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domingo, 28 de janeiro de 2024

Para quem é mãe...


Que lembremos que podemos ser fortes, 

sensíveis, carinhosas, 

mas que não podemos ser sozinhas.


Precisamos de uma rede de apoio, 
da família e da sociedade.

Precisamos de creche, 
escolas de qualidade para nossos filhos, 
trabalhos com salário digno
 com uma carga horária menor
 pra que não vivamos apenas para o serviço.

Precisamos da política pública
que acolha e que nós também cuidemos das mães
 todos os dias... porque se não existíssemos, não haveria humanidade.

Olhar e saber quem somos


  

 


Nossa visão está para fora de nós.

E por isso não percebemos 
Aquele ketchup no canto da nossa boca.
Alguém que nos diz, nos servindo de espelho.
Mas se não dizem, ficamos sem parâmetro.
E por fim nos acostumando 
que a medida correta é a do outro!

Esse outro pode ser pessoa, mídia, igreja, 
ou qualquer coisa que nos coloque óculos, 
por onde passaremos a ver.... o outro.
E assim...Deixamos de nos reconhecer enquanto sujeitos.

Nessa preocupação, 
ao invés de percebermos quem somos, 
o outro que é a referência
e deixamos de viver... 
porque viver não é seguir o fluxo, 
é ter a dor em fazer escolhas, 
olhando para si, 
para quais malas que conseguiremos levar durante a viagem

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

O celular, a chave e os óculos

            



 Tem três coisas que ocasionalmente venho a esquecer na hora que paro em algum lugar: celular, chave e óculos. Se não lembro, é claro que esse esquecimento me traz alguns problemas. Sem o celular fico incomunicável com o mundo, ao esquecer a chave, não entro na minha própria casa e na ausência dos óculos, no meu caso que tenho miopia, fico com dificuldade em ver o espaço mais adiante, a ter uma visão de longo alcance. Buscando uma analogia com a questão da memória da humanidade, o esquecimento provoca, dentre outros problemas, esses três efeitos: não conseguir imprimir a própria narrativa, sentir-se fora da morada e limitada percepção sobre o futuro, ou melhor, do que vem a frente.

Quando não temos meios de comunicação, nossa voz fica abafada. Isso é bem mostrado no documentário de curta duração “Levante sua voz”, que questiona a concentração da imprensa tradicional no Brasil nas mãos de poucas famílias.  Nesse sentido, reforça-se a história oficial, a qual enaltece a figura e feitos dos donos do poder. Concomitantemente, a história dos trabalhadores, dos indígenas, quilombolas e todas as minorias sociais é marginalizada, ou pior, contada sob o viés do colonizador, do opressor, daquele que diminuí discursivamente o outro com vistas a justificar a violência e a exploração. Por isso, o esquecimento de nossas raízes ou a reprodução de uma história que nos subjuga, que nos retira de cena do protagonismo é uma das causas cruéis de não conseguirmos potencializar nossa voz, e somado a ausência de instrumentos de comunicação, limita-se não somente a comunicação, mas a participação na disputa de narrativas em relação a um projeto de sociedade.

Sem memória, tampouco valorizamos nosso território. Festeja-se o Halloween, mas não se lembra a data de comemoração do nosso folclore. Papai Noel continua sendo apresentado com roupas de frio intenso em chaminés, num país tropical que não precisa de lareiras. Músicas caipiras são preteridas socialmente comparadas com o country, a língua estrangeira ensinada nas escolas é o Inglês, embora estejamos na América do Sul e os países vizinhos falem o espanhol... Enfim...São muitos exemplos que nos desterritorializam e assim, perdemos as chaves de nosso espaço. Sem entrada nessa casa, ficamos na calçada, num complexo de vira-lata, acreditando que pertencemos a cultura do “jeitinho brasileiro”, sem percebermos o quão violento é esse pensamento sobre nós, que nos coloca como desonestos, camuflando a corrupção das grandes corporações que saqueiam nossa terra.

 Por outro lado, a lacuna de nossa própria história e a falta de pertencimento não são superadas dependendo da nossa visão de mundo. Nesse sentido, é claro, que só os óculos por si só, não trariam a nitidez da imagem social, econômica e política-cultural. Se assim fosse, bastava que achássemos os óculos de sol encontrados pelo personagem do filme “Eles vivem”, o qual passa a enxergar os impactos da sociedade de consumo, o autoritarismo e as diversas mazelas do capitalismo.

