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terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Nome ignorado: sem RG na história


      Não sou “dona”, nem “doninha”, nem “tia”, me chamo Ana Paula e não abro mão do reconhecimento pelo nome. No livro “O conto da aia”, da canadense Atwood, a personagem principal chamava-se Offred e vivia numa república teocrática no qual as mulheres férteis eram destinadas a meras reprodutoras. Aliás, todas as aias, mudavam de nome ao se tornarem servas sexuais de determinada família. Lembrando que “of” em inglês significa “de”, o restante do nome nada mais era do que o nome de seu proprietário.
Essa mudança do nome não é ocasional. Nome é a identidade de uma pessoa e retirar a identidade de alguém faz parte de uma proposta de diminuir o sujeito, retirá-lo de seu eixo cultural e de suas raízes, da onde ela se ancora. Não é a toa que a cristianização nas Américas subtraiu nomes indígenas, forçando-os ideologicamente a adotarem nomes cristãos. É também pela mesma razão que pessoas transexuais não puderam legalmente mudar de nome. Suas identidades de gênero não correspondiam a seu sexo biológico e o reconhecimento do nome social só foi permitido no Brasil em 2016.
Retirar o nome pelo qual o indivíduo se identifica é diminuir a pessoa como se fosse tão sem importância, que nem seu nome pudesse ser falado, repetido ou registrado. Atribuir nome é reconhecer a importância ou o vínculo com aquele sujeito. Pensemos nos animais: o gado das grandes fazendas o máximo que recebem é um número de identificação, pois são apenas mais um; já os nossos animais domésticos, por outro lado são chamados por um nome, possuem histórias e quando morrem choramos por eles.
Tiramos o nome do ser humano o tempo todo, ainda mais quando esse ocupa funções socialmente desprezadas. Daí num bar, não perguntamos o nome do atendente e o chamamos por “garçom”. Na escola professora vira “tia” ou “dona” e um cliente é tratado por “senhor” ou “senhora”. Mas o engraçado é que em cargos com alto reconhecimento social dificilmente não é dito o nome. Há o vereador “Fulano”, o doutor “Ciclano” e a artista “Beltrana”. Nesse sentido, o nome tem força e serve de abertura para venda de produtos ou de uma ideia. Aliás, esses nomes que serão registrados em instituições como símbolo de poder e de memória de determinadas histórias.
Isto não é o mesmo que acontece aos descamisados nos semáforos, os camponeses sem tetos, os desvalidos, os jovens sem empregos que são fortemente cooptados pelo tráfico. Estão em condições parecidas aos do gado para abate: são apenas um número e peças vulneráveis de um Estado que superdimensiona a necropolítica, onde uns são protegidos e outros à beira da morte, são desassistidos pela política pública e por um sistema econômico que trata a classe trabalhadora como mera força de trabalho substituível.
Se nos tratamos como roldanas, engrenagens, enxadas, pás, giz, pincel, nosso nome realmente é descartável tal como é nosso trabalho que pode ser realizado por outros ou por máquinas. Entretanto, queremos superar o contexto de “Vidas Secas” no qual os filhos do vaqueiro Fabiano não foram nomeados por Graciliano Ramos. O propósito talvez fosse mostrar a situação de privação que viviam, inclusive do próprio nome, ou então para que facilmente identificássemos essas crianças com milhares de outras pelo Brasil. Num sentido ou no outro, nota-se novamente a relação entre nome e memória, nome e capital político ou econômico. É certo que o verdadeiro reconhecimento do cidadão como ser humano seria num outro modelo de sociedade, que não o tratasse como número eleitoral em época de campanha política ou número de cartão de crédito. Seria necessária uma sociedade que o homem não fosse o algoz do próprio homem, ou que a força do dinheiro ou do poder não fosse mais importante do que a integridade das pessoas. Contudo, talvez como um primeiro passo para o respeito à  pessoa, seja lembrar seu nome, ao se entender que por detrás desse há toda uma história que não pode ser apagada.

Ana Paula Ferreira
Mestre em Educação e
Supervisora Escolar da Rede Estadual/ MG




terça-feira, 10 de setembro de 2019

7 de setembro: Grito do Ipiranga e dos Excluídos


Hoje, dia 7 de setembro de 2019, houve Grito dos Excluídos na cidade de Poços de Caldas no desfile que homenageia a independência do Brasil. Independência que adveio de 1822, sem participação popular, no qual uma elite tupiniquim orquestrou para que o Brasil deixasse de ser colônia de Portugal. Ironicamente, quem assumiu o trono da monarquia brasileira é justamente o filho do rei português que saqueou nossas reservas minerais, vegetais e nossa força de trabalho.
Comemora-se uma frágil independência política seguida por uma dependência financeira astronômica. Isso porque, para que a emancipação do Brasil enquanto nação fosse aceita negociou-se o pagamento de uma indenização a Portugal. Sem recursos financeiros para tamanho empreendimento, a Inglaterra paga a dívida e durante anos o Brasil se rende ao poderio britânico num endividamento brutal.
Quando D. Pedro assumiu, mantivemos nossa subordinação aos mandos de uma economia exterior e dentro do território nacional a falta de liberdade do povo era estampada com a existência da escravidão, com a ausência da liberdade de imprensa e numa política que apenas homens ricos poderiam votar.  
É nesse contexto que nos inserimos há 197 anos após o Grito do Ipiranga. Ocupamos o lugar de segundo país subdesenvolvido com maior dívida externa; a mulher, embora possa votar, ainda tem baixíssima representação no Congresso comparada a outros; os negros, não são mais escravizados, mas exercem trabalhos mais desqualificados, sendo que um a cada dois negros está no mercado informal; a mídia no seu discurso oficial diz-se “livre e sem censura”, mas obedece aos mandos dos donos do capital.
Portanto, se não há razão para comemorar uma independência que não se traduziu em soberania nacional nem em justiça social para o povo, há razões de sobra para um Grito dos Excluídos. Se há no dia 7 de setembro um discurso normativo dos que ocupam o poder, que usam de protocolos, policiamento e de regras para sua manutenção, há também o discurso marginal, dos oprimidos sociais e políticos, que se fazem ouvir pelo som ensurdecedor de suas latas e seus gritos de não satisfação.
Em Poços de Caldas, os excluídos conseguiram soltar sua voz sob a organização do grupo “Mulheres pela Democracia” com a participação de homens, mulheres, crianças e adultos, de todas as cores e bandeiras na defesa de um país que respeite o trabalhador, o estudante e o meio ambiente; um país que a cor da pele não seja motivo para genocídio, nem o gênero seja razão para violência; em defesa de um país que não seja refém das normativas do Tio Sam, nem que tenha como projeto de governo o desmonte de estatais que são tão caras para a soberania de um país. Gritamos contra os cortes na pasta da Educação; contra a destruição do programa Mais Médico, contra os incêndios na Amazônia, gritamos contra a justiça parcial que não prende nem Queiroz, nem Aécio, nem milicianos que mataram Marielle...
Mas o movimento social não foi respeitado em suas vozes. Houve tentativa de ser calado pelos capatazes do sistema capitalista, que sempre alegam “estar exercendo suas funções”. A manifestação foi barrada várias vezes e só foi autorizada a sair atrás dos cavalos.
O cavalo que fechava esse último bloco se apresentou com a bandeira do Brasil, disciplinado, seguindo os comandos de uma pátria que tem lema “ordem e progresso”. Ordem de seguir marchando sem pensar, sem ter a condição humana do discernimento, apenas cumprindo ordens de superiores, não se preocupando com a segurança de pessoas que estão atrás de si, não se preocupando com as demandas levantadas por elas e nem imaginando que as pautas envolvem também sua existência. Segue apenas o instinto próprio de animal: se houver barulho, vai dar coice, se alguém passar na frente, pode avançar para cima das pessoas com seu irracionalismo de seguir o que está no roteiro. Esse cavalo, sem condição de reflexão sobre sua condição de explorado, manterá a ordem e o progresso, na visão de apenas seguir adiante aquilo que foi traçado por outros, seguindo um script de enaltecimento de um país no qual quem tem vez são os bancários que enriquecerão mais ainda com o crescimento da previdência privada; os empresários, com a aprovação de leis que flexibilizaram a segurança no trabalho e os latifundiários que destroem a floresta amazônica com vistas a pastos e lucros a curto espaço de tempo.
Mas o cavalo sente-se bem em servir a pátria branca, masculina e rica. Mostra-se dócil e cativo para com seus senhores que lhe exploram e age truculento para com aqueles que lhe fazem lembrar da sua condição social. Ao cavalo cabe seguir o Grito do Ipiranga. Enquanto isso acontece, o Grito dos Excluídos é cantado mais alto “somos mulheres, a resistência, de um Brasil sem fascismo e sem horror, vamos à luta, pra derrotar o ódio e pregar o amor”.

