa ideologia, sem perceber.

Isso ocorre com o que vou chamar de pedagogia da conformação e pedagogia da desinformação. No primeiro caso, há um conjunto de ações na educação, nas quais o sujeito se mostra resignado, aceita a situação e até mesmo naturaliza. Exemplos não faltam. Ao invés da universidade pública tomar a frente na formação docente continuada, fundações e empresas passam a cumprir esse papel, mas nem é feita a pergunta sobre o quanto do cofre público foi destinado a isso. Embora haja uma lei de 2008 sobre o piso salarial, há caso de governantes que além de não cumprirem, recorrem à justiça para não pagar e enquanto isso, milhares de educadores ficam quietos. Iniciativas de privatizar a gestão de escolas estaduais começam a acontecer, mas como não é na unidade na qual se trabalha, não há o incômodo. Todo esse nosso apagamento enquanto cidadãos, esse silenciamento de nossas vozes é ensinado aos alunos, que nos observam e vão aprendendo a não se rebelar perante as injustiças.

Na complementação dessa inércia está a pedagogia da desinformação, que mostra um desprezo pelo saber e uma ênfase apenas em caráter prático, de modo acrítico, com vistas à adaptação e por isso, são comuns falas no âmbito educacional de não é necessário ensinar determinado conteúdo, pois os alunos nunca vão usar isso na vida. Uma das consequências é o avanço do negacionismo, sob defesas absurdas, tais como “A Terra é plana”, “o Brasil foi melhor durante a ditadura” ou o “aquecimento global foi inventado pela mídia”. Um risco que pode ocorrer nessa ênfase utilitarista é que ao invés de haver uma sequência didática na qual o conteúdo seja apresentado gradativamente de modo a construir habilidades cada vez mais complexas, as aulas viram noticiários de TV e num dia fala-se de meio ambiente, no outro de sexualidade, e no dia seguinte sobre violência no trânsito, mas nada com profundidade, tudo raso, sem conexão, e nessa poluição o que é importante de fato se perdeu no meio de tanto outros assuntos. É como se no excesso de informação, gerasse uma cegueira branca, pois não é a ausência de luminosidade, mas justamente luz em grandes proporções, semelhante ao que é vivenciado pelas personagens de Saramago no livro “Ensaio sobre a cegueira”, pois embora fosse uma sociedade urbana, que utilizasse tecnologias modernas, as pessoas perderam a capacidade de enxergar, de se perceber, de se humanizar.

Novamente aqui o Novo Ensino Médio se encaixa, pois na nova configuração curricular há um excesso de componentes curriculares, alguns inclusive de existência questionáveis, tais como “bolo de pote” ou “como se tornar um milionário”, enquanto disciplinas científicas perdem carga horária. Quais as consequências? Temos quatro principais: 1) maior distância entre o ensino da rede privada e o da rede pública, lembrando das diversas demandas estruturais da escola pública; 2) flexibilização trabalhista, pois o professor passa a lecionar em diversos componentes pedagógicos que não estão alinhados a sua graduação; 3) alterações pedagógicas na elaboração de livros, formação docente e ENEM ; 4) e construção do indivíduo neoliberal.

Nesse ponto, tanto a pedagogia conformista, que dá sequência na aula como se nada acontecesse em termos de desmonte de direitos sociais, quanto a pedagogia da desinformação, que trata o saber como algo dispensável, estão mostrando de maneira muitas vezes oculta a apatia pela coisa pública, a despreocupação com o futuro da sociedade, o individualismo em se furtar da defesa sistemática da escola pública, laica e de qualidade, permitindo que as empresas avancem sobre esse espaço cada vez mais.

Se não queremos nem a conformação, nem a desinformação, se o nosso objetivo é a transformação da sociedade com mais justiça social, na garantia de um Estado cumpridor de seu papel de concretizar direitos civis, políticos e sociais, é hora de fechar a torneira da água quente que está nos queimando aos poucos.

Esse controle de impedir a saída de água em alta temperatura é essencial. É a pausa necessária, é o fôlego fundamental para que a sociedade civil organizada se posicione e amadureça propostas sobre essa importante etapa da Educação Básica. Ao invés da arbitrariedade da medida provisória que rege o Novo Ensino Médio, é imprescindível uma consulta popular ampliada, buscando tornar o Ensino Superior acessível a alunos da classe popular e contribuindo na formação de sujeitos compromissados com o mundo. 

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual


Texto publicado no Jornal da Cidade 03/05/2023

sexta-feira, 14 de abril de 2023

Precisamos falar sobre o Kevin: quem é Kevin?