Ampliar a perspectiva exige estudo, leitura, reflexão e coragem. Sim! Coragem! Porque psicologicamente também tendemos a trair nossa memória e selecionar eventos que nos trouxeram felicidade. Para tanto, precisamos da coragem para encarar nossos medos e criar repertório emocional suficiente para lidar com esse sentimento de modo que não se torne repetição, pela inoperância em se quebrar ciclos. O mesmo ocorre na vida em sociedade. Não adianta negar ou menosprezar os efeitos das guerras, ditaduras, invasões, colonizações sob o pretexto de já passou e que não importa mais. Necessita-se da coragem para rever essa história e optar por não a reproduzir.

Óculos são figurativos para representar nossa preocupação em ver melhor e para alargar nossa percepção sobre nós, os outros e espaços onde apenas nossa retina não daria conta. Conseguimos nos antecipar a um possível percurso ainda não percorrido, quando o conhecemos por vídeo, documentos, mapas e várias produções humanas, legados que foram deixados, treinando nosso olhar, para que ao encararmos de fato o caminho em si, ele se torne menos pedregoso, com possibilidade de mais pessoas percorrê-lo, imaginando inclusive o que pode vir a frente.

Por isso, não esquecer é uma condição para a manutenção de nossa humanidade. Mas, daí fica a pergunta: celular, chaves e óculos para qual tipo de memória e para construção de qual história?

Ana Paula Ferreira

Educadora e escritora

Texto publicado no Jornal da Cidade 24/01/2024


segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Pedalar e o pensar


Pedalo e o espaço vai se construindo
Entre eu, as duas rodas e o caminho
Penso e o tempo vai se expandindo
Entre eu, a mente e meu psíquico abrigo 
Pensamento ganha fôlego e segue
Entre as trilhas, pedregulhos e solavancos

Pensamento
Sobe ladeiras
Trepica em buracos
Se mantem na correia da bicicleta
Circulando...
Indo...
Voltando...

Ora está comigo
Preso na marcha leve ou pesada
Ora se esvaí
feito fumaça na estrada

Pedalar tem começo, meio e fim
Pensar não.
E nessa dificuldade em por linha de chegada
Tento por o pensamento no trajeto
Me fazendo lembrar 
A continuar o percurso

E penso...
Só vai... 


Para o novo ano: pedalar!



Para o novo ano: pedalar!!!

Equilibrar-se com movimento

Dilatar fronteiras do pensamento

Alegrar-se com frescor do vento

Lidar com imprevistos sem ressentimento

Apreciar a natureza num reconhecimento

Religar-se a um sonho com comprometimento



Ana Paula Ferreira


terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Serpenteando semelhanças

 



Cobras são excepcionais
Existem as medrosas,
que somem na escuridão
Existem as insolentes,
que se levantarão
mas sem veneno
significante

Tem as que silenciosamente
Seduzem
Se sentem superiores
Aproximam serenas
e nas suas insignificâncias
surpreendem.

Há a sinuosa
que se insinua sincera
Abraça no enlaço
mas nada mais faz
do que prender
movimentos e pulsações
até o desfalecimento.

Claro... há a venenosa.
Ataca
Injeta toxina
quando se sente ameaçada
Mas o interessante
É que seu veneno
Também pode ser cura.

E independente...
Algo entre elas é singular…
trocam de pele
e nessa troca,
quem sabe possam sair
de sua pele
sorrateiramente cínica

A poesia não é fotografia

 


A poesia não é fotografia

Na foto está o instante

O agora

O momento

Retido pelo flash

Independente

Se o cenário foi montado

Ou imediatamente capturado


A poesia vive na gente 

Durante minutos a fio

Minutos que podem virar horas

Horas que podem virar meses

É cabelo despenteado

Esperando uma escovação

É casa desarrumada 

Aguardando faxina


E daí que quando ela brota

Acha-se que veio da chuva de agorinha

Mas, não….

Ela estava em fio d’água

Embaixo da terra

Ansiosa por aparecer

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao


Distanciamento da profissão e do saber


Começo com uma pergunta: será que nós professores, profissionais que dominam determinada área do conhecimento, estamos em alguma medida distantes de nossa própria profissão? Uso como referência de reflexão um trecho do livro “O capital para educadores” de Vitor Paro, que resumo aqui. Imaginemos um bolo e que hipoteticamente pode ser preparado tanto em casa, quanto numa fábrica, havendo os mesmos instrumentos de trabalho (batedeira, fogão, assadeira), mesma matéria-prima (ovo, farinha, leite). Porém, em casa, o bolo é uma realização, uma extensão do sujeito, e na fábrica, como a motivação não é o bolo e sim o salário, esse mesmo trabalhador está apartado de seu produto.

Caso nossa maior motivação seja a salarial, ou a segurança no serviço público ou qualquer outro motivo alheio ao ato de ensinar, não nos reconhecemos de fato na ação docente. Se não nos identificamos com nossa aula, se ela é um produto já elaborado por outras instâncias, a aula vira o bolo de fábrica e não nos reconhecemos nesse produto. Um dos problemas é que não somente nos apartarmos de nossa importância social como também não nos reconhecermos na profissão.

