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quarta-feira, 26 de agosto de 2020

A terra e nosso senso de (in) justiça

           Não nascemos injustos. Somos educados a (re) produzir um senso de justiça e é curioso saber que a palavra senso está atrelada a percepção, ao sentido. Portanto, nossa qualidade de discernimento entre o que seria ou não justo estaria baseada não tanto no campo da racionalidade, mas no sentimento.

Ora, se nossas emoções estão vulneráveis a uma construção social e cultural e esse controle das mentes e corações é exercido habilmente pela indústria cultural, que enaltece a verdade dos heróis e valoriza a história dos vencedores, começamos a compreender o quanto que nosso senso de justiça está em defesa dos poderosos. Compartilho o exemplo da história “Os três porquinhos” narrada à exaustão na nossa primeira infância.

Podemos pensar em dois aspectos da história: sua estrutura linguística e pedagógica. Na primeira, nota-se que os porquinhos que quiseram se dar ao luxo do lazer, ócio e prazer musical, fizeram casas de palha e de madeira e tiveram suas construções destruídas pelo predador. Valores capitalistas tais como trabalho, dedicação, disciplina são reverenciados na figura de Pedrito, tornando-se explícito que se o indivíduo arduamente se entregar a uma tarefa, conquistará a prosperidade. Na questão pedagógica é importante levamos em consideração como que geralmente o conto é trabalhado: as crianças são levadas a contar até três junto com o “lobo” para que o porquinho saísse; são incentivados a soprar as casinhas e a desalojar o suíno que não tem outro recurso senão fugir. O que pedagogicamente ensinamos, seja com a linguagem da história ou com a didática da contação? Que o que é digno de valor é a história dos vencedores. Na medida em que o lobo era o animal mais forte, as crianças eram conduzidas a acabar com a vida que os porquinhos construíram para si. Contamos a história tal como aprendemos e nem refletimos sobre os seus vários sentidos com as crianças, o qual poderia também ser a importância da união entre os mais vulneráveis num processo de resistência contra aquele que tem mais poder.

Isso aconteceu durante a história da humanidade. Ameríndios e africanos foram também retirados de suas propriedades, houve saque, tortura, escravidão com esses povos sob a narrativa de que não tinham alma, de que se buscava um processo civilizacional e a violência era necessária para domesticar os bárbaros. Durante tempo nossos livros de história traziam essa leitura dos fatos e muitas pessoas criaram seu senso de justiça nesse paradigma, acreditando que indígenas e negros eram preguiçosos e estão em situação de desigualdade porque não se esforçaram tanto quanto deveriam. É a mesma lógica que sustenta o fato de não nos sensibilizarmos com o despejo de moradores do Movimento Sem Terra no argumento de que a terra não foi comprada nem herdada por esses trabalhadores.

Os defensores dessa justificativa desconsideram que a própria Constituição Federal prevê a desapropriação de terras improdutivas e o que o MST faz é forçar essa distribuição, haja vista que a Reforma Agrária nunca foi política pública séria no Brasil. Para os apoiadores do latifúndio, “o Agro é tech, o Agro é pop, o Agro é tudo” e não se percebe que defender essa desigual estrutura fundiária é continuarmos na dinâmica de desmatamento para que nosso país seja o celeiro e o curral do mundo, é permanecermos liderando o ranking de nação com o maior consumo de agrotóxicos do mundo, é colocarmos vidas de tribos indígenas a própria sorte, é de forma desumana aceitar que famílias pobres sejam retiradas de sua terra num processo arbitrário de reintegração de posse.

A violência não vem apenas em formato de força física. Antes, mata sua capacidade de pensar e de se sensibilizar com os mais fracos. Que possamos enfim, pensar em que medida estamos defendendo os opressores e renunciando a vida dos mais oprimidos, em que medida nossos sentimentos já foram capturados para abastecer a história do vencedores, e o que achamos ter de senso de justiça, nada mais é do que uma mercadoria que já foi adquirida por aqueles que tem poder.  

 

Ana Paula Ferreira


                   Foto de Sebastião Salgado 


quarta-feira, 8 de abril de 2020

Educação inclusiva: uma bandeira contínua



O dia 21 de setembro é datado como o Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência e nos possibilita pensar que escola queremos, que tipo de mundo pretendemos construir. Um filme que alarga essa reflexão e que me surpreendeu é “Corcunda de Notre Dame” dirigido por Peter Medak. Traz um Quasímodo que não era apenas a pessoa com deficiência física e de alma generosa que defende a amiga, tal qual apresentado no desenho da Disney. Era também um leitor voraz, alguém que encontra no conhecimento o poder da libertação de si e do outro e ao acreditar na propagação de uma ideia, escreveu panfletos e os distribuiu lutando por justiça.