 

Imagem retirada do site racismoambiental.net.br 

        “Precisamos falar sobre Kevin” é o nome de um filme que trata sobre um jovem com perfil de perversão. Sem empatia, nem demonstração de carinho ou de sentimento de culpa, Kevin manipula, mente, manifesta prazer na dor alheia. Ele planeja um massacre e declara que uma das intenções era receber o holofote da fama, uma vez que sabe que um número expressivo de pessoas consome audiências sangrentas e sensacionalistas.

            Kevin é esse rapaz. Meticuloso, astuto e diante desse comportamento frio, muitos acabam por atribuir que a responsabilidade seja individual, de um sujeito desviante da norma social.

            Mas em que medida nossa sociedade também não tem elevados índices de perversão? Quando nos preocupamos mais com a história do assassino do que com as vítimas, o que indicamos com isso? Ao consumir ou produzir discursos de ódio ou notícias falsas que modelo social estamos construindo? Quando as famílias não possuem diálogo, ninguém se interessa pelo cotidiano uns dos outros, não há afeto, o que essas pessoas estão comunicando entre si?

            Alguns elementos de Kevin podem estar em nós, pertencentes a uma cultura narcísica, de restrição à participação social, acostumados que somos ao individualismo. Aliado a isso, um Brasil que tem em sua gênese colonial o genocídio dos povos originários, as marcas irreparáveis de uma escravidão que foi uma das últimas a ser abolida, e a morte de mulheres, que nos coloca no lastimável ranking mundial de 5º lugar de feminicídio.

            Ora, mas se temos enquanto seres humanos condições sociais que nos possibilitam a frieza no trato com o outro ou um histórico de Brasil declaradamente violento, por que o crescimento de ataques às escolas foi maior nos últimos anos?

            Múltiplos fatores podem ser elencados, mas não tem como deixar de mencionar o crescimento do discurso de ódio, validado inclusive por personalidades públicas e concomitante, um aumento de 270% de grupos nazistas em 3 anos. Cabe lembrar que nazismo é um regime da extrema direita, violento e que tem cooptado através da internet um público jovem, sedento por visibilidade, vínculos e valorização.

            É importante chamar a atenção que foram ataques “às escolas” e não apenas “na” escola. Não aconteceu em shopping, símbolo do capitalismo, nem ataque a metrô, símbolo das metrópoles. E o que a escola ainda representa? Local do convívio com a diferença, de encontro com a diversidade, onde a democracia tem um enorme potencial, o que é algo inaceitável por ultraconservadores que tentam silenciar professores e currículos. Além disso, o massacre em escola também é um indicativo da necessidade de gerar o caos, o pânico, o medo e junto a isso, a preocupação em se armar.

            Assim, para os acionistas da Taurus, para os “Senhor das Armas” não adianta liberar o porte de armas se as pessoas não se sentem inseguras o suficiente para se armarem. Essa foi a conclusão que Michel Moore chegou no documentário “Tiros em Columbine” na (ir)responsabilidade do discurso midiático que propaga veementemente o medo para gerar a necessidade de aquisição de armas, câmaras e todos aparatos para as pessoas se blindarem umas contra as outras, afinal o inimigo pode estar em qualquer lugar. No interesse capitalista em vender armas sobrepondo o valor da vida, alguma semelhança com o personagem Kevin?

            Contra a lei do mais forte e contra a ideia do “cada um por si” é necessário uma segurança que seja PÚBLICA, com alto nível de preparo técnico e de abordagem humana, de modo que consigam exercer com zelo suas obrigações perante o povo brasileiro, na defesa da vida e da justiça. Reforço que isso é um trabalho fora das escolas, na vigilância das mediações, na utilização da inteligência policial para prevenção de crimes. Só isso basta? Claro que não. Faz-se necessário uma política que seja ampla, porque onde a sociedade é mais desigual mais a violência brota. Portanto, é imprescindível a valorização salarial, geração de renda e de emprego, investimentos em educação, saúde, segurança pública e regulamentação da mídia.

            Esse último é um ponto nevrálgico! Enquanto não houver um regramento da internet e da comunicação de massa, enquanto for possível a propagação de notícias falsas, ou o acesso a canais que potencializam a violência e a perseguição a grupos mais vulneráveis, haverá o destaque na sociedade de todo esgoto humano passando em céu aberto, sem controle, sem pudor, sem sentimento de culpa, mostrando que Kevin está mais presente do que imaginamos.

            Enquanto isso não é uma realidade, que a família, pais e mães abracem seus filhos, mostrem o quanto são importantes, sejam presentes. E… também estejam na vida em sociedade para defesa e luta por uma sociedade mais justa. Afinal, não há como escolher entre “criar um filho bom para o mundo ou um mundo bom para o filho”. É urgente e necessário que sejam as duas coisas.

