Equilibrar-se com movimento
Dilatar fronteiras do pensamento
Alegrar-se com frescor do vento
Lidar com imprevistos sem ressentimento
Apreciar a natureza num reconhecimento
Religar-se a um sonho com comprometimento
Ana Paula Ferreira
Um blog para refletir sobre a educação... lembrando que a educação é do dia-a-dia, está em tudo e em todo lugar.
Equilibrar-se com movimento
Dilatar fronteiras do pensamento
Alegrar-se com frescor do vento
Lidar com imprevistos sem ressentimento
Apreciar a natureza num reconhecimento
Religar-se a um sonho com comprometimento
Ana Paula Ferreira
Na foto está o instante
O agora
O momento
Retido pelo flash
Independente
Se o cenário foi montado
Ou imediatamente capturado
A poesia vive na gente
Durante minutos a fio
Minutos que podem virar horas
Horas que podem virar meses
É cabelo despenteado
Esperando uma escovação
É casa desarrumada
Aguardando faxina
E daí que quando ela brota
Acha-se que veio da chuva de agorinha
Mas, não….
Ela estava em fio d’água
Embaixo da terra
Ansiosa por aparecer
Ana Paula Ferreira
@ana.paula.educacao
Caso nossa maior motivação seja a salarial, ou a
segurança no serviço público ou qualquer outro motivo alheio ao ato de ensinar,
não nos reconhecemos de fato na ação docente. Se não nos identificamos com
nossa aula, se ela é um produto já elaborado por outras instâncias, a aula vira
o bolo de fábrica e não nos reconhecemos nesse produto. Um dos problemas é que
não somente nos apartarmos de nossa importância social como também não nos
reconhecermos na profissão.
Uma
amostra sobre essa relação com a profissão eu tive recentemente. Eu fiquei mais
de 4 anos sem redes sociais. Para minha surpresa, quando retomei, observei que
os colegas muitas vezes não se colocavam como professores, mas como vendedores
de Tupperware, massagistas, músicos em banda de rock, produtores de cerveja,
etc. Cabe frisar que não tem problema nossa identificação com outras áreas ou
com passatempo que marquem nossa subjetividade. Aliás, é até compreensível,
diante de governos que não pagam o piso e que empurram os profissionais da
educação a assumirem outros meios de vida.
Mas
o que mais me impressiona é o fato do não reconhecimento com a profissão. Se a
rede social é como se pretende ser visto, por que esse apagamento da imagem de
professor? Nesse apagamento, mostramos que nem nós mesmos estamos aptos a
valorizar o que somos, o que fazemos e depois questionamos a reduzida valorização
social. Nesse apagamento nos distanciamos da luta trabalhista, não nos
identificamos com os nossos pares, menosprezamos a greve ou qualquer luta pelos
nossos direitos, afinal, estamos afastados da ideia de quem somos e de um
compromisso perante o mundo.
Em
cima dessa dificuldade em assumir a identificação de docente ou de paixão pela
área lecionada, para apenas ser um cumpridor de aulas, reforça-se essa mesma
proposta entre os estudantes. Isso porque quando se deixa de encantar com as
palavras, quando se perde a capacidade de atrair olhares para o objeto de
estudo, viramos meros burocratas da educação e negociamos com os estudantes que
a principal tarefa não é aprender, mas sim adquirir nota.
A nota é o salário do estudante no final do
bimestre e nem sempre é sua identificação com o conhecimento, pois nem sempre
se percebe como produtor de saber, de arte, de linguagem, de raciocínio. Se
nosso discurso enfatiza que o estudante precisa “passar de ano” e deixamos de
valorar que o saber é um instrumento poderoso contra as injustiças; se
justificamos que o estudante precisa de bom desempenho para que a família não
seja chamada na escola, em vez de enfatizar que o saber é liberdade, é
autonomia, estamos aos poucos plantando a semente de uma postura dependente,
subalterna, acrítica.
Desobscurecer nossa visão é algo contínuo, na qual
o saber deve ser usado para nossa própria libertação enquanto sujeitos. Até
porque, se buscamos seduzir a atenção de que o conhecimento é bom, ele também
precisa ser bom para nós e perpassa mostrar disposição em ensinar e também em
aprender. Lembrando inclusive que, a ausência de felicidade no salário do final
do mês, não deixa de ser uma bandeira de resistência, entretanto não é por isso
que vamos permitir a tristeza e a desesperança invadirem nossa aula ou nossa
profissão.
Nossa profissão é ponte entre o aluno e o
conhecimento e não podemos abrir mão de valorizar esse processo de humanização
do qual somos parte fundamental. Na alegria de nos renovar com o aprendizado e
na esperança em perceber olhos mais curiosos para o novo, vamos construindo a
plenitude da autoafirmação profissional em comunhão com aulas que potencializem
a criação, o amor ao saber e a liberdade em ser mais do que uma nota.
Ana Paula Ferreira
Texto publicado no Jornal da Cidade 05/12/2023
Comer um doce de alguém pela metade
É forma de intimidade?
Me falaram que sim.
E se companheiro é quem partilha o pão
Então acabo de inventar
Que “condocenheiro” é quem divide o doce.
E continue assim...
A metade de cada um
Para formar um só doce
E um só doce para adoçar
A vida de duas pessoas que queiram (se) dividir.
Ana Paula Ferreira
@ana.paula.educacao
Como a música Clair de lune de Debussy
Intensa
Com o grito animalesco saindo do fígado
Inteira
Na violência da dor que vinha das entranhas para garganta
Não se diluía
Pulou do trampolim na piscina da dor
E sentia
A raiva lhe dando forças para subir a superfície
Não estava
fragmentada
Ela era uma
caldeira vulcânica
De tristeza
misturada com ira
Choro combinado
com grito
Erupção de lava
com toxidade
Que precisava ser
liberada
Era produto bruto no
seu sentir
Não queria ser lapidada
Era alimento
integral
Precisava manter a
casca
Recusava o
refinamento
Refinar a dor para
quê?
Para quem?
Era seu direito
viver plenamente
O grito era sua
palavra não verbal
Que saiu da boca
Para arrancar da
alma
A ferida que
poderia crescer.
Ana
Paula Ferreira
@ana.paula.educacao
- EU TÔ AQUI, não estou?
Quem está integralmente
Não precisa perguntar
Se há dúvida
É porque verdadeiramente
não está.
Carinho A
– BANDO
– na
-do
Beijo protocolar
Cansaço em casa
Mas a vida pública a chamar
A ausência vai crescendo
Ao ponto de nada mais ficar
E assim...
O luto vai fazendo morada na alma.
Ana
Paula Ferreira
@ana.paula.educacao
PARADA
Que
nem passageiro num ponto de ônibus.
ESTANCADA
Que
nem sangue coagulado.
Ela
se sentia PARADA
Não
seguia
O
semáforo estava vermelho
Por horas
Por dias
Por meses
E o
tempo trans
corria.
Tudo
tinha som
Mas
ela era silêncio
Ao
redor era tumulto
Porém
ela era só um organismo
No
entorno barulho
E
dentro dela um a
bis
mo.
Estava
tão ESTANCADA
Que
parecia que não tinha pulso
O
olhar era opaco
A
própria respiração não se ouvia
O
músculo não tinha nervos
A
pele era apatia.
Outrora
era gargalhada
Hoje
pela cama se estendia
Antes
era samba
Nesse
momento melancolia
Era
conhecida pelos seus planos
Agora
era sala vazia.
Ana
Paula Ferreira
@ana.paula.educacao
Mas
o que isso se assemelha ao trabalho docente? Se estamos dando aula praticamente
do mesmo jeito que 20 anos atrás, se pretendemos nos relacionar com os nossos
estudantes do mesmo modo que 20 anos atrás, estamos escravos de um destino. E o
problema é que não houve um deus que fez isso, mas uma autocondenação, que traz
esse peso da rocha para costas, deixando a marca do mal humor, da dor, apatia,
sem vontade de fazer mais nada a não ser empurrar o ensino até o final do ano e
no seguinte fazer a mesma coisa. Ora, e por que isso é um castigo? Porque nos
desumaniza, nos retira um dos elementos pelos quais nos diferenciamos dos
outros seres vivos que é a criação.
Não
há dúvida que na natureza encontramos engenharias perfeitas. A abelha faz a
colmeia maravilhosamente bem, a formiga monta andares de formigueiro e a aranha
tece a teia com toda uma distribuição uniforme de linhas. Contudo, estão
programadas geneticamente a fazerem isso. Nós seres humanos não. Nos lançamos
para o futuro no nosso processo criativo e podemos fazer inúmeras façanhas...
escrever uma poesia, cantar uma música, preparar um jantar, consertar um
chuveiro, cuidar do jardim.
Se
estamos nesse lugar de docência, é porque houve uma escolha. E o professor não
precisa abrir mão de quem é. Não precisamos nos abandonar. Aliás, a escola
pública se faz nessa beleza do encontro com a pluralidade e o professor que
também é músico, pode em algumas aulas ensinar com melodias; o professor que
gosta de artesanato, pode se valer de em determinadas situações ensinar a
preparar jogos pedagógicos e assim por diante. Nisso vamos criando o gosto pelo
aprendizado, no encontro com nossa autenticidade e fugindo de um perfil inflexível
característico da Síndrome da Gabriela, “eu nasci assim, eu cresci assim, eu
sou mesmo assim... Gabriela”.