Ana Paula Ferreira
Supervisora escolar e militante do
grupo “Mulheres pela Democracia”


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Folclore: definição e atividades


Quer explicar para as crianças o que é folclore, mas ao mesmo tempo quer fugir da relação de relação de que folclore seja apenas lenda?

Simples, clique AQUI. 

Nessa apresentação os elementos que constituem o folclore são apresentados de forma clara e ilustrativa de modo que facilite a compreensão sem estereotipar o que seja folclore.

Sugiro aqui também outras atividades de como trabalhar o tema aproveitando os saberes regionais.

1) Faça um levantamento na sala e veja se há algum aluno que pode indicar familiares ou amigos para visitar a escola e compartilhar algum causo ou lenda. No dia da contação pode-se inclusive propor um clima a meia-luz, com a turma sentada no chão em círculo.

2) Brinque de trava-língua com a turma. Proponha desafios! É uma ótima maneira de fazê-los inclusive ler rapidamente um texto curto até decorá-lo.

3) Escutem a música “O desafio do trava-língua” de Rubinho do Vale. Além de divertida é de ótima qualidade musical.

4) Convide pessoas de grande importância no folclore regional para conversar com os alunos. Deixo como sugestão: Sr. Amadeu Ferreira da Folia de Reis e Catira, e Dona Orlanda Clementino, ícone da congada.

5) Criem um livro de chás com a ajuda das mulheres da região que se utilizam dos chás caseiros para combater algum doença.

6) Marquem uma visita à feira de artesanato.

7) Façam trabalhos em grupo cuja apresentação seja em pequenos vídeos: um pode explicar o que é folclore, outro pode entrevistar pessoas, outros podem encenar alguma lenda. A apresentação poderá ser para toda comunidade.

8) Peça pesquisas às crianças sobre músicas folclóricas que conhecem. Apresente a música clássica de Villa-Lobos e o valor que ele deu ao folclore brasileiro.

9) Veja com os familiares se alguém pode ir à escola fazer algum doce ou comida típica. Marque um dia para que todas as salas façam um “café folclórico”.

10) E sobretudo... Valorize nosso folclore! Valorize nossa cultura!

Sugestões de site:
https://www.slideshare.net/AnaPaulaFerreira94/folclore-do-anonimato-para-a-tradio
https://www.youtube.com/watch?v=NX5ul6Q7bhI&feature=youtu.be





domingo, 21 de maio de 2017

Transformando leitura em brincadeira e em reconto

Na escola é muito comum o ato de se contar uma história e pedir que os alunos representem via desenho ou resumo.
O ato de representar é importante, frisando com os alunos que nossa memória não consegue se lembrar de tudo e é importante algum registro se quisermos recontar algo. Entretanto, o registro pode ser por várias formas, desenho, massinha, foto, filmagem, etc.
A experiência a seguir relata uma brincadeira após o leitura de "Simbá, o Marujo" e que foi realizada em casa com minha filha Isabela de 5 anos e minha sobrinha Lavínia de 7.
Ocorreu na ordem abaixo:
1) Li a história adaptada, reconto de Edson Rocha Braga.
2) Representamos com brinquedos o que foi lido.
3) Isabela tirou fotos das representações.
4) Elas criaram frases para cada imagem e eu fui a escriba, mas houve um momento que elas quiseram digitar. Na onde digitaram, eu só reescrevi embaixo para haver um entendimento.
5) Montaram uma segunda adaptação.