 

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual

Mãe da Isabela de 11 anos

Texto publicado no Jornal da Cidade 14/04/2023

quinta-feira, 6 de abril de 2023

Transporte público e o acesso à cidade

             


            Eu trabalho na zona sul de Poços de Caldas desde 2008 e uma coisa que sempre me chamou a atenção era o hábito dos alunos dizerem que gostavam de vir para a cidade. Vou repetir: gostavam de vir para a cidade. Não falavam para o centro da cidade. É como se diante da distância de 8 quilômetros não se considerassem pertencentes a Poços de Caldas ou se sentissem estrangeiro na própria terra.

Mas é compreensível esse tipo de pensamento, afinal a história da nossa cidade com seus balneários de grande estilo arquitetônico, hotéis e cassinos de luxo, evidencia uma opulência que se contradiz com a segregação de moradores de baixa renda que foram empurrados para os bairros mais distantes, sob pressão do valor do imóvel. O problema é que essa mudança das regiões mais centrais não foi acompanhada por uma vivência num espaço acolhedor. Cabe lembrar, por exemplo, que na inauguração do Conjunto Habitacional não havia creche, nem escola, nem rua asfaltada e a falta de água era uma constância. Em linhas gerais: era um bairro que servia como um imenso dormitório urbano daqueles que trabalhavam no centro, mas não usufruíram de seus bens.

Na música “Cidadão” interpretada por Zé Geraldo, há o trecho no qual o construtor civil olha para o prédio e se lembra das dificuldades e das “4 condução, duas para ir e duas para voltar”. E nessa distância entre o produto do trabalho e o trabalhador, tentam nos fazer crer que não devemos participar daquilo que ajudamos a construir.

E isso não impacta apenas na marginalização social, a qual, diga-se de passagem, ficará pior com a privatização dos pontos turísticos. O outro impacto é a alienação. Alienação é estar alheio a algo, e pela corrente marxista é um termo utilizado para mostrar quando o trabalhador não se reconhece no próprio produto do seu trabalho, atribuindo a outros o que foi fruto do seu esforço.

Não é a prefeitura que cuida de jardins, que asfalta ruas, que limpa canos de distribuição de água. Não são construtoras que fazem edifícios. Não é o comércio que vende. Para tudo isso acontecer teve a mão do homem e da mulher, de trabalhadores muitas vezes invisíveis. É certo que há aqueles que participam mais a frente do direcionamento, da tomada de decisão, mas se não fosse a energia despendida pelos trabalhadores a cidade não teria crescimento, movimento, serviços nem nada disso.

Ora, sabendo da importância dos trabalhadores onde está a valorização dos cidadãos poços caldenses de baixa renda? Como terão acesso ao que foi produzido com os altos preços do transporte público? E isso não está acontecendo apenas no trajeto bairro/ centro, como também no acesso à escola.

É o caso da escola Padrão, que atua na região sul, uma área estimada em 60 mil habitantes. Situada no bairro Parque das Nações, a distância com alguns bairros nos quais atende, pode chegar a mais de 3 quilômetros e o problema de acessibilidade se intensifica em 2023 por falta de ônibus escolar. Isso porque até o ano passado havia uma parceria entre município e rede estadual, seguindo o disposto na Lei 10.709 de 2003, no seu artigo 3º. Porém, esse ano, diante do Novo Ensino Médio que amplia o tempo escolar, nossos estudantes não mais saem no mesmo horário que os da rede municipal, acarretando não apenas em grandes probabilidades de evasão escolar, como na insegurança de famílias, isso porque, adolescentes de 14 e 15 anos saem às 18h10 da escola.

O que estamos ensinando com isso? Que o direito à educação pode não ser acessado, pode não ser cumprido. E não estou falando de poucas famílias nessa situação, porque de acordo com respostas levantadas via formulário, há em torno de 200 estudantes que precisariam do transporte e não podem custear.

É preciso transporte público de qualidade e com tarifas mais reduzidas. É preciso a acessibilidade a bens culturais e comerciais da cidade. É preciso transporte escolar para que nossos estudantes façam o trajeto casa e escola em segurança. É preciso vontade política para defender que a cidade deve ser usufruída por todos.

Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual 


Texto publicado no Jornal da Cidade 7/04/2023




sexta-feira, 24 de março de 2023

É preciso ir soltando a mão

 


Eu deveria ter tirado uma foto, mas não tirei.