O saber lhe deu condições de se colocar perante o mundo, de ecoar sua voz e suas demandas, de enfrentar barreiras para a construção de uma sociedade mais democrática. Não estava salvando Esmeralda. Estava desafiando um sistema político extremamente arbitrário, uma religião fechada em si mesma, e evidenciando que marginalizados de todas as ordens poderiam se unir para colocar suas pautas.

Historicamente, vimos que as pessoas com deficiência eram afastadas do convívio, e que, aliás, a escolarização desse grupo é muito recente, pois, em se tratando de Brasil, se passaram mais de três séculos para que houvesse uma instituição que olhasse para essa demanda (Instituto dos Meninos Cegos/ Instituto de surdos-mudos) e em relação à deficiência mental se passaram mais de 400 anos (Sociedade Pestalozzi e APAE). Entretanto, a educação era, sobretudo em escolas especializadas, embora a LDB de 1961 já manifestasse que na medida do possível era para ser no Sistema Geral de ensino.

Hoje temos mais alunos nas classes regulares por conta de todo advento de acordos internacionais, legislações e políticas públicas que fomentaram a matrícula e o atendimento ao aluno com deficiência. Mas, ficam duas perguntas: Em que medida essas políticas ainda precisam avançar? E como cada profissional da educação pode materializar a lei para que a inclusão não seja apenas mero documento?

Paulo Freire nos fala de uma educação que seja libertadora, para professores e alunos. Para isso, preciso ir além do que é visível, além do que o texto traz, ou do que o aluno traz. Cada aluno é um baú de passado, de experiências guardadas, de conhecimento assimilado, mas também é um campo de futuras possibilidades. Hoje ele não consegue, amanhã ele pode conseguir com mediação e depois poderá conseguir sozinho. Ninguém se resume apenas ao hoje, ninguém se resume às suas dificuldades.

Como salientou Kassar (2011) a dificuldade da inclusão é também uma dificuldade da escola pública, historicamente também colocada nas margens, e, portanto, lutar por educação inclusiva é somar na luta por uma educação pública que seja de qualidade a começar por menos alunos por sala, metodologias ativas que primem pelo trabalho coletivo, relações mais horizontais, salário digno no qual o professor não precisasse trabalhar vários turnos e mal conhecer sobre a comunidade das diversas escolas que leciona.

Que inclusão deve ser nossa bandeira? Uma inclusão que não se faça apenas do aluno com deficiência dentro da sala de aula regular, mas que possibilite aquilo que Quasímodo sabia: que a educação é uma ferramenta contra desigualdades e, portanto, todos devem ter acesso a ela, na perspectiva de humanização e de aumento da participação popular em prol de uma sociedade mais justa.

Ana Paula Ferreira

Supervisora pedagógica da rede estadual,

Mestre em Educação

Texto também publicado no Jornal da Cidade e Jornal da Mantiqueira 
https://www.jornalmantiqueira.com.br/2020/09/21/opiniao-educacao-inclusiva-uma-bandeira-continua/ 







quarta-feira, 11 de março de 2020

Mulher, educadora e grevista

Estamos no mês de março e não há como esquecer o dia internacional da mulher. A data não surgiu porque as mulheres reivindicavam batons, flores, cartões e mensagens, mas porque lutavam por “Pão e Paz”. Essa greve ocorreu na Rússia czarista, na qual mulheres foram às ruas contra as jornadas extenuantes, os baixíssimos salários e por condições dignas no ambiente fabril. Ao mesmo tempo, gritavam pelo retorno de seus filhos e esposos que estavam nas trincheiras da 1ª Guerra Mundial, diante de um governo arbitrário num país que sucumbia a fome. Teve tamanha força essa greve do dia 8 de março de 1917 que serviu de estopim para a Revolução Russa.

Porém, a História ao longo dos anos foi escrita por homens e por acadêmicos, pessoas letradas e fortemente impactadas pela ideologia burguesa. Portanto, era comum que a história de mulheres, de trabalhadores, dos mais pobres, ficasse escondida debaixo dos escombros e ruínas, enquanto fatos e memória dos vencedores tinham o holofote das páginas da história da humanidade.