Veja, o livro que elas fizeram...

SIMBÁ, O MARUJO 
De Isabela S. F. B. Mafra e Lavínia Mafra
Fotos: Isabela S. F. B. Mafra
Edição: Ana Paula Ferreira



                                             SIMBÁ, O  MARUJO,   FOI  VIAJAR
                                                    A BALEIA DERRUBOU  O  NAVIO 
SIMBÁ  CHEGOU   NUMA    ILHA.   
LÁ  TINHA  CAVALO  E  LEVARAM  PARA  O  REI. 

O   REI  CHAMOU  SIMBÁ  PARA  TRABALHAR.



MAS   SEUS  AMIGOS   CHEGARAM E   SIMBÁ  ENTROU   NO  NAVIO 
O  NAVIO  FOI  ENPORA  DAILIA  E DEIXOU    SIPA    E LE ESTAVA GOMEDO  FURDAS. (Digitação)
O  NAVIO  FOI EMBORA  DA ILHA  E DEIXOU    SIMBA  PORQUE  ELE ESTAVA COMENDO  FRUTAS (Reescrita)

O   SIMBA  A  MAROU  NOPE  DOLARXCARTO VOADOR PARA  SARI  DAILHA (Digitação) 
O   SIMBÁ  AMARROU  NO PÉ  DO LAGARTO VOADOR PARA  SAIR  DA ILHA (Reescrita) 

O  LAGATO  FOCOME    COPARA  E   NA  ILHA  TINHA  JOIAS (Digitação) 
O  LAGARTO  FOI COMER    COBRA  E   NA  ILHA  TINHA  JOIAS. (Reescrita) 

O   ZOMER VOUTOU  DAI   LHA  E  BUSCOU    O   SIMBA.(Digitação)
OS  HOMENS VOLTARAM  NA   ILHA  E  BUSCARAM   O   SIMBÁ. (Reescrita) 

E  LEFO EMBORA  GOAJOIAS (Digitação)
ELE FOI EMBORA COM AS JOIAS (Reescrita) 


O  SIMBA  FOI   VIAJAR  COM  SEUS    AMIGOS  E   SEUS  PARSEROS. (Digitação)
O SIMBA FOI VIAJAR COM SEUS AMIGOS E SEUS PARCEIROS. (Reescrita) 

O SIMBA E SEUS AMIGOS ESTAVAM NO BARCO, MAS O BARCO AFUNDOU PORQUE VEIO UMA ONDA FORTE. SÓ O SIMBÁ SOBREVIVEU. 
O SIMBÁ CONSTRUIU UM BARCO PARA ATRAVESSAR A CACHOEIRA E ENTRAR PELA MONTANHA. O SIMBÁ ERA O ÚNICO SOBREVIVENTE. 

O SIMBÁ CHEGOU NO CASTELO E NO CASTELO TINHA UM REI. O REI FALOU:
- EU QUERO DAR UM PRESENTE PARA SEU REI.
O SIMBÁ LEVOU O PRESENTE PARA SEU REI.  

O SIMBÁ TROUXE JÓIAS E DIAMANTES PARA O REI DA PÉRSIA.
O REI PEDIU PARA SIMBÁ LEVAR DIAMANTES PARA O REI DE OUTRA ILHA. 

O BARCO FOI ATACADO POR PIRATAS.
TEVE UMA GUERRA E PRENDERAM TODOS E SIMBÁ VIROU ESCRAVO. 

O SIMBÁ COMO ESCRAVO MOSTROU PARA O SEU CHEFE NA ONDE TINHA MARFIM E O SEU CHEFE PEGOU OS MARFINS E FICOU RICO.
O CHEFE DE SIMBÁ DEIXOU SIMBÁ IR EMBORA.  


O SIMBÁ FICOU RICO PORQUE ELE GANHOU MARFIM E JÓIAS E VIVEU FELIZ PARA SEMPRE COM A SUA FAMÍLIA. 

domingo, 7 de maio de 2017

O uso da Internet e a formação de gênero feminino na infância

Vamos repensar o uso da tecnologia? Em que medida jogos eletrônicos podem influenciar a subjetividade das crianças e principalmente as meninas?

Vejam o resumo do trabalho apresentado no Simpósio LUBRAL clicando AQUI página 147.







A greve: um ato educativo

Quando se faz a opção por uma greve é porque várias alternativas foram apresentadas, mas não se teve êxito. Não é uma decisão feita às pressas, nem de forma unilateral e por isso há assembleias para se votar em relação à adesão. Uma das pautas da greve dos trabalhadores estaduais em Educação é a suspensão da Reforma da Previdência. A greve é nossa, nós que sofremos ataques por estarmos com as aulas suspensas, mas cabe frisar que a Reforma da Previdência atingirá a TODOS, portanto essa luta num gesto de coragem deveria ser de cada um de nós.

Estamos com as aulas paralisadas desde 15 de março, mas nossas atividades não pararam. Participamos de reuniões sindicais; fizemos estudos sobre a PEC 287; elaboramos panfletos e cartazes, organizamos palestras para comunidade; panfletamos em feiras, escolas e comércios; somamos nas passeatas; enviamos e-mails aos deputados para que votassem contra ao Projeto; pressionamos nossos vereadores de modo que assinassem uma nota de repúdio e encaminhassem para o Congresso.

Essas ações fazem parte de um entendimento de que paralisação é mobilização e de que ao estarmos esclarecidos sobre os prejuízos em relação aos direitos trabalhistas e de seguridade devemos fazer da greve um ato educativo de forma que mais pessoas entendam o que está se passando e quiçá saiam de sua zona de conforto para somar no movimento.

Direito à aula é um direito que não será subtraído e por isso haverá reposição desses dias. Entretanto, é direito também do aluno, enquanto futuro trabalhador, exercer suas atividades em condições dignas e não sob os efeitos da flexibilização das leis trabalhistas; é direito a se aposentar após anos de contribuição; é direito de a mulher ter o benefício da Previdência antes do homem lembrando sua tripla jornada.

São direitos que serão retirados de diversas gerações de brasileiros e brasileiras e o que mais me preocupa é acusação social, e de nossos próprios alunos, preocupados com as escolas fechadas. Isso mostra que a criticidade, objetivo de inúmeros Projetos Político Pedagógico não está sendo alcançado, pois ser crítico é fazer projeções a médio e longo prazo, é repensar os impactos coletivos e sociais, é ir além do imediatismo, é refletir sobre o senso comum midiatizado, é perceber no contraditório o movimento de pressão, de luta e de mudança.

Nós professores estamos sendo o contraditório numa sociedade que se acovarda e pouco discute os problemas da Reforma da Previdência. Que essa nossa ação sirva de ato educativo é a nossa esperança.

Ana Paula Ferreira




domingo, 23 de abril de 2017

Formação de leitores e prevenção contra a dengue: relatos de experiências

Compartilho duas experiências pedagógicas no papel de supervisora numa escola da Zona Sul de Poços de Caldas.
A primeira é em relação à formação de leitores, quando a escola fez uma parceria com a biblioteca do bairro e dinamizou esse espaço público até então subutilizado. A partir daí cresceu o acesso ao acervo da biblioteca e os próprios alunos avaliaram que estavam lendo mais.
A segunda experiência trata-se de orientações em relação ao trabalho sobre a dengue com uma abordagem interdisciplinar objetivando extrapolar a perspectiva de cuidado apenas com o próprio quintal para se potencializar o cuidado com o bairro e com a cidade.
Ambas experiências estão mais detalhadas nos Anais do Simpósio Nacional Por uma Escola Inovadora e Inclusiva e inclusive o segundo relato tem a participação da professora Regiane Schlive Fermino.
Veja nas páginas 440 (Formação de Leitores) ou 798 (Prevenção contra a Dengue) clicando AQUI.