Ficou registrada em mim a lembrança e a forma de eu traduzir o que está na minha mente é apenas se eu contar... então vamos lá.

Viagem a São Paulo com a amiga e as crianças. A programação era visitar museus, parques, só que tomou outro rumo. As crianças queriam além do combinado, andar de metrô, afinal essa experiência ainda não fazia parte de suas vidas.

Recomendação de mãe: Isabela, você vai ficar próxima a mim, pois geralmente é muito lotado.

Pois bem. A Marci segurava a mão da Tatá, sua filha de 8 anos e a Bela estava agarrada em mim, como um carrapato. Maria, a filha mais velha da Marci, ia na frente, toda segura de si.

Enquanto fazíamos o caminho até chegar no metrô, quantas coisas foram aprendendo... identificaram no mapa, onde estávamos e onde iríamos e experimentaram a compra dos bilhetes nas máquinas. Perceberam que escada rolante é para poupar tempo e esforço humano, mas que para muitos paulistanos elas ainda são lentas demais, pois há um local na lateral destinada para os que querem se apressar. Descobriram que para entrar no metrô não pode ser depois do silvo e que é possível verificar o trajeto de acordo com a luz que vai se acendendo no painel com o nome de cada estação.

No retorno, não havia a tensão inicial porque não tinha tantos passageiros. Qual a foi a cena linda que merecia foto? De ver as duas crianças, que até então estavam presas às suas mães, se sentirem desafiadas por si mesmas a voltar, como se fossem João e Maria, seguindo as migalhas de pão.

E era bem isso... precisaram observar e ler o cenário: letreiros, placas, pistas, lembranças. As adultas iam atrás, com uma distância segura, acompanhando o desenvolvimento, olhando se elas acertavam o caminho ou não. Em determinado instante a Tatá ficou longe da Bela, e a Bela recuou, esperou a amiga e seguiram. Seguiram.

Não teve como eu não lembrar da origem da palavra pedagogo, que vem do grego, juntando o pedacinho paidós (criança) e o pedaço agogé (condução). Era um trabalho realizado pelos escravizados na Grécia Antiga, que consistia em acompanhar a criança até a escola, ou seja, até o saber.

Adquirir um saber é uma condição para libertação, de independência, de soltar a mão de quem está te tutelando. Não ter a mão de alguém pode dar uma sensação de insegurança, de se sentir sozinho, mas é um ato de coragem, de quem se entrega na aprendizagem contínua e vai lendo pistas para trilhar com mais firmeza e nisso saí criando novas estradas.

A pergunta é: nós, adultos, estamos acompanhando com zelo para que nossas crianças e jovens se sintam confiantes em apostar na liberdade?

E isso não é fácil. Afinal, é preciso ir soltando a mão, mas sem desamparar. Por isso, o trabalho do antigo pedagogo grego pode ser referência, para famílias e educadores. Ele não levava a criança no colo, nem tampouco negava de guiar. Ele acompanhava, estava presente para orientar, para aconselhar.

Não são poucos os casos de adolescentes que vão à minha sala alegando ansiedade. O curioso é que “na conversa vai e conversa vem”, descubro que não possuem rotina, que vão deitar de madrugada, que ficam isolados nos seus quartos horas a fio no celular, se comparando com todas as vidas, ao ponto de cogitarem que que são insignificantes. Não há hábito de leitura de livro, nem prática de atividade física, nem conversa em família. Entretanto, tomam remédio para ansiedade.

Na ausência de projetos e de pessoas que os acompanhem na jornada, estão estagnados num repetitivo presente e enquanto isso, estendem a mão para a medicalização. Não são livres, pelo contrário, estão presos a droga e à uma ausência de rumo. Daí conversamos e eu como pedagoga, tento acompanha-los. Esboçamos as possibilidades de mexer no cotidiano, oriento o quanto a atividade física traz a sensação de prazer e bem-estar, de como é saudável diminuir a conexão com as telas e aumentar o vínculo com amigos e família. Saem da minha sala levando um rascunho da prosa e um livro de literatura debaixo do braço.

E eu, fico a observar, na esperança de que entendam que o conhecimento é bússola que serve à autonomia, para não depender, nem de ninguém, nem de nada. Só assim, suas mãos estarão livres e trilharão com segurança os próprios caminhos, sem se sentirem abandonados.

 

 

Ana Paula Ferreira

Pedagoga e Supervisora da rede estadual
Texto publicado no Jornal da Cidade - 24/03/2023

quinta-feira, 16 de março de 2023

Feminismo dos bastidores e dos palcos

            

Fotografia de Nany de 2020

            Certa vez, eu estava num café e uma mulher, que chegou com uma colega, desabafou “Eu até concordo com algumas coisas das feministas, mas não tudo”. Pois bem. O que era esse tudo? Por fim, ela relatou que se incomodava com as que mostravam os seios em praça pública, as que faziam esquetes teatrais chocantes, as que defendiam o aborto.