            Uma amostra sobre essa relação com a profissão eu tive recentemente. Eu fiquei mais de 4 anos sem redes sociais. Para minha surpresa, quando retomei, observei que os colegas muitas vezes não se colocavam como professores, mas como vendedores de Tupperware, massagistas, músicos em banda de rock, produtores de cerveja, etc. Cabe frisar que não tem problema nossa identificação com outras áreas ou com passatempo que marquem nossa subjetividade. Aliás, é até compreensível, diante de governos que não pagam o piso e que empurram os profissionais da educação a assumirem outros meios de vida.

            Mas o que mais me impressiona é o fato do não reconhecimento com a profissão. Se a rede social é como se pretende ser visto, por que esse apagamento da imagem de professor? Nesse apagamento, mostramos que nem nós mesmos estamos aptos a valorizar o que somos, o que fazemos e depois questionamos a reduzida valorização social. Nesse apagamento nos distanciamos da luta trabalhista, não nos identificamos com os nossos pares, menosprezamos a greve ou qualquer luta pelos nossos direitos, afinal, estamos afastados da ideia de quem somos e de um compromisso perante o mundo.

            Em cima dessa dificuldade em assumir a identificação de docente ou de paixão pela área lecionada, para apenas ser um cumpridor de aulas, reforça-se essa mesma proposta entre os estudantes. Isso porque quando se deixa de encantar com as palavras, quando se perde a capacidade de atrair olhares para o objeto de estudo, viramos meros burocratas da educação e negociamos com os estudantes que a principal tarefa não é aprender, mas sim adquirir nota.

A nota é o salário do estudante no final do bimestre e nem sempre é sua identificação com o conhecimento, pois nem sempre se percebe como produtor de saber, de arte, de linguagem, de raciocínio. Se nosso discurso enfatiza que o estudante precisa “passar de ano” e deixamos de valorar que o saber é um instrumento poderoso contra as injustiças; se justificamos que o estudante precisa de bom desempenho para que a família não seja chamada na escola, em vez de enfatizar que o saber é liberdade, é autonomia, estamos aos poucos plantando a semente de uma postura dependente, subalterna, acrítica.

Desobscurecer nossa visão é algo contínuo, na qual o saber deve ser usado para nossa própria libertação enquanto sujeitos. Até porque, se buscamos seduzir a atenção de que o conhecimento é bom, ele também precisa ser bom para nós e perpassa mostrar disposição em ensinar e também em aprender. Lembrando inclusive que, a ausência de felicidade no salário do final do mês, não deixa de ser uma bandeira de resistência, entretanto não é por isso que vamos permitir a tristeza e a desesperança invadirem nossa aula ou nossa profissão.

Nossa profissão é ponte entre o aluno e o conhecimento e não podemos abrir mão de valorizar esse processo de humanização do qual somos parte fundamental. Na alegria de nos renovar com o aprendizado e na esperança em perceber olhos mais curiosos para o novo, vamos construindo a plenitude da autoafirmação profissional em comunhão com aulas que potencializem a criação, o amor ao saber e a liberdade em ser mais do que uma nota.

 

Ana Paula Ferreira
Texto publicado no Jornal da Cidade 05/12/2023 

domingo, 26 de novembro de 2023

Doce pela metade

 


Comer um doce de alguém pela metade

É forma de intimidade?

Me falaram que sim.

E se companheiro é quem partilha o pão

Então acabo de inventar

Que “condocenheiro” é quem divide o doce.

E continue assim...

A metade de cada um

Para formar um só doce

E um só doce para adoçar

A vida de duas pessoas que queiram (se) dividir.

 

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao

Refinar a dor? Não.




 Triste

Como a música Clair de lune de Debussy

Intensa

Com o grito animalesco saindo do fígado

Inteira

Na violência da dor que vinha das entranhas para garganta

 

Não se diluía

Pulou do trampolim na piscina da dor

E sentia

A raiva lhe dando forças para subir a superfície

 

Não estava fragmentada

Ela era uma caldeira vulcânica

De tristeza misturada com ira

Choro combinado com grito

Erupção de lava com toxidade

Que precisava ser liberada

 

Era produto bruto no seu sentir

Não queria ser lapidada

Era alimento integral

Precisava manter a casca

Recusava o refinamento

 

Refinar a dor para quê?

Para quem?

Era seu direito viver plenamente

O grito era sua palavra não verbal

Que saiu da boca

Para arrancar da alma

A ferida que poderia crescer.

 

 

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao