Páginas

segunda-feira, 15 de janeiro de 2024

Para o novo ano: pedalar!



Para o novo ano: pedalar!!!

Equilibrar-se com movimento

Dilatar fronteiras do pensamento

Alegrar-se com frescor do vento

Lidar com imprevistos sem ressentimento

Apreciar a natureza num reconhecimento

Religar-se a um sonho com comprometimento



Ana Paula Ferreira


terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Serpenteando semelhanças

 



Cobras são excepcionais
Existem as medrosas,
que somem na escuridão
Existem as insolentes,
que se levantarão
mas sem veneno
significante

Tem as que silenciosamente
Seduzem
Se sentem superiores
Aproximam serenas
e nas suas insignificâncias
surpreendem.

Há a sinuosa
que se insinua sincera
Abraça no enlaço
mas nada mais faz
do que prender
movimentos e pulsações
até o desfalecimento.

Claro... há a venenosa.
Ataca
Injeta toxina
quando se sente ameaçada
Mas o interessante
É que seu veneno
Também pode ser cura.

E independente...
Algo entre elas é singular…
trocam de pele
e nessa troca,
quem sabe possam sair
de sua pele
sorrateiramente cínica

A poesia não é fotografia

 


A poesia não é fotografia

Na foto está o instante

O agora

O momento

Retido pelo flash

Independente

Se o cenário foi montado

Ou imediatamente capturado


A poesia vive na gente 

Durante minutos a fio

Minutos que podem virar horas

Horas que podem virar meses

É cabelo despenteado

Esperando uma escovação

É casa desarrumada 

Aguardando faxina


E daí que quando ela brota

Acha-se que veio da chuva de agorinha

Mas, não….

Ela estava em fio d’água

Embaixo da terra

Ansiosa por aparecer

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao


Distanciamento da profissão e do saber


Começo com uma pergunta: será que nós professores, profissionais que dominam determinada área do conhecimento, estamos em alguma medida distantes de nossa própria profissão? Uso como referência de reflexão um trecho do livro “O capital para educadores” de Vitor Paro, que resumo aqui. Imaginemos um bolo e que hipoteticamente pode ser preparado tanto em casa, quanto numa fábrica, havendo os mesmos instrumentos de trabalho (batedeira, fogão, assadeira), mesma matéria-prima (ovo, farinha, leite). Porém, em casa, o bolo é uma realização, uma extensão do sujeito, e na fábrica, como a motivação não é o bolo e sim o salário, esse mesmo trabalhador está apartado de seu produto.

Caso nossa maior motivação seja a salarial, ou a segurança no serviço público ou qualquer outro motivo alheio ao ato de ensinar, não nos reconhecemos de fato na ação docente. Se não nos identificamos com nossa aula, se ela é um produto já elaborado por outras instâncias, a aula vira o bolo de fábrica e não nos reconhecemos nesse produto. Um dos problemas é que não somente nos apartarmos de nossa importância social como também não nos reconhecermos na profissão.

            Uma amostra sobre essa relação com a profissão eu tive recentemente. Eu fiquei mais de 4 anos sem redes sociais. Para minha surpresa, quando retomei, observei que os colegas muitas vezes não se colocavam como professores, mas como vendedores de Tupperware, massagistas, músicos em banda de rock, produtores de cerveja, etc. Cabe frisar que não tem problema nossa identificação com outras áreas ou com passatempo que marquem nossa subjetividade. Aliás, é até compreensível, diante de governos que não pagam o piso e que empurram os profissionais da educação a assumirem outros meios de vida.

            Mas o que mais me impressiona é o fato do não reconhecimento com a profissão. Se a rede social é como se pretende ser visto, por que esse apagamento da imagem de professor? Nesse apagamento, mostramos que nem nós mesmos estamos aptos a valorizar o que somos, o que fazemos e depois questionamos a reduzida valorização social. Nesse apagamento nos distanciamos da luta trabalhista, não nos identificamos com os nossos pares, menosprezamos a greve ou qualquer luta pelos nossos direitos, afinal, estamos afastados da ideia de quem somos e de um compromisso perante o mundo.

            Em cima dessa dificuldade em assumir a identificação de docente ou de paixão pela área lecionada, para apenas ser um cumpridor de aulas, reforça-se essa mesma proposta entre os estudantes. Isso porque quando se deixa de encantar com as palavras, quando se perde a capacidade de atrair olhares para o objeto de estudo, viramos meros burocratas da educação e negociamos com os estudantes que a principal tarefa não é aprender, mas sim adquirir nota.