            Fiquei pensando o quanto esse pensamento não deixa de ganhar projeção entre tantas outras. E no fundo é o pensamento da nossa sociedade que finge ser libertária, mas que exerce o controle de corpos a todo momento. “Eu gosto de dar aula, mas com alunos quietos”, “Não sou racista, mas sou contrário às cotas”, “Respeito os homossexuais, mas eles não precisam ser escandalosos”… e exemplos não faltam pra elucidar que no comportamento ainda há a persistência do controle, da desigualdade de narrativas ou da negação às várias formas de ser no mundo.

            Tem ganhado espaço os discursos contra violência de gênero. Mas, eles adquirem aprovação quando são em palestra, entrevista na TV, fala nas redes sociais. São ferramentas importantes porque transmitem uma ideia de Direitos humanos, porém, desde que sejam comunicações dentro do que se considera como um marco civilizacional. Tudo que fugir a isso é considerado barbárie, coisa de feministas loucas.

            Em 2017 fizemos um ato no terminal de linhas urbanas da cidade de Poços de Caldas para denunciar o feminicídio. Não faltaram ataques nas redes sociais. E olha que ninguém estava com os peitos à mostra. Diariamente as mulheres precisam se impor para falar, se posicionar, serem ouvidas. O espaço não é dado. É duramente conquistado, pois não é considerado como delas. Daí que homens, mesmo os que se acham desconstruídos, as coloquem no papel de “destemperadas”, de “nervosas”, de “mentirosas”, mas não observam que elevam o tom de voz, que são irônicos e sarcásticos para desconsideram os argumentos femininos, que exercem uma violência de “Barbas Azuis” da modernidade. Na verdade, anseiam que ninguém exponha o quartinho sombrio onde mutilaram verbalmente as diversas mães, filhas, trabalhadoras, não querendo por fim se encontrar com o seu próprio “eu” raivoso, que assedia, humilha as mulheres.

            E como esses “Barbas Azuis” fazem esse movimento? Como os opressores sempre fizeram. Ou elaboram uma história para retirar a dignidade do outro, de modo que ninguém lhe tenha apreço ou o ignoram, o tratam como invisível. A invisibilidade está no silenciamento dos nomes atribuídos aos monumentos de uma cidade ou mesmo nas “micro” histórias, das que ocorrem no dia a dia, nas casas, nas escolas, nas fábricas, nas ruas.

            Mas a resistência é algo apaixonante para quem contesta a opressão. Porque ela encontra mecanismos criativos de se colocar. Pode ser desde a protagonista do livro “A vida invisível de Euridice Gusmão” no qual a dona de casa, quietinha e reservada, vai se colocando pouco a pouco na arte literária, na vida pública, ou pode ser de uma maneira mais ousada, fora dos padrões, daquelas que marcaram histórica pela intensidade e continuidade na luta.

            Se hoje há a liberdade de contestar a desigualdade entre homens e mulheres sem sermos mortas por isso, muito se deve a Olympe de Gouges que em plena Revolução Francesa tornou essa demanda explícita nos seus textos teatrais e que por conta de sua petulância em desafiar um política pensada por homens e para homens, foi guilhotinada.

            Se atualmente há direitos trabalhistas, sociais e econômicos, não há como não reconhecer os benefícios do socialismo soviético e quem iniciou a primeira fase da Revolução Russa foram as tecelãs na sua greve por “pão e paz”, cuja data é o marco feminista do dia 8 de março. Se temos a liberdade em votar e sermos votadas, é devido a luta de diversas mulheres, com destaque a irreverência de Bertha Lutz, que usou de um avião para lançar panfletos sobre o sufrágio feminino.

            Portanto, a palavra é sororidade. Respeito às mulheres que não possuem o perfil de sair às ruas, de se expor publicamente e fazem a mudança de mentalidade nos bastidores. Contudo, respeito também às que se colocam de uma maneira mais combativa, nos palcos sociais. A feminista militante não está agredindo ninguém com seu corpo exposto ou na eloquência discursiva em vias públicas. Agressão é feita cotidianamente por companheiros que matam, patrões que assediam, Estado que não assegura creches, asilos ou salários dignos e consequentemente empurra para que as mulheres exerçam a tripla jornada em seus lares no cuidado das crianças e idosos.