 

Vídeo no qual sou entrevistada e que falo da importância da biblioteca...

Recuperando memórias.
https://youtu.be/PYqun7mKuAc?si=56AzyBwx7-DV2Jtw 

quinta-feira, 20 de abril de 2017

PRODUÇÃO DA SUBJETIVIDADE E LINGUAGEM NO AMBIENTE ESCOLAR

Deixo aqui um artigo meu e do amigo Elvis Rezende Messias que consta no material do SIELP -
Simpósio Internacional de Ensino de Língua Portuguesa, página 1715.

Trata-se de uma reflexão sobre a linguagem e sua relação com a subjetividade.

Para conferir clique AQUI.



Depois melhoramos a escrita e construímos o seguinte artigo que foi publicado na revista da UEMG: 



sexta-feira, 24 de março de 2017

Os Saltimbancos e a Previdência Social

A peça teatral “Saltimbancos” de Chico Buarque está mais atual do que nunca. Não digo pelo fato da nova versão de filme que estreou em janeiro deste ano tendo Renato Aragão como protagonista. A atualidade reside na discussão do desmonte dos direitos trabalhistas que está ocorrendo nos últimos meses no Brasil e que o texto “Saltimbancos” metaforicamente trata tão bem diante de seus animais.
A história começa com um jumento que foge para não continuar sofrendo as opressões do campo, representando o trabalhador rural que abastece a zona urbana, mas nem é lembrado, “nem nome não tem”. Fazendo um paralelo com a atual conjuntura, o trabalhador rural não é somente esquecido pelos citadinos, como também pelos próprios representantes políticos quando se corre o risco que os mesmos votem a Reforma da Previdência na qual o camponês será duramente penalizado. Se antes tinham o direito de se aposentarem antes da idade mínima, tendo em vista que geralmente iniciam-se nas atividades da roça antes dos 14 anos, com a PEC 287 o capiau aposentará com a mesma idade que outros trabalhadores. Esquecem de suas marcas de sol, de suas mãos calejadas, de seu sono interrompido na madrugada e lhe exigem mais trabalho, mais contribuição, mais produção e menos retorno.
O mesmo acontece com a personagem da galinha que pode ser comparada aos operários fabris. Isso porque passado o período produtivo, não servem mais, são corpos descartáveis e que podem sentir mais rapidamente o pacote de mudanças trabalhistas tendo em vista a aprovação da Terceirização para todas as atividades. As mudanças permitem uma jornada acima de 8 horas diárias, precarização do trabalho e remunerações abaixo do valor que seria pago caso a contratação fosse diretamente com a empresa a qual se presta o serviço. Para garantir uma aposentadoria integral precisará contribuir por 49 anos ininterruptos, o que significa não parar a produção seja por motivo de desemprego, acidente de trabalho ou afins. Porém, com a idade avançada chega também o cansaço e não se produz tanto quanto antes e assim como a galinha da história que ao não botar mais ovos é ameaçada a virar canja, o trabalhador industriário é ameaçado a ser demitido antes da idade de 65 anos, ficando desempregado, com poucas chances de voltar ao mercado e sem aposentadoria.
A violência das medidas anti-trabalhadores refletirá pesadamente sobre a juventude que precisará contribuir desde cedo se quiser aumentar as chances de aposentar, porém num cenário de terceirizações em massa e com menor chance de entrada no mercado de trabalho haja vista que o trabalhador (se respeitado seu tempo para aposentar) demorará mais tempo para desocupar uma vaga. A juventude é ilustrada pela gata do livro “Saltimbancos”, aquela que ainda não está na idade produtiva e que faz da música sua forma de protesto.
            Entretanto no decorrer da história há o entendimento entre os personagens que a arte não é suficiente como forma de ataque e percebem que a libertação de seus opressores ocorrerá quando se unirem pois “um bico com dez unhas, quatro patas, trinta dentes e o valente dos valentes ainda vai te respeitar”. O tom esperançoso do livro em relação ao trabalho coletivo reforça a ideia de que para combater a aprovação da Reforma da Previdência não bastam paralisações pontuais e faz-se urgente uma greve geral. Somos agricultores, operários, professores, policiais ou jovens, somos por isso mesmo classe trabalhadora. Se apenas uma categoria mostra os dentes ou as unhas é pouco perante a força que os barões do poder possuem e por isso é imprescindível uma bandeira de luta de que “Todos juntos somos forte, somos flechas e somos arco, todos nós no mesmo barco, não há nada a temer”. Se juntos, Temer jamais!