A nota é o salário do estudante no final do bimestre e nem sempre é sua identificação com o conhecimento, pois nem sempre se percebe como produtor de saber, de arte, de linguagem, de raciocínio. Se nosso discurso enfatiza que o estudante precisa “passar de ano” e deixamos de valorar que o saber é um instrumento poderoso contra as injustiças; se justificamos que o estudante precisa de bom desempenho para que a família não seja chamada na escola, em vez de enfatizar que o saber é liberdade, é autonomia, estamos aos poucos plantando a semente de uma postura dependente, subalterna, acrítica.

Desobscurecer nossa visão é algo contínuo, na qual o saber deve ser usado para nossa própria libertação enquanto sujeitos. Até porque, se buscamos seduzir a atenção de que o conhecimento é bom, ele também precisa ser bom para nós e perpassa mostrar disposição em ensinar e também em aprender. Lembrando inclusive que, a ausência de felicidade no salário do final do mês, não deixa de ser uma bandeira de resistência, entretanto não é por isso que vamos permitir a tristeza e a desesperança invadirem nossa aula ou nossa profissão.

Nossa profissão é ponte entre o aluno e o conhecimento e não podemos abrir mão de valorizar esse processo de humanização do qual somos parte fundamental. Na alegria de nos renovar com o aprendizado e na esperança em perceber olhos mais curiosos para o novo, vamos construindo a plenitude da autoafirmação profissional em comunhão com aulas que potencializem a criação, o amor ao saber e a liberdade em ser mais do que uma nota.

 

Ana Paula Ferreira
Texto publicado no Jornal da Cidade 05/12/2023 

domingo, 26 de novembro de 2023

Doce pela metade

 


Comer um doce de alguém pela metade

É forma de intimidade?

Me falaram que sim.

E se companheiro é quem partilha o pão

Então acabo de inventar

Que “condocenheiro” é quem divide o doce.

E continue assim...

A metade de cada um

Para formar um só doce

E um só doce para adoçar

A vida de duas pessoas que queiram (se) dividir.

 

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao

Refinar a dor? Não.




 Triste

Como a música Clair de lune de Debussy

Intensa

Com o grito animalesco saindo do fígado

Inteira

Na violência da dor que vinha das entranhas para garganta

 

Não se diluía

Pulou do trampolim na piscina da dor

E sentia

A raiva lhe dando forças para subir a superfície

 

Não estava fragmentada

Ela era uma caldeira vulcânica

De tristeza misturada com ira

Choro combinado com grito

Erupção de lava com toxidade

Que precisava ser liberada

 

Era produto bruto no seu sentir

Não queria ser lapidada

Era alimento integral

Precisava manter a casca

Recusava o refinamento

 

Refinar a dor para quê?

Para quem?

Era seu direito viver plenamente

O grito era sua palavra não verbal

Que saiu da boca

Para arrancar da alma

A ferida que poderia crescer.

 

 

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao

 

- EU TÔ AQUI, não estou?

 



- EU TÔ AQUI, não estou?

Quem está integralmente

Não precisa perguntar

Se há dúvida

É porque verdadeiramente não está.

Carinho A – BANDO – na -do

Beijo protocolar

Cansaço em casa

Mas a vida pública a chamar

A ausência vai crescendo 

Ao ponto de nada mais ficar

E assim...

O luto vai fazendo morada na alma.


 

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao

PARADA, ESTANCADA

 


PARADA

Que nem passageiro num ponto de ônibus.

ESTANCADA

Que nem sangue coagulado.

 

Ela se sentia PARADA

Não seguia

O semáforo estava vermelho

Por horas

Por dias

Por meses

E o tempo trans

corria.

Tudo tinha som

Mas ela era silêncio

Ao redor era tumulto

Porém ela era só um organismo

No entorno barulho

E dentro dela um            a

bis

mo.

 

 

Estava tão ESTANCADA

Que parecia que não tinha pulso

O olhar era opaco

A própria respiração não se ouvia

O músculo não tinha nervos

A pele era apatia.

Outrora era gargalhada

Hoje pela cama se estendia

Antes era samba

Nesse momento melancolia

Era conhecida pelos seus planos

Agora era sala vazia.

 

Ana Paula Ferreira

@ana.paula.educacao

sábado, 18 de novembro de 2023

Ser professor: nem Sísifo nem Nissin Miojo

 


Começo parodiando Simone de Beauvoir “Não nascemos professores. Nos tornamos professores” haja vista que é um movimento contínuo que exige mudança, ressignificação, reflexão, novas práticas. E se é para falar de mudança, é interessante o mito de Sísifo. Diz a história que ele foi um homem muito esperto que conseguiu em vários momentos enganar os deuses, trazendo para si a ira deles. Daí, quando morreu, foi condenado a empurrar uma rocha até o topo da montanha e assim que ela rolasse, ele repetiria o mesmo procedimento pela eternidade, evidenciando que o castigo é a repetição.