            Precisamos ter o cuidado de não comprar a narrativa do opressor. Isso não é difícil de acontecer, pois possuem toda uma estrutura para disseminar uma versão discriminatória de sociedade. Desconsiderar a luta das que se expõe é seguir o fluxo de uma sociedade violenta, que queimou centenas de mulheres em fogueiras como “bruxas” na Idade Moderna, que considerou todas as que infringiam os “bons costumes” como loucas. Se loucas somos nós que desafiamos essa normalidade doentia, então não há problema nenhum com esse adjetivo.

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação e supervisora na rede estadual

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Contra uma educação excludente

         


          Esse texto foi elaborado para a live “Desafio do Novo Ensino Médio e da EJA: contra uma educação excludente”, do Coletivo Educação, realizada em 2 de dezembro de 2021 e pretendo deixar aqui também registrado, ainda mais pelo fato do apelo à revogação da Reforma do Ensino Médio ser pauta atual.

Inicialmente é importante explicar o que é se manifestar “contra uma educação excludente”. Isso porque, de acordo com as bagagens de cada um, podemos ter incontáveis respostas. Alguns, por exemplo, acreditam que se a educação focasse no ensino de língua inglesa, no empreendedorismo, no uso de tecnologias, isso por si só já traria uma inclusão dentro de um mundo capitalista, pois aumentaria as chances de oportunidade de emprego ou da pessoa ter seu próprio negócio e assim ter uma vida mais confortável.

Mas, daí é fundamental pensarmos no território que estamos pisando, situar o Brasil e suas relações internacionais. Nos números da balança comercial, é notório que exportamos alimentos e minérios e compramos medicamentos, inseticidas, automóveis, produtos manufaturados. O que isso significa? Que a empregabilidade seria maior nas mineradoras, no campo ou em indústrias que processam os alimentos. Porém, a divisão territorial de nosso país é extremamente injusta e 73% da área agrícola está concentrada nas mãos dos 10% de grandes imóveis rurais. O que esses grandes latifundiários fazem? Em linhas gerais, transformam a terra em grande celeiro para o mundo e para produzirem em grande escala, se utilizam de maquinários que dispensam a maior parte da mão-de-obra que vão somar com tantos outros milhares nos centros urbanos, nas casas improvisadas, nos subempregos, na violência urbana, no número de pessoas desempregadas.

            Ah! Mas, se as pessoas tivessem aula de empreendedorismo elas podem ter seu próprio negócio e ir além. Nós tivemos na escola em que trabalho três alunas que eram irmãs. Extremante competentes, comunicativas, perspicazes. Elas trabalhavam com doce e resolveram abrir uma lanchonete onde vendiam seus brigadeiros, beijinhos e também vários salgados. O que aconteceu? Com a alta do preço dos alimentos, se elas passassem esse valor para os clientes, perdiam a venda; e se não passassem, não conseguiam pagar o aluguel. Consequência: fecharam o estabelecimento. Não foi falta de vontade, não foi falta de trabalho, não foi ausência de entendimento de mercado, mas sim, porque esse formato de mercado não favorece o crescimento de todos. E isso na verdade é uma realidade cruel no mundo todo. A Walmart, por exemplo, em 2018 tinha um milhão a mais de empregados do que a Amazon. Contudo, a Amazon teve lucros no varejo que superaram a Walmart e junto a outras empresas da era digital são as que pagam menos impostos.

Daí temos o triste cenário: não há emprego no campo, tampouco há emprego na cidade e junto a isso, o Estado brasileiro, numa aliança política com o grande capital, arrecada menos impostos e, portanto, não consegue injetar dinheiro em políticas públicas para geração de empregos ou de renda. E qual o discurso é divulgado para o senso comum? Que é importante fazer “mais com menos”, conter os gastos do Estado e melhorar o ensino, diante da educação financeira, preparação dos professores para lidar com o novo currículo ou com as inovações tecnológicas.

            Agora, voltemos no título: “contra uma educação excludente”. Primeiro ponto: ser contra uma educação excludente é valorizar o ensino público. É valorizar centros de Educação Infantil públicos, escolas da rede municipal e estadual, Institutos Federais, universidades públicas, de Poços de Caldas, de Minas, do Brasil. São essas escolas que recebem todas as pessoas independente de terem ou não dinheiro.

Segundo ponto: Para haver mudanças de qualidade para educação pública é necessário mais recurso.  Hoje os alunos de Ensino Médio com notas de maior desempenho são alunos dos Institutos Federais. E isso é uma ilustração da necessidade de mais investimentos no setor público. Aliás, é lastimável o dado trazido pelo pesquisador Daniel Cara, quando sinaliza que menos de 1% das escolas atendem o nível de qualidade colocado pelo Plano Nacional da Educação, o qual prescreve que as escolas devam ter água potável, salas não numerosas, biblioteca, laboratório de informática, quadras cobertas, internet rápida.