Se quisermos hoje saber sobre a história das mulheres, precisamos escavar boas referências e dentre elas, uma que me chama a atenção é a historiadora Silvia Federici. No seu livro “Calibã e a Bruxa” a autora nos conta que na transição entre a economia feudal para a economia de mercado, diversos governos entenderam a importância do crescimento populacional como forma de conseguir mais consumidor e mão-de-obra barata. A consequência foi tornar a mulher como mero útero, escravizando-a no ambiente doméstico e transmitindo um novo modelo feminino a ser seguido: dócil, submissa, calada, resignada ao marido. As que não se sujeitavam a isso eram consideradas bruxas e mortas na fogueira.

Ainda hoje milhares de mulheres são mortas sob o fogo do feminicídio. Há também aquelas que são feridas em sua integridade moral e psicológica diante das palavras de baixo calão das redes sociais, da humilhação em público, sob a chama de palavrões e obscenidades. Os machistas tentam incessantemente silenciar as mulheres, pois essas ainda são concebidas como propriedade do homem, sendo inadmissível as que vão a público, que confrontam as ideias dos poderosos, que denunciam um presidente ignóbil, que fazem greve.

É nesse cenário que as líderes do movimento grevista em Minas Gerais foram recebidas pelos representantes do governo, quando sentaram à mesa de negociação. Tons de deboche, ironia, comunicação com desdém, aumento do volume da voz, várias artimanhas para minimizar e intimidar. Essa desvalorização profissional de mulheres que são líderes sindicais é efeito de um país onde a desigualdade gênero é naturalizada e cargos e funções menos valorizados são mais propagandeados ao universo feminino sob estereótipo de que a mulher é zelosa, paciente, amorosa e, portanto, se encaixaria mais nessas profissões sendo, portanto, absurdo aquelas que se encaminham para a política, local de excelência do homem.

Ora, numa sociedade sexista, com raízes profundas na desigualdade de rendimento entre homem e mulher e cujas profissões a mulher terá mais aceitabilidade porque não fazem parte da ambição masculina, é de se esperar que sejam áreas tratadas com menos destaque das pautas políticas. Isso é o que ocorre na área da educação básica no Brasil, tendo em vista que as professoras compunham 81,5% do quadro do magistério em 2010 e sabemos o quão o salário docente é defasado se comparado com profissionais graduados em outras áreas.

Lembrando que 8 de março é a luta da mulher trabalhadora por uma sociedade mais justa, resgatemos esse princípio para trazer a tona a luta das feministas que diversas vezes foram às ruas por creche e educação de qualidade para seus filhos ou a luta de milhares de professoras que historicamente deram aos seus alunos o “testemunho de luta, lições de democracia”, como dizia Paulo Freire. Não somos tias de nossos alunos e isso não significa menosprezar a figura da tia, mas sim tratar com profissionalismo nossa profissão, lutando por ela. Tias não fazem greve, professoras sim e, portanto, que nós, mulheres e professoras não deixemos que apaguem nossa história.
Ana Paula Ferreira 
Educadora e grevista