Ana Paula Ferreira




sexta-feira, 10 de março de 2017

A (in) visibilidade feminina e a (re) existência

Somos a maioria da população e quanto a isso não dúvida. Pra sermos mais próximas da exatidão somos numericamente 6 milhões a mais do que os homens. Estamos nos lares, nas lavouras, nas fábricas, nos hospitais e nas escolas. Viramos destaque quando se trata de participação em comercial de cerveja ou nas propagandas de cosméticos. Somos referências de zeladoras do ambiente familiar e no imaginário social da “tia”, palavra que em grande medida deprecia a professora da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Alguns locais nos foram historicamente marcados e se constituem onde somos visíveis: no ambiente familiar, onde somos apenas corpo, em cargos e funções associados ao cuidar, em profissões que estão desvalorizadas.

Porém, somos poucas nos percentuais de gerência, de trabalhadoras assalariadas e nos cargos políticos que definem diretamente sobre nossas vidas. Na política institucional somos menos de 10% e quando ousamos fazer a política no chão da feira e das praças através da linguagem direta com o trabalhador, nossa visibilidade e barulho incomodam. Ao entender que para se alterar o quadro de um mentalidade patriarcal, que objetifica a mulher e a torna como corpo descartável é necessário também adentrar o palco institucional das escolas e por isso o evento do dia 8 de março realizado na Autarquia Municipal de Ensino com formação de professores em relação a temática.

A proposta “Educação de gênero no espaço escolar” foi significativa porque contou com uma programação riquíssima sobre gênero, pensada e materializada por militantes. Significativa pela composição da mesa ser exclusivamente por mulheres que ganhavam não o espaço da voz, mas da escuta. Significativa porque se criou mecanismos de responsabilizar o poder público em apoiar e trabalhar pelas demandas sociais.

Nesse evento mostramos a porta da saída da invisibilidade; atravessamos a história do movimento feminista pelas ruas e entramos na visibilidade institucional a começar pela Secretaria de Educação, ocupando uma universidade e depois ao se fazer uma formação para diversas professoras e professores, que retornarão ao espaço escolar, nos fazendo crer que seja alimentada a ideia de “Companheira me ajude, que eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor”.

Ana Paula Ferreira
Mestre em Educação e membro do
Coletivo Jaçanã Musa dos Santos



Fotos de Gustavo Rodrigues







Fotos de Greice Keli



Agradecimentos profundos e sinceros a todas e todos que inspiram à luta: Edna, Lucia Vera, Claudia, Lilian, Greice, Marília, Laís, Paula, Stephanie, Dani, Sabrina, Victória, Juliana, Eliza, Diego, Divino, Gustavo, Tiago.
Obrigada a todos da Secretaria que acolheram a ideia e deram contornos belíssimos: Cleiton, Karla, Mario, Flávia, Nancy e demais trabalhadores.
Meu afeto e carinho a Marcela Rufato e Daniela Rosa que marcaram minha alma com a manhã do dia 8 de março de 2017!!!