Terceiro ponto: uma educação que se faça contra a exclusão, deve se posicionar frente aos problemas sociais, políticos e econômicos, na busca por um Estado que respeite as individualidades, mas que ao mesmo tempo não cruze os braços perante suas responsabilidades sociais. Uma educação se pretenda contra a exclusão, deve questionar esse sistema que não gera empregos e culpabiliza os sujeitos pela situação de fome ou de pobreza.

Se queremos uma educação que vá além do capital, que consigamos subverter essa ordem. Nos documentos oficiais há o registro da construção de “sujeitos resilientes”, ou seja, suportar as adversidades, ser flexível para mudar. Mudar como? Aceitar que na falta de dinheiro para comprar carne, podem comprar o osso? Isso não é resiliência. Isso é sub-humano. Daí a necessidade de cultivarmos nas escolas o sentimento também de resistência, de se indignar perante os lucros desmedidos das grandes corporações e latifúndios, a perda da soberania nacional perante o entreguismo de nossas riquezas para o capital internacional.

Se queremos subverter a lógica, que o trabalho coletivo ensinado nas escolas não seja para mero cumprimento das leis sociais. Que na formação do quesito cidadania, possamos contribuir para que os estudantes acompanhem os projetos de lei da cidade, as políticas públicas que impactarão diretamente a juventude, a educação, o trabalho; que saibam utilizar da lei para defender os interesses de sua comunidade, que percebam locais onde podem vivenciar uma cidadania ativa (sindicatos, partidos, movimentos sociais), que compreendam o que é esquerda, direita e não caiam nos perigos das fake news.

            E por fim, subverter a ordem dentro do campo trabalho não é ensinar o aluno se virar sozinho na sua economia. Quem é de classe popular sabe já fazer isso. É a jovem que é babá, manicure, faz doces pra vender; ou no caso do jovem é o servente de obras, é o ajudante em oficina, é o entregador por aplicativo. Eles já sabem viver no “se vira”.

A escola precisa criar condições para romper com o discurso do opressor. Nesse sentido, é fundamental o aluno entender o que é o sistema capitalista, como ele opera e como gera riquezas sobre corpos de trabalhadores, de jovens, de mulheres, de negros.

Eu gosto muito da ideia que Paulo Freire traz de denúncia e anúncio. A denúncia está posta: é um currículo do Estado de Minas no qual a expressão “direitos trabalhistas” aparece 2 vezes nas 497 páginas e a palavra “empreendedorismo” aparece 25 vezes. Não é sem razão. Não é sem uma finalidade. Por outro lado, qual nosso anúncio? O anúncio é de que outra sociedade mais igualitária é possível e, portanto, defendê-la é acreditar nos versos de Mercedes Sosa de que “cambia, todo cambia” e colocar nossa energia e compromisso nesse movimento de mudança.

 Ana Paula Ferreira

Supervisora da rede estadual e Mestre em Educação

Texto publicado no Jornal da Cidade de 24/02/2023

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Capital cultural e formação docente

 Imagem retirada no site https://www.youtube.com/watch?v=a3eO6-D4nHo 

                 Bourdieu, um importante sociólogo francês, realizou um estudo complexo em relação aos mecanismos pelos quais uma classe social se coloca com mais prestígio, poder e dominação em relação a outra. Pensando no trabalho docente da Educação Básica, vou ater em apenas três conceitos: capital econômico, social e cultural.

A desigualdade ocorre via capital econômico, que podemos resumir não apenas na relação monetária, quantidade de dinheiro, mas de investimentos, propriedades, recursos pelos quais o indivíduo consegue gerar e acumular mais riquezas. A desigualdade também se estabelece no acúmulo de capital social, que em linhas bem gerais, seriam os benefícios simbólicos de pertencimento a um grupo, que permite que os membros acessem ao que é produzido nessa coletividade e se fortaleçam em comunhão seja para maiores inserções sociais ou valorizações salariais. E, por fim, e não menos importante, há o capital cultural, que ocorre por todos valores, perspectivas, linguagem, conhecimento, titulações que o sujeito se apropriará ao longo da vida e que servirão como elementos de distinção.

