Educação nossa de cada dia
Um blog para refletir sobre a educação... lembrando que a educação é do dia-a-dia, está em tudo e em todo lugar.
terça-feira, 14 de janeiro de 2025
terça-feira, 5 de novembro de 2024
Controlar é colonizar
Vicente, meu irmão, sempre foi uma pessoa calma, contemplativo, do tipo que gosta de se deslocar a pé ou de bicicleta. Contudo, começou a trabalhar num local que dista nove quilômetros da sua casa e eu como irmã mais velha fiquei preocupada de talvez ele estar se esforçando demais para ir e voltar pedalando.
O que fiz? Convenci de que era melhor ter
uma moto. Ele queria? Não! Eu achei que era insegurança, medo de ousar, falta
de perspectiva de futuro, ausência de ambição e que era necessário da minha
parte incentivá-lo, buscar que vivesse para além do tempo presente.
Consequência: a moto está no quintal com uma capa de chuva para protegê-la e
meu irmão continua se transportando de bicicleta.
Ele não precisou falar nada verbalmente,
mas percebi o quanto minha postura foi colonizadora. Avancei sobre o território
de decisão dele, tal qual a Europa fez no mundo e considerei que a visão dele era
errada, e, portanto, precisava ser superada.
Quantas coisas me passaram na cabeça com
essa história e que compartilho aqui. Uma delas é o documentário “Escolarizando
o mundo: o último legado do homem branco”, no qual é apresentada a ideia do
quanto uniformizamos a educação num modelo ocidental, de produtividade, na
arrogância que povos tradicionais necessitam de uma civilização.
Freud já dizia sobre o mal-estar na
civilização que oprime nossos desejos e subjetividades, trazendo inúmeras
infelicidades. Diante de uma sociedade que gira em torno do capital, do
mercado, ludibria-se que a liberdade está na aquisição de uma moto, transformando
um desejo autêntico (liberdade) em um desejo de consumo. Daí nos aprisionamos
num trabalho alienado a fim de pagar uma dívida adquirida e depois de um tempo
novamente volta a ausência de sentido, pois o consumo não preenche esse vazio.
Por isso, grupos originários não são bem
vistos pelo sistema. Não são bárbaros, mas quebram a lógica de consumo de
“corrida para vender cigarro e cigarro para vender remédio”, tal qual cantava
Engenheiros do Hawaii. Vicente também rompe com essa ordem e não precisa gastar
nem com moto, nem com academia porque não cedeu ao controle social e assim,
permanece conectado com seu próprio ritmo e sem palavras, me fez refletir que
embora eu defenda a liberdade, fui controladora, mesmo que eu critique o
capitalismo, segui a bula produtivista.
O controle é colonizador. Em busca de uma
produção insana, coloniza-se a terra, a natureza, os seres humanos, os corpos,
as mentes. Aumenta-se exorbitantemente o lucro de alguns perante a baixa
qualidade de vida da maioria da população que fica apartada de usa história,
cultura, escolhas. O controle é o anabolizante para aumentar artificialmente os
músculos; é o fertilizante químico que força as plantas no seu crescimento; é o
hormônio aplicado nas vacas para geração de mais leite. Controlar é aumentar a
velocidade de modo alucinado, ao ponto de nos enchermos de afazeres e estarmos
na “sociedade do cansaço”.
O contraponto do controle é o respeito ao
ritmo da natureza, ao ritmo alheio e ao nosso próprio ritmo, tal qual a
pulsação que precisa de uma batida regular, para manter a vida. A observância
desse ritmo traria uma educação mais atenta aos próprios estudantes para
resgatar sua história e encorajá-los na resistência frente a monocultura
curricular; contribuiria para uma sociedade que primasse pela preservação
ambiental; acolheria as diversas formas de olhar o mundo como uma riqueza que
temos para humanidade.
Controlar é minar escolhas, é diminuir o
potencial criativo, é seguir na arbitrariedade de decidir pelo outro. Que eu
consiga me lembrar disso, potencializando a autonomia e evitando outros tipos
de motos guardadas na garagem.
Ana Paula Ferreira
Educadora
Texto também publicado no Jornal da Cidade, 05 de novembro de 2024.
segunda-feira, 9 de setembro de 2024
Mulher na política
Entrevista sobre a importância da mulher na política
https://globoplay.globo.com/v/12849425/
terça-feira, 6 de agosto de 2024
Quanto vale ou é por quilo?