Criar
a potência para aprender é o que caracteriza a alegria crítica. Esse termo é
utilizado pelo professor Celso Vasconcelos para enfatizar que a alegria de
estar na escola por parte dos alunos não pode se restringir ao horário do
recreio. Alegria aqui não é palhaçada, zoação e professor não precisa ser
comediante. Alegria é no sentido de energia, de uma aula que motive o
aprendizado ao ponto de os estudantes manifestarem a satisfação em realizar uma
equação, escrever um bom texto ou conseguir falar em público.
Nesse
afeto, diante do vínculo manifesto pelo incentivo de ir além da concretude, é
uma das razões também da educação escolar. Na criação desse afeto, criamos
condições de nos humanizar em comunhão, característica nossa que não podemos
abrir mão, pois embora haja muita informação na internet, ela ainda não
substitui a relação professor e aluno. Até porque na internet pode haver o
objeto do conhecimento, mas nada ou muito pouco se saberá sobre quem é esse
internauta, e, portanto, seu modo de vida, percepções, sensos comuns não serão
trazidos como ponto de início na jornada do conhecimento.
Além
do papel do professor ser diferente do comediante e da internet, é diferente do
apresentador de jornal. Na educação a formação é contínua e o mesmo conteúdo é
visto sob vários ângulos e em vários momentos da vida escolar, justamente
porque exige sistematização do saber para que haja um aprofundamento sobre
aquele objeto do conhecimento. Difere do Jornal Nacional que um dia fala de
terremoto na Turquia, no outro sobre guerra na Palestina e no outro sobre a
final de um campeonato, mas não exige contextualização, compreensão histórica
dos fatos, tudo é rápido e instantâneo para ser digerido, tal como um Nissin
Miojo.
Portanto,
ser professor difere de uma repetição de Sísifo, mecânica, acrítica, mas também
deve fugir da elaboração de macarrão instantâneo, raso, sem nutriente, sem
sustança, que trata de forma pontual o que deveria ser sistematicamente
digerido. De pouco adianta semanas abarrotadas de palestras, aulas “blitz”, cada
uma sobre uma coisa, sem relação com o currículo que está sendo trabalhado ou
sem o compromisso com uma realidade social verdadeiramente democrática.
Afinal,
educação deve existir para empoderar os estudantes com conhecimentos que
dificilmente viriam em suas casas, verdadeiros legados da humanidade e que
temos como princípio democrático torna-los acessível de modo que sirvam como
processo humanizatório e de instrumento de luta para uma sociedade justa.
Para
isso, devemos lembrar, portanto, que nosso papel é duplo: ter conhecimento
sobre nossa área do saber e de ser especialista em gente. Se o marceneiro
transforma a madeira em mesa, o pedreiro transforma cimento e tijolos em casa,
nosso trabalho é a transformação do aluno na sua melhor versão, física,
intelectual, moral, política, social, mediante a nossa arte do encontro, com o
estudante e com o saber.
Ana
Paula Ferreira
Mestre em Educação
Texto publicado no Jornal da Cidade, 17 de novembro de 2023 e também no link abaixo.
https://www.jornaldacidade1.com.br/ser-professor-nem-sisifo-nem-nissin-miojo-ana-paula-ferreira/
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Porque assim como o pão tem que ser de cada dia, também a educação está no nosso cotidiano, nas nossas ações, na nossa formação.
Educação num sentido amplo, não só de escolarização, mas de humanização, de conhecer o que nos foi deixado pelo legado histórico, de apropriar do que a humanidade produziu e buscar trazer releituras, recontos, novas perspectivas, aumentar um ponto, enfim... mostrar que a educação está em vários momentos da vida: no nosso desenvolvimento, na de nossos filhos, de nossos alunos, da sociedade.
Da mesma forma que o trigo precisa ser debulhado para depois ser pão, o conhecimento precisa ser trabalhado para se constituir em saber. Não vivemos sem pão, sem o alimento para o corpo, porém não nos suprimos sem o conhecimento, pois o tempo todo nos defrontamos com escolhas e com a necessidade de intervir sobre as coisas existentes.
O trigo não basta! É preciso pão!
A concretude não basta! É preciso ir além do palpável e do visível!
Por isso não vivemos sem educação. Não comemos, não vestimos, não habitamos, não sonhamos sem educação.
E daí o fato de precisarmos nos apoderar do saber para termos mais controle sobre o que comer, o que vestir, onde morar e o que sonhar , pois caso contrário estaremos vivendo de forma rasa, superficial, uma vez que sempre haverá alguém para querer pensar por nós.
Ana Paula Ferreira
Outubro de 2015