 Nós professores não temos o potencial de acumular capital econômico, não somos donos das escolas privadas, nem de rede hoteleira, nem de fábricas, muito menos de bancos. Talvez de uma forma mais genérica possuamos um carro para nos transportar para as diversas escolas e uma casa. Aliás, em tempos de defesa do homeschooling, da perseguição ao que é lecionado, valorização do saber da internet sobrepondo o saber escolar ou a busca em destruir a força dos sindicatos questiono se nosso capital social diminuiu.

E nosso capital cultural? Afinal, temos a titulação de ser professor. Muitos já concluíram pós-graduações, participaram em seminários, congressos, cursos virtuais e presenciais de educação. Nesse sentido, os professores detêm um capital cultural que Bourdieu nomeia como institucionalizado, pois ele se manifesta pela via da diplomação. Porém há duas outras formas pelas quais o capital cultural ocorre que é o incorporado, a cultura que recebemos desde nossa infância, e o objetivado que pode ser adquirido pela aquisição material (compra de uma pintura por exemplo) ou de maneira simbólica na relação entre sujeito e objeto do conhecimento.

Não é difícil perceber que para uma vasta experimentação cultural, a fim de alargar o repertório do saber, duas coisas são extremamente importantes: tempo e dinheiro. É certo que há bibliotecas públicas, exposições gratuitas de arte ou museus com entrada de livre acesso. Porém, também é fato que a vivência cultural exige dinheiro, seja viagens em cidades históricas ou visita a exposições que estão distantes da vida no interior.

O problema é que à medida que o salário é praticamente um valor para a sobrevivência, os educadores se dobram em acúmulo de aulas para conseguir ter uma vida com um pouco mais de conforto e a consequência é menos tempo para o momento do ócio, que segundo o sociólogo italiano Domenico de Masi, é uma parte fundamental para o desenvolvimento da própria criatividade. Atrelado a isso, numa sociedade do consumo, a indústria cultural se aproveita desse curto espaço de lazer para trazer enlatados de informação que nos transformam em meros espectadores, com baixa potencialidade de reflexão, e cair nessa armadilha não é difícil, pois basta usar o controle da televisão.  

Através do ócio podemos nos humanizar, nos sensibilizar com coisas que passariam desapercebidas, porque fugimos do automatismo para cultuar um pensamento livre, fortuito, que se entrega a si, ao outro, ao cultivo às diferentes produções artísticas, à possibilidade de vivência em comunidade e sem perceber tecemos uma colcha com vários retalhos simbólicos, revisando inclusive em nossos preconceitos, que na nossa visão míope do dia a dia, não conseguiríamos dar conta.

Isso aconteceu comigo recentemente. Estive pela primeira vez no Rio de Janeiro cheia de medos, reflexo de anos de uma cultura midiática que coloca esse espaço na ótica da violência, da bala perdida, do tráfico. Não quero também reforçar que “o Rio de Janeiro continua lindo”. É evidente que há graves problemas. Mas ir até lá, me mostrou gente organizada que luta para que a história das minorias sociais não seja apagada; de profissionais da saúde que dedicaram uma vida a favor da humanização no atendimento aos pacientes diagnosticados como loucos; de pessoas comuns, de todos os fenótipos e idades que deixaram a felicidade tomar conta do seu gingado sob os batuques da bateria de escolas de samba.

Nesse sentido, é um grande engano quando tratamos a formação docente apenas no seu caráter burocrático, curricular ou didático. Ensinar não é explicar o que está no livro. É além disso. Envolve um trabalho de “gastronomia”, entre o que o professor sabe sobre o “prato”, o que o aluno conhece e os “ingredientes” que possuem à disposição. Quanto menos ingredientes simbólicos, menos possibilidades de inovação metodológica, de criação ou menores as chances de aguçar a vontade do estudante na experimentação do menu escolar.

 Por isso, se o “prato principal” da formação docente exige tempo e dinheiro, que o cumprimento da regulamentação do piso seja urgente. Enquanto tivermos governadores que recorrem ao Tribunal de Justiça pedindo inconstitucionalidade da lei ou prefeitos que dizem que “lei não discute, lei se cumpre”, mas estão longe de tornar promessa em ação, assistiremos o desalento do trabalho docente e do futuro de gerações que passam pelas escolas.

Triste quando lembramos a frase do educador Darcy Ribeiro quando diz que “a crise da educação não é uma crise, é um projeto”. Porque daí reforça-se a perspectiva que não pagar o piso, previsto em lei nacional é contribuir novamente para que os diversos tipos de capital continuem concentrados apenas para um pequeno grupo dominante. 

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação e supervisora escolar


Texto também publicado no Jornal da Cidade do dia 31/01/2022  e no Jornal Poços Já 
https://www.pocosja.com.br/2023/01/31/artigo-capital-cultural-e-formacao-docente/