Antes de situarmos o cenário de Minas, preciso
explicar o título. “Quanto vale ou é por quilo?” é um filme de Sérgio Bianchi e
traz a analogia entre a atualidade e o passado escravocrata de vidas tratadas
como mercadoria. A comparação é perspicaz, pois identifica o lucrativo comércio
de escravizados no período colonial e põe holofote em tempos atuais com a saga
de diversas instituições e Organizações Não Governamentais (ONGs) que buscam
sua fonte de riqueza mediante a pobreza alheia.
Uma
história é ambientada no século XVIII de uma escrava fugitiva, capturada pelo
capitão do mato e, depois, num corte cronológico, há cenas contemporâneas de
uma funcionária de ONG que corre perigo quando descobre o superfaturamento dos
computadores do Projeto. Nesse sentido, em ambas situações o Estado é um aliado
da elite econômica, a qual dita as regras, seja em relação à escravidão, seja
em relação ao espaço aberto para as instituições privadas.
Aliás,
para satirizar o quanto as ricas senhoras ganham com a imagem de benfeitoria
sobre os pobres, a capa do filme ilustra uma grã-fina, com seu porte elegante e
sorriso de ostentação, e ao seu redor, crianças miseráveis pressionadas a posar
para foto com os brinquedinhos descartáveis que acabaram de ganhar. Figura
similar com a de governadores que se ajeitam em suas gravatas e ternos,
centralizando-se em fotos na qual estudantes ficam a margem, enquanto as
escolas são paulatinamente cada vez mais geridas por Organização da Sociedade
Civil (OSC), em Projetos que não “Somam” em nada.
O
que significa na prática essa entrada agressiva das OSCs? Tem-se vários
impactos que cabem ser mencionados. Um deles é a falta de transparência na
contratação e na demissão, já que o vínculo passa a ser com a organização e não
mais com o Estado. Nas escolas isso é visível na contratação de empresas para
gerir a limpeza, parte administrativa e até mesmo a gestão escolar. Isso por si
só já é um problema grave, pois a estabilidade para funcionários públicos é
justamente para garantir a permanência do serviço prestado independentemente se
houver a troca de poder no governo. Portanto, deixar esse contrato nas mãos das
OSCs não se trata apenas da demissão de servidores que não compactuam com o
governo eleito, mas a ausência da continuidade de política pública. E sim...
nessa lógica, todos usuários do serviço público saem perdendo.
Outro
problema da presença das OSCs na educação é a fragilidade de uma gestão
democrática. Escola é espaço de decisão política! Decidimos sobre metodologias,
organização do planejamento, parcerias, formações pedagógicas, e tudo isso é
uma decisão política entre acolher ou excluir, comprometer ou cumprir ordens, pensar
na educação como bem comum ou como trampolim social. Quando a gestão é eleita,
houve o reconhecimento por parte da equipe, uma confiança depositada num
trabalho que julgaram como bom. Nesse sentido, se torna mais fácil a cobrança
de cumprimento de um plano de gestão, ou de uma coerência entre o que se
discursava e o que se cumpre. O problema de uma gestão não eleita é que carrega
esse peso colonial, do autoritarismo, do não diálogo, do “obedeça” transcrita em
metas infindáveis e “validadas” por avaliações externas. E sim... há uma ênfase
numa gestão gerencial.
E
aliás, esse é outro impacto, pois o gerenciamento escolar por parte de uma OSC
o critério deixa de ser pedagógico para ser empresarial. A equipe vai aos
poucos deixando de olhar para sua comunidade e passa a olhar números, trazidos
por avaliações que traçam critérios de eficiência como se a escola tivesse que
sozinha, fazer “mudança de rotas” diante do feedback dos dados. E sim...
o discurso vai se tornando mercadológico e cheio de estrangeirismo.
Trazem
conceitos do mundo corporativo porque as OSCs estão entrelaçadas a empresas
privadas, mas se utilizam de recursos públicos para sua manutenção. Verbas, tal
qual o FUNDEB, que seriam destinadas diretamente para escola pública, custeiam
o funcionamento desses intermediários cujo objetivo é o lucro e, portanto, a
formação republicana com vistas a cidadania e de aquisição de um saber comum, fica
de escanteio. Em Poços de Caldas,
exemplo disso é o pagamento de mensalidades a unidades privadas da Educação
Infantil ao invés de mais vagas no setor público.