quinta-feira, 5 de março de 2020

Grevear: ação de justiça social

Fico pensando às vezes como ensinamos as crianças a ser injustas e aceitar a desigualdade. Não que eu ache o ser humano bom por natureza, mas faça o teste: mostre simultaneamente balas a duas crianças de quatro anos. Para uma entregue uma bala apenas e para outra um pote cheio. A que se sentiu desfavorecida com certeza reclamará. Isso inclusive é tema de pesquisa de Harvard desenvolvida em sete países, mostrando que independente da cultura as crianças possuem senso de justiça.
Contudo, com o tempo as crianças se inserem no nosso ritmo de viver e ensinamos que a menina deve ajudar a mãe nos afazeres domésticos enquanto o irmão assiste TV ou se diverte com os amigos. Justificamos que o presente de Natal é um carrinho de plástico made in China enquanto do primo é um vídeo game porque o papai Noel quis, ou na melhor das hipóteses, explicamos que a renda de cada família é diferente, mas não falamos o porquê da desigualdade social. Reforçamos que o cabelo crespo deve ser escondido, cortado, alisado, mas o cabelo liso da vizinha deve ser objeto de admiração.
Assim nossas crianças se tornam adultas que naturalizam as injustiças. Ensinamos tão bem ao longo dos anos que criamos condições para se acostumarem com a ideia de que iates e jatos não possuem impostos e coincidentemente estão nas mãos dos mais ricos. Em contrapartida, anualmente o brasileiro comum paga o IPVA de seus veículos. Torna-se aceitável que mineradoras em Minas Gerais não contribuam com o ICMS, que o governo salve bancos, ou até mesmo que o ministro da economia Paulo Guedes chame os funcionários públicos de “parasitas”. Esses mesmos que se aquietam perante as megalomaníacas oportunidades concedidas aos altos escalões da sociedade, se duvidar dirão que os professores são doutrinadores, ficarão horrorizados com os trabalhadores sem terra que lutam por Reforma Agrária e farão uso do famoso discurso raso da meritocracia.
Tudo isso é absurdamente internalizado pela grande maioria, pois nos acomodamos ano a ano a esse sistema capitalista desigual, ao ponto de defender que burguesia tenha privilégios enquanto os direitos são subtraídos da classe trabalhadora. Situação análoga de tratamento diferenciado é percebida em Minas, no qual o governador Zema anunciou aumento de 42% aos profissionais da segurança pública enquanto os demais são negligenciados sob pretexto de ajuste fiscal. Apesar dessa discrepância, milhares de servidores estaduais estão em silêncio perturbador sobre o fato.
Para o não envolvimento em defesa da profissão ocorre um duplo movimento de negação à greve. Primeiro, há a diplomacia de não entrar no assunto: abstém-se das reuniões que tratarão do tema, justifica que há outras estratégias sem ser a greve, mas não participa de nenhuma. O segundo movimento é de discursar de que greve não adianta e assim desapercebe que os direitos trabalhistas foram conquistas dos trabalhadores que nos antecederam, que alguns sofreram violência policial e outros tantos presos ou até mortos.
Paralisa-se no medo de perder alunos, mas não observa que estamos perdendo cidadãos, ensinando pelo exemplo sobre passividade, o comportamento alheio a discussões políticas, e condicionamentos a uma ação ordeira de meros cumpridores de normas. Somos bons cumpridores de nossas funções, entretanto que consigamos não perder nossa capacidade reflexiva de médio e longo prazo. Antônio Balduíno é um personagem de Jorge Amado que aprendeu que greve era uma luta mais bonita e mais forte do que as lutas que travava como malandro ou boxeador. Descobriu que é uma luta de quem não quer ser escravo, é uma luta de união, em solidariedade aos trabalhadores, em defesa da liberdade. Também espero que esse sentido seja recuperado e possamos nos unir como professores, servidores públicos, trabalhadores. Só assim como educadora ficarei feliz, lutando por igualdade e deixando o testemunho vivo desse princípio para que as novas gerações resgatem o senso de justiça que nós adultos fomos capazes de retirar.    
                                                                                Ana Paula Ferreira





terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Nome ignorado: sem RG na história


      Não sou “dona”, nem “doninha”, nem “tia”, me chamo Ana Paula e não abro mão do reconhecimento pelo nome. No livro “O conto da aia”, da canadense Atwood, a personagem principal chamava-se Offred e vivia numa república teocrática no qual as mulheres férteis eram destinadas a meras reprodutoras. Aliás, todas as aias, mudavam de nome ao se tornarem servas sexuais de determinada família. Lembrando que “of” em inglês significa “de”, o restante do nome nada mais era do que o nome de seu proprietário.
Essa mudança do nome não é ocasional. Nome é a identidade de uma pessoa e retirar a identidade de alguém faz parte de uma proposta de diminuir o sujeito, retirá-lo de seu eixo cultural e de suas raízes, da onde ela se ancora. Não é a toa que a cristianização nas Américas subtraiu nomes indígenas, forçando-os ideologicamente a adotarem nomes cristãos. É também pela mesma razão que pessoas transexuais não puderam legalmente mudar de nome. Suas identidades de gênero não correspondiam a seu sexo biológico e o reconhecimento do nome social só foi permitido no Brasil em 2016.
Retirar o nome pelo qual o indivíduo se identifica é diminuir a pessoa como se fosse tão sem importância, que nem seu nome pudesse ser falado, repetido ou registrado. Atribuir nome é reconhecer a importância ou o vínculo com aquele sujeito. Pensemos nos animais: o gado das grandes fazendas o máximo que recebem é um número de identificação, pois são apenas mais um; já os nossos animais domésticos, por outro lado são chamados por um nome, possuem histórias e quando morrem choramos por eles.
Tiramos o nome do ser humano o tempo todo, ainda mais quando esse ocupa funções socialmente desprezadas. Daí num bar, não perguntamos o nome do atendente e o chamamos por “garçom”. Na escola professora vira “tia” ou “dona” e um cliente é tratado por “senhor” ou “senhora”. Mas o engraçado é que em cargos com alto reconhecimento social dificilmente não é dito o nome. Há o vereador “Fulano”, o doutor “Ciclano” e a artista “Beltrana”. Nesse sentido, o nome tem força e serve de abertura para venda de produtos ou de uma ideia. Aliás, esses nomes que serão registrados em instituições como símbolo de poder e de memória de determinadas histórias.
Isto não é o mesmo que acontece aos descamisados nos semáforos, os camponeses sem tetos, os desvalidos, os jovens sem empregos que são fortemente cooptados pelo tráfico. Estão em condições parecidas aos do gado para abate: são apenas um número e peças vulneráveis de um Estado que superdimensiona a necropolítica, onde uns são protegidos e outros à beira da morte, são desassistidos pela política pública e por um sistema econômico que trata a classe trabalhadora como mera força de trabalho substituível.
Se nos tratamos como roldanas, engrenagens, enxadas, pás, giz, pincel, nosso nome realmente é descartável tal como é nosso trabalho que pode ser realizado por outros ou por máquinas. Entretanto, queremos superar o contexto de “Vidas Secas” no qual os filhos do vaqueiro Fabiano não foram nomeados por Graciliano Ramos. O propósito talvez fosse mostrar a situação de privação que viviam, inclusive do próprio nome, ou então para que facilmente identificássemos essas crianças com milhares de outras pelo Brasil. Num sentido ou no outro, nota-se novamente a relação entre nome e memória, nome e capital político ou econômico. É certo que o verdadeiro reconhecimento do cidadão como ser humano seria num outro modelo de sociedade, que não o tratasse como número eleitoral em época de campanha política ou número de cartão de crédito. Seria necessária uma sociedade que o homem não fosse o algoz do próprio homem, ou que a força do dinheiro ou do poder não fosse mais importante do que a integridade das pessoas. Contudo, talvez como um primeiro passo para o respeito à  pessoa, seja lembrar seu nome, ao se entender que por detrás desse há toda uma história que não pode ser apagada.