Mas o que isso se assemelha ao trabalho docente? Se estamos dando aula praticamente do mesmo jeito que 20 anos atrás, se pretendemos nos relacionar com os nossos estudantes do mesmo modo que 20 anos atrás, estamos escravos de um destino. E o problema é que não houve um deus que fez isso, mas uma autocondenação, que traz esse peso da rocha para costas, deixando a marca do mal humor, da dor, apatia, sem vontade de fazer mais nada a não ser empurrar o ensino até o final do ano e no seguinte fazer a mesma coisa. Ora, e por que isso é um castigo? Porque nos desumaniza, nos retira um dos elementos pelos quais nos diferenciamos dos outros seres vivos que é a criação.

Não há dúvida que na natureza encontramos engenharias perfeitas. A abelha faz a colmeia maravilhosamente bem, a formiga monta andares de formigueiro e a aranha tece a teia com toda uma distribuição uniforme de linhas. Contudo, estão programadas geneticamente a fazerem isso. Nós seres humanos não. Nos lançamos para o futuro no nosso processo criativo e podemos fazer inúmeras façanhas... escrever uma poesia, cantar uma música, preparar um jantar, consertar um chuveiro, cuidar do jardim.

Se estamos nesse lugar de docência, é porque houve uma escolha. E o professor não precisa abrir mão de quem é. Não precisamos nos abandonar. Aliás, a escola pública se faz nessa beleza do encontro com a pluralidade e o professor que também é músico, pode em algumas aulas ensinar com melodias; o professor que gosta de artesanato, pode se valer de em determinadas situações ensinar a preparar jogos pedagógicos e assim por diante. Nisso vamos criando o gosto pelo aprendizado, no encontro com nossa autenticidade e fugindo de um perfil inflexível característico da Síndrome da Gabriela, “eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim... Gabriela”.

Criar a potência para aprender é o que caracteriza a alegria crítica. Esse termo é utilizado pelo professor Celso Vasconcelos para enfatizar que a alegria de estar na escola por parte dos alunos não pode se restringir ao horário do recreio. Alegria aqui não é palhaçada, zoação e professor não precisa ser comediante. Alegria é no sentido de energia, de uma aula que motive o aprendizado ao ponto de os estudantes manifestarem a satisfação em realizar uma equação, escrever um bom texto ou conseguir falar em público.

Nesse afeto, diante do vínculo manifesto pelo incentivo de ir além da concretude, é uma das razões também da educação escolar. Na criação desse afeto, criamos condições de nos humanizar em comunhão, característica nossa que não podemos abrir mão, pois embora haja muita informação na internet, ela ainda não substitui a relação professor e aluno. Até porque na internet pode haver o objeto do conhecimento, mas nada ou muito pouco se saberá sobre quem é esse internauta, e, portanto, seu modo de vida, percepções, sensos comuns não serão trazidos como ponto de início na jornada do conhecimento.

Além do papel do professor ser diferente do comediante e da internet, é diferente do apresentador de jornal. Na educação a formação é contínua e o mesmo conteúdo é visto sob vários ângulos e em vários momentos da vida escolar, justamente porque exige sistematização do saber para que haja um aprofundamento sobre aquele objeto do conhecimento. Difere do Jornal Nacional que um dia fala de terremoto na Turquia, no outro sobre guerra na Palestina e no outro sobre a final de um campeonato, mas não exige contextualização, compreensão histórica dos fatos, tudo é rápido e instantâneo para ser digerido, tal como um Nissin Miojo.

Portanto, ser professor difere de uma repetição de Sísifo, mecânica, acrítica, mas também deve fugir da elaboração de macarrão instantâneo, raso, sem nutriente, sem sustança, que trata de forma pontual o que deveria ser sistematicamente digerido. De pouco adianta semanas abarrotadas de palestras, aulas “blitz”, cada uma sobre uma coisa, sem relação com o currículo que está sendo trabalhado ou sem o compromisso com uma realidade social verdadeiramente democrática.  

Afinal, educação deve existir para empoderar os estudantes com conhecimentos que dificilmente viriam em suas casas, verdadeiros legados da humanidade e que temos como princípio democrático torna-los acessível de modo que sirvam como processo humanizatório e de instrumento de luta para uma sociedade justa.

Para isso, devemos lembrar, portanto, que nosso papel é duplo: ter conhecimento sobre nossa área do saber e de ser especialista em gente. Se o marceneiro transforma a madeira em mesa, o pedreiro transforma cimento e tijolos em casa, nosso trabalho é a transformação do aluno na sua melhor versão, física, intelectual, moral, política, social, mediante a nossa arte do encontro, com o estudante e com o saber.  

 

Ana Paula Ferreira

Mestre em Educação

 

Texto publicado no Jornal da Cidade, 17 de novembro de 2023 e também no link abaixo. 

https://www.jornaldacidade1.com.br/ser-professor-nem-sisifo-nem-nissin-miojo-ana-paula-ferreira/