Neste
ínterim, professores continuam sem o piso salarial e é frequente o adoecimento
profissional, consequência de acúmulos de aula. Rema-se assim na direção
contrária de Estados de Bem-Estar social que possuem em média o dobro de
servidores públicos e valorizam financeiramente seus docentes, sob a lógica de
se dedicarem a só uma escola e, portanto, construção de mais vínculo e
continuidade de um trabalho com aquela comunidade atendida.
Mas,
será que isso importa? Quanto vale a nossa vida profissional ou dos e das
estudantes? Ou será que é calculada em quilo?
Ana
Paula Ferreira
Mestre em Educação e servidora da rede estadual
Texto também publicado no Jornal da Cidade do dia 09/08/2024 e no link
https://www.jornaldacidade1.com.br/quanto-vale-ou-e-por-quilo/#:~:text=Uma%20hist%C3%B3ria%20%C3%A9%20ambientada%20no,superfaturamento%20dos%20computadores%20do%20Projeto.
sexta-feira, 24 de maio de 2024
Pedagoga e o compromisso de conduzir a educação
Vou colocar no feminino o nome da profissão, pois sabemos que essa tem a questão de gênero bem demarcada: é feita principalmente por mulheres! Pedagoga é a profissional que investiga, elabora, realiza práticas educativas que podem ocorrer em diversos espaços e não apenas o escolar. Isso porque enquanto seres humanos, somos animais políticos, sociais, construtores de cultura, de linguagem. Além da nossa capacidade de criar casas, poesias, tecnologias e várias outras coisas, podemos também ensinar e é dessa maravilha de partilhar saberes que a pedagoga se ocupa, possibilitando que as novas gerações se apropriem e recriem do que foi construído pelas gerações que as precederam.
Não é sem razão que a origem da
palavra é paidós (criança) e agogé (condução), para se referir às pessoas que
acompanhavam os mais novos até a escola. Essa cena da condução é muito
simbólica, pois é possível imaginar lá na Grécia Antiga, palco da etimologia da
palavra, a figura de um adulto guiando, orientando a criança para ela chegar a
seu destino, que é justamente o espaço privilegiado do saber, do conhecimento.
Significa dar autonomia, de estar perto no seu período de desenvolvimento, mas
sem sufocar; de ajudar nas trilhas do saber, mas sem infantilizar; de
democratizar o que foi produzido pela humanidade.
Nessa relação já existente entre o
ensinar e o aprender, o desenvolvimento da criança e o contexto a que pertence;
a pedagoga alia conhecimentos da psicologia com a sociologia; de visão de
indivíduo, sem abrir mão de visão de mundo, entendendo que as coisas funcionam
na mão de via dupla, na partilha, na troca seja entre pessoas, seja entre
áreas. E por isso, que mesmo diante de uma sociedade ocidental que fez tanto
apelo a um pensamento binário, que tanto valorizou um ponto em detrimento a
outro, a Pedagogia traz em sua formação as condições de combinações, como se
misturasse bem um ingrediente com o outro. Não joga tempero apenas às ciências,
pois compreende o papel de sensibilização da arte, nem tampouco enaltece
ciências da natureza, porque sabe que de pouco adianta desenvolvimento
tecnológico sem desenvolvimento humano.
Durante esse percurso ao
conhecimento pedagoga equilibra pratos sem deixá-los cair, como se fosse uma
malabarista. Traz a tradição do currículo, mas se coloca à disposição para as
novidades trazidas pelos estudantes; cuida e educa; junta afeto com razão; alia
o conhecimento erudito com o popular; ensina a leitura da palavra, levando em
conta a leitura de mundo; faz tecitura do saber global com o local; atua num
presente, com crianças, jovens, adultos, mas sem perder o foco de um plano de
futuro.
Lógico que para isso acontecer, o
trabalho não é de apagar fogo. Discursos que romantizam tempo dispendido apenas
em separar brigas, acudir aluno que passou mal ou família que precisou ser
atendida de última hora, estão negando a fundamentação da práxis pedagógica
entre o pensar e o fazer, o planejar e o realizar. E justamente pelo fato disso
exigir estudo, reflexão, que pesquisadores como Libâneo defendem que a
Pedagogia deva ser compreendida como “ciência da educação”, pois não basta
lecionar, é necessário investigar as razões da dificuldade de aprendizagem; não
basta acatar o que o diz o Conselho de classe, mas questionar os métodos de
avaliação e didática que se mostram excludentes. Tampouco não adianta ter
leveza no cotidiano escolar, quando não se questiona as amarras de opressão
feitas na escola ou contra a escola. Como defende o professor Celso
Vasconcelos... é preciso sim da alegria, mas de uma alegria crítica.