Ana Paula Ferreira
Mestre em Educação e
Supervisora Escolar da Rede Estadual/ MG




terça-feira, 10 de setembro de 2019

7 de setembro: Grito do Ipiranga e dos Excluídos


Hoje, dia 7 de setembro de 2019, houve Grito dos Excluídos na cidade de Poços de Caldas no desfile que homenageia a independência do Brasil. Independência que adveio de 1822, sem participação popular, no qual uma elite tupiniquim orquestrou para que o Brasil deixasse de ser colônia de Portugal. Ironicamente, quem assumiu o trono da monarquia brasileira é justamente o filho do rei português que saqueou nossas reservas minerais, vegetais e nossa força de trabalho.
Comemora-se uma frágil independência política seguida por uma dependência financeira astronômica. Isso porque, para que a emancipação do Brasil enquanto nação fosse aceita negociou-se o pagamento de uma indenização a Portugal. Sem recursos financeiros para tamanho empreendimento, a Inglaterra paga a dívida e durante anos o Brasil se rende ao poderio britânico num endividamento brutal.
Quando D. Pedro assumiu, mantivemos nossa subordinação aos mandos de uma economia exterior e dentro do território nacional a falta de liberdade do povo era estampada com a existência da escravidão, com a ausência da liberdade de imprensa e numa política que apenas homens ricos poderiam votar.  
É nesse contexto que nos inserimos há 197 anos após o Grito do Ipiranga. Ocupamos o lugar de segundo país subdesenvolvido com maior dívida externa; a mulher, embora possa votar, ainda tem baixíssima representação no Congresso comparada a outros; os negros, não são mais escravizados, mas exercem trabalhos mais desqualificados, sendo que um a cada dois negros está no mercado informal; a mídia no seu discurso oficial diz-se “livre e sem censura”, mas obedece aos mandos dos donos do capital.
Portanto, se não há razão para comemorar uma independência que não se traduziu em soberania nacional nem em justiça social para o povo, há razões de sobra para um Grito dos Excluídos. Se há no dia 7 de setembro um discurso normativo dos que ocupam o poder, que usam de protocolos, policiamento e de regras para sua manutenção, há também o discurso marginal, dos oprimidos sociais e políticos, que se fazem ouvir pelo som ensurdecedor de suas latas e seus gritos de não satisfação.
Em Poços de Caldas, os excluídos conseguiram soltar sua voz sob a organização do grupo “Mulheres pela Democracia” com a participação de homens, mulheres, crianças e adultos, de todas as cores e bandeiras na defesa de um país que respeite o trabalhador, o estudante e o meio ambiente; um país que a cor da pele não seja motivo para genocídio, nem o gênero seja razão para violência; em defesa de um país que não seja refém das normativas do Tio Sam, nem que tenha como projeto de governo o desmonte de estatais que são tão caras para a soberania de um país. Gritamos contra os cortes na pasta da Educação; contra a destruição do programa Mais Médico, contra os incêndios na Amazônia, gritamos contra a justiça parcial que não prende nem Queiroz, nem Aécio, nem milicianos que mataram Marielle...
Mas o movimento social não foi respeitado em suas vozes. Houve tentativa de ser calado pelos capatazes do sistema capitalista, que sempre alegam “estar exercendo suas funções”. A manifestação foi barrada várias vezes e só foi autorizada a sair atrás dos cavalos.
O cavalo que fechava esse último bloco se apresentou com a bandeira do Brasil, disciplinado, seguindo os comandos de uma pátria que tem lema “ordem e progresso”. Ordem de seguir marchando sem pensar, sem ter a condição humana do discernimento, apenas cumprindo ordens de superiores, não se preocupando com a segurança de pessoas que estão atrás de si, não se preocupando com as demandas levantadas por elas e nem imaginando que as pautas envolvem também sua existência. Segue apenas o instinto próprio de animal: se houver barulho, vai dar coice, se alguém passar na frente, pode avançar para cima das pessoas com seu irracionalismo de seguir o que está no roteiro. Esse cavalo, sem condição de reflexão sobre sua condição de explorado, manterá a ordem e o progresso, na visão de apenas seguir adiante aquilo que foi traçado por outros, seguindo um script de enaltecimento de um país no qual quem tem vez são os bancários que enriquecerão mais ainda com o crescimento da previdência privada; os empresários, com a aprovação de leis que flexibilizaram a segurança no trabalho e os latifundiários que destroem a floresta amazônica com vistas a pastos e lucros a curto espaço de tempo.
Mas o cavalo sente-se bem em servir a pátria branca, masculina e rica. Mostra-se dócil e cativo para com seus senhores que lhe exploram e age truculento para com aqueles que lhe fazem lembrar da sua condição social. Ao cavalo cabe seguir o Grito do Ipiranga. Enquanto isso acontece, o Grito dos Excluídos é cantado mais alto “somos mulheres, a resistência, de um Brasil sem fascismo e sem horror, vamos à luta, pra derrotar o ódio e pregar o amor”.

Ana Paula Ferreira
Supervisora escolar e militante do
grupo “Mulheres pela Democracia”


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Folclore: definição e atividades


Quer explicar para as crianças o que é folclore, mas ao mesmo tempo quer fugir da relação de relação de que folclore seja apenas lenda?

Simples, clique AQUI. 

Nessa apresentação os elementos que constituem o folclore são apresentados de forma clara e ilustrativa de modo que facilite a compreensão sem estereotipar o que seja folclore.

Sugiro aqui também outras atividades de como trabalhar o tema aproveitando os saberes regionais.

1) Faça um levantamento na sala e veja se há algum aluno que pode indicar familiares ou amigos para visitar a escola e compartilhar algum causo ou lenda. No dia da contação pode-se inclusive propor um clima a meia-luz, com a turma sentada no chão em círculo.

2) Brinque de trava-língua com a turma. Proponha desafios! É uma ótima maneira de fazê-los inclusive ler rapidamente um texto curto até decorá-lo.

3) Escutem a música “O desafio do trava-língua” de Rubinho do Vale. Além de divertida é de ótima qualidade musical.

4) Convide pessoas de grande importância no folclore regional para conversar com os alunos. Deixo como sugestão: Sr. Amadeu Ferreira da Folia de Reis e Catira, e Dona Orlanda Clementino, ícone da congada.

5) Criem um livro de chás com a ajuda das mulheres da região que se utilizam dos chás caseiros para combater algum doença.

6) Marquem uma visita à feira de artesanato.

7) Façam trabalhos em grupo cuja apresentação seja em pequenos vídeos: um pode explicar o que é folclore, outro pode entrevistar pessoas, outros podem encenar alguma lenda. A apresentação poderá ser para toda comunidade.

8) Peça pesquisas às crianças sobre músicas folclóricas que conhecem. Apresente a música clássica de Villa-Lobos e o valor que ele deu ao folclore brasileiro.

9) Veja com os familiares se alguém pode ir à escola fazer algum doce ou comida típica. Marque um dia para que todas as salas façam um “café folclórico”.

10) E sobretudo... Valorize nosso folclore! Valorize nossa cultura!

Sugestões de site:
https://www.slideshare.net/AnaPaulaFerreira94/folclore-do-anonimato-para-a-tradio
https://www.youtube.com/watch?v=NX5ul6Q7bhI&feature=youtu.be





domingo, 21 de maio de 2017

Transformando leitura em brincadeira e em reconto

Na escola é muito comum o ato de se contar uma história e pedir que os alunos representem via desenho ou resumo.
O ato de representar é importante, frisando com os alunos que nossa memória não consegue se lembrar de tudo e é importante algum registro se quisermos recontar algo. Entretanto, o registro pode ser por várias formas, desenho, massinha, foto, filmagem, etc.
A experiência a seguir relata uma brincadeira após o leitura de "Simbá, o Marujo" e que foi realizada em casa com minha filha Isabela de 5 anos e minha sobrinha Lavínia de 7.
Ocorreu na ordem abaixo:
1) Li a história adaptada, reconto de Edson Rocha Braga.
2) Representamos com brinquedos o que foi lido.
3) Isabela tirou fotos das representações.
4) Elas criaram frases para cada imagem e eu fui a escriba, mas houve um momento que elas quiseram digitar. Na onde digitaram, eu só reescrevi embaixo para haver um entendimento.
5) Montaram uma segunda adaptação.

Veja, o livro que elas fizeram...

SIMBÁ, O MARUJO 
De Isabela S. F. B. Mafra e Lavínia Mafra
Fotos: Isabela S. F. B. Mafra
Edição: Ana Paula Ferreira



                                             SIMBÁ, O  MARUJO,   FOI  VIAJAR
                                                    A BALEIA DERRUBOU  O  NAVIO 
SIMBÁ  CHEGOU   NUMA    ILHA.   
LÁ  TINHA  CAVALO  E  LEVARAM  PARA  O  REI. 

O   REI  CHAMOU  SIMBÁ  PARA  TRABALHAR.



MAS   SEUS  AMIGOS   CHEGARAM E   SIMBÁ  ENTROU   NO  NAVIO 
O  NAVIO  FOI  ENPORA  DAILIA  E DEIXOU    SIPA    E LE ESTAVA GOMEDO  FURDAS. (Digitação)
O  NAVIO  FOI EMBORA  DA ILHA  E DEIXOU    SIMBA  PORQUE  ELE ESTAVA COMENDO  FRUTAS (Reescrita)

O   SIMBA  A  MAROU  NOPE  DOLARXCARTO VOADOR PARA  SARI  DAILHA (Digitação) 
O   SIMBÁ  AMARROU  NO PÉ  DO LAGARTO VOADOR PARA  SAIR  DA ILHA (Reescrita) 

O  LAGATO  FOCOME    COPARA  E   NA  ILHA  TINHA  JOIAS (Digitação) 
O  LAGARTO  FOI COMER    COBRA  E   NA  ILHA  TINHA  JOIAS. (Reescrita) 

O   ZOMER VOUTOU  DAI   LHA  E  BUSCOU    O   SIMBA.(Digitação)
OS  HOMENS VOLTARAM  NA   ILHA  E  BUSCARAM   O   SIMBÁ. (Reescrita) 

E  LEFO EMBORA  GOAJOIAS (Digitação)
ELE FOI EMBORA COM AS JOIAS (Reescrita) 


O  SIMBA  FOI   VIAJAR  COM  SEUS    AMIGOS  E   SEUS  PARSEROS. (Digitação)
O SIMBA FOI VIAJAR COM SEUS AMIGOS E SEUS PARCEIROS. (Reescrita) 

O SIMBA E SEUS AMIGOS ESTAVAM NO BARCO, MAS O BARCO AFUNDOU PORQUE VEIO UMA ONDA FORTE. SÓ O SIMBÁ SOBREVIVEU. 
O SIMBÁ CONSTRUIU UM BARCO PARA ATRAVESSAR A CACHOEIRA E ENTRAR PELA MONTANHA. O SIMBÁ ERA O ÚNICO SOBREVIVENTE. 