Se por um lado não cabe a
romantização, pois dociliza as microviolências sob roupagem de felicidade, no
planejamento pedagógico é necessário o processo de desnaturalização, e daí a
importância de acompanhar e reivindicar políticas públicas eficientes. Assim
sendo, questionar as vagas insuficientes na Educação Infantil, a normalização
de 45 alunos na sala de aula, a ausência de transporte escolar que acaba incidindo
na evasão ou a falta do pagamento do piso salarial que implica que os
professores trabalhem com mais turmas e, portanto, tenham menos tempo de se
dedicar a apenas uma comunidade escolar.
À medida que o espaço se amplia, da sala
de aula, para a gestão de uma escola ou para o trabalho em uma secretaria de
educação, o trabalho de equilíbrio continua o mesmo, porém muda a quantidade de
fatores que precisam ser observados a uma só vez. Orquestrar não é tarefa
fácil. É mais cômodo deixar a banda tocar. Por outro lado, sem a mediação a
banda vai desafinando, porque a harmonia entre os instrumentos de corda, de
madeira, de metal ou de percussão precisam de uma condução, da mesma forma que
na relação entre estudantes, professores, direção, funcionários
administrativos, famílias, há a necessidade de uma liderança para não se perder
o foco no aprendizado. A questão é: a pedagogia ao conduzir para o acesso a
pensamento científico, artístico ou linguístico será apenas para um grupo
privilegiado ou para todos?
Na resposta estão a ideologia e o caminho
que tomaremos.
Ana
Paula Ferreira
Pedagoga egressa da UEMG,
quarta-feira, 22 de maio de 2024
Aniversário
Bom demais fazer aniversário!
É como se abrisse mais uma janela no tempo e a gente esperançasse novas fases.O certo é que a ideia de sistematizar o tempo é bobeira. Invenção de historiadores pra controlar o tempo, como se ele fosse controlável.
O mais divertido é estar com pessoas queridas, família, amigos, pessoas que estiveram com a gente em tantas situações e param tudo pra vir brindar, comemorar e trazer a alegria pra perto da gente.
Se em algum momento eu estava com medo dos cabelos brancos, hoje quero só a preocupação de viver plenamente.
Um brinde a vida!
sexta-feira, 17 de maio de 2024
EDUCAÇÃO INCLUSIVA EM TEMPOS DE PANDEMIA
Ana Paula FERREIRA
Christiane Ferreira Joaquim PEREIRA2
Giovana Carine LEITE3
Thaís Ronsini de CARVALHO 4
Trabalho apresentado na Jornada Científica e Tecnológica e Simpósio de Pós-Graduação do IFSULDEMINAS, 12ª Jornada Científica e Tecnológica do IFSULDEMINAS.
LINK: CLICAR AQUI
quinta-feira, 2 de maio de 2024
Carta ao meu pai
Você é terra.
Tem pessoa que é ar, outras água, algumas
fogo. Mas você sem sombra de dúvida é terra. E tal como a terra silenciosa, o
senhor era lacônico, de poucas palavras, de quem mais observava do que falava e
quando conversava nos dizia sobre o passado, as notícias da TV, a natureza, as
passagens da Bíblia.
O passado estava fincado no senhor que nem
a marca do arado na terra. Tinha o seu modo tradicional de vestir, sempre de
calça de Oxford, camisa e botina. Não se sentia bem em comprar algo enquanto o
objeto anterior não estivesse totalmente gasto e por mais que ganhasse roupas,
ficariam guardadas até que de fato julgasse justo usar. Foi de uma geração que
a “palavra dada não se volta atrás” e de uma inteligência prática de quem se põe
a resolver qualquer desafio sem precisar consultar Youtube.
Assim como a terra chegou antes dos outros
elementos, o senhor era extremamente pontual. A bem da verdade é que chegava
antes e daí que nossos ponteiros, viravam e mexiam estavam desajustados e eu
dificilmente conseguia acompanhar o seu tempo, que era o da natureza, de acordar com o nascer do sol e dormir também cedo. Nesse ritmo, assim que o senhor percebia que
estava com a bateria social baixa, voltava para seu refúgio, contemplando os
bichos e as plantas, afinal seu mundo estava ali, nas suas terras, pois o
senhor saiu da roça, mas a roça não saiu do senhor.