O SIMBÁ CHEGOU NO CASTELO E NO CASTELO TINHA UM REI. O REI FALOU:
- EU QUERO DAR UM PRESENTE PARA SEU REI.
O SIMBÁ LEVOU O PRESENTE PARA SEU REI.  

O SIMBÁ TROUXE JÓIAS E DIAMANTES PARA O REI DA PÉRSIA.
O REI PEDIU PARA SIMBÁ LEVAR DIAMANTES PARA O REI DE OUTRA ILHA. 

O BARCO FOI ATACADO POR PIRATAS.
TEVE UMA GUERRA E PRENDERAM TODOS E SIMBÁ VIROU ESCRAVO. 

O SIMBÁ COMO ESCRAVO MOSTROU PARA O SEU CHEFE NA ONDE TINHA MARFIM E O SEU CHEFE PEGOU OS MARFINS E FICOU RICO.
O CHEFE DE SIMBÁ DEIXOU SIMBÁ IR EMBORA.  


O SIMBÁ FICOU RICO PORQUE ELE GANHOU MARFIM E JÓIAS E VIVEU FELIZ PARA SEMPRE COM A SUA FAMÍLIA. 

domingo, 7 de maio de 2017

O uso da Internet e a formação de gênero feminino na infância

Vamos repensar o uso da tecnologia? Em que medida jogos eletrônicos podem influenciar a subjetividade das crianças e principalmente as meninas?

Vejam o resumo do trabalho apresentado no Simpósio LUBRAL clicando AQUI página 147.







A greve: um ato educativo

Quando se faz a opção por uma greve é porque várias alternativas foram apresentadas, mas não se teve êxito. Não é uma decisão feita às pressas, nem de forma unilateral e por isso há assembleias para se votar em relação à adesão. Uma das pautas da greve dos trabalhadores estaduais em Educação é a suspensão da Reforma da Previdência. A greve é nossa, nós que sofremos ataques por estarmos com as aulas suspensas, mas cabe frisar que a Reforma da Previdência atingirá a TODOS, portanto essa luta num gesto de coragem deveria ser de cada um de nós.

Estamos com as aulas paralisadas desde 15 de março, mas nossas atividades não pararam. Participamos de reuniões sindicais; fizemos estudos sobre a PEC 287; elaboramos panfletos e cartazes, organizamos palestras para comunidade; panfletamos em feiras, escolas e comércios; somamos nas passeatas; enviamos e-mails aos deputados para que votassem contra ao Projeto; pressionamos nossos vereadores de modo que assinassem uma nota de repúdio e encaminhassem para o Congresso.

Essas ações fazem parte de um entendimento de que paralisação é mobilização e de que ao estarmos esclarecidos sobre os prejuízos em relação aos direitos trabalhistas e de seguridade devemos fazer da greve um ato educativo de forma que mais pessoas entendam o que está se passando e quiçá saiam de sua zona de conforto para somar no movimento.

Direito à aula é um direito que não será subtraído e por isso haverá reposição desses dias. Entretanto, é direito também do aluno, enquanto futuro trabalhador, exercer suas atividades em condições dignas e não sob os efeitos da flexibilização das leis trabalhistas; é direito a se aposentar após anos de contribuição; é direito de a mulher ter o benefício da Previdência antes do homem lembrando sua tripla jornada.

São direitos que serão retirados de diversas gerações de brasileiros e brasileiras e o que mais me preocupa é acusação social, e de nossos próprios alunos, preocupados com as escolas fechadas. Isso mostra que a criticidade, objetivo de inúmeros Projetos Político Pedagógico não está sendo alcançado, pois ser crítico é fazer projeções a médio e longo prazo, é repensar os impactos coletivos e sociais, é ir além do imediatismo, é refletir sobre o senso comum midiatizado, é perceber no contraditório o movimento de pressão, de luta e de mudança.

Nós professores estamos sendo o contraditório numa sociedade que se acovarda e pouco discute os problemas da Reforma da Previdência. Que essa nossa ação sirva de ato educativo é a nossa esperança.

Ana Paula Ferreira