Não é sem razão que tudo o que plantava,
nascia, vigorava e a gente teve a benção de viver uma infância e adolescência
com comida diretamente da horta: chás, chuchu, couve, abóbora, mamão,
limão, maracujá, banana e tantos outros alimentos orgânicos. A facilidade de
plantar era a mesma que a de construir casas. Da terra eram erguidas suas
construções, na qual o senhor acompanhava a parte hidráulica, elétrica, de
alvenaria e o que era apenas esboço num papel, se transformava em quartos,
cozinha, quintal. Quando não plantou, construiu casas; quando não construiu
casas, vendeu sementes para as fazendas da região. Lembro que o senhor colocava
as sacas de braquiara no seu Chevette para fazer as entregas e depois, ao me
buscar na escola, eu muito tonta, ficava com vergonha ao ver o carro sujo. Com
o tempo que percebemos a bobeira quando tentamos apagar quem somos e da onde
viemos.
Essa vergonha não era vivida pelo senhor.
Era autêntico e sempre foi. Era firme nas convicções que nem a solidez da rocha.
Foi sempre terra até na pouca flexibilidade, na intransigência em fazer as
coisas do seu modo, na teimosia. Por ser terra, a gente que precisava se
aproximar do seu mundo de Jornal Nacional, de horário para ver o jogo de
futebol, da sua rotina. O senhor não se mobilizava. Mas ali estava para
qualquer coisa. Terra que era, sempre estava no mesmo lugar.
E a terra, que lhe era tão familiar, tudo
brotava, atraindo tucanos, papagaios e dezenas de outros pássaros que para lá
voavam. Em comparação, o interesse do senhor não era de voar, e não faltavam
convites de viagem ou de passeios. Enquanto seus irmãos iam para os Estados
Unidos o senhor me contava orgulhoso que nunca iria para lá.
Eu, em contrapartida, me sentia um pouco
que nem essas aves livres, que podiam conhecer tantas coisas e ao voltar,
trocariam as histórias pelo seu acolhimento. O senhor, por sua vez, tinha gosto
de apreciar a natureza que cresceu em meio ao concreto, e assim, mirar os
passarinhos retornando e partindo, retornando e partindo.
Difícil agora é retornar e não te ver. Difícil é saber se serei boa semeadora que nem o senhor foi... Aliás, na nossa última conversa, o senhor contou novamente a parábola do semeador e depois terminou dizendo “De que adianta jogar a semente na pedra? Precisamos saber onde semear”.
Muita coisa está germinando em minha alma
desde sua partida. Ficam os conselhos, as lembranças, faz morada a música
sertaneja que o senhor tanto gostava. Se antes o senhor chorava ao ouvir
“Travessia do Araguaia” porque lembrava do tio Zezé, hoje sou eu quem choro
pelo boi que morreu para dar passagem aos mais novos e fico na esperança que
nós, as gerações que precedem, possamos deixar a terra um local mais bonito
para se viver.
Obrigada, pai!
E não esquece que te amo.
Esse texto virou capítulo do livro "Cartas para meu pai" da Editora Literíssima, publicado em 2024.
Link para aquisição:
https://www.literissima.com.br/product-page/carta-parameu-pai
sábado, 27 de abril de 2024
Educação de gênero nas escolas
Começo com dois dados: Brasil é o 5º país em feminicídio e o
país que mais mata população LGBT no mundo. Diante disso, imaginemos o medo de assumir-se
gay, de ser rejeitado pela família, de apanhar na rua apenas por andar de mãos
dadas com quem se gosta. Imaginemos, uma de nós mulheres, morrer apenas por
sermos mulher. Por isso, é injusto quando tentam silenciar a escola de um
compromisso social e a acusam de praticar ideologia de gênero ou que deve
ensinar apenas o currículo propedêutico.
Escola não pratica ideologia de gênero. Até porque esse termo
foi empregado pela primeira vez pelo Papa João Paulo II em ataque aos
movimentos feministas, como se essas fossem avessas à ideia de família. Esse
conceito colou e qualquer trabalho que a escola faça de refletir os papéis
sociais entre homens ou mulheres, violência e desigualdade de gênero é compreendido
como uma afronta à liberdade dos pais na educação dos filhos, em discursos de
“meu filho, minhas regras”, sob entendimento de que filho é objeto, é posse, é
propriedade.
Escola é um espaço republicano e como tal preza pela
coletividade. A contribuição das famílias pode ocorrer no Projeto Político
Pedagógico, nas reuniões, nos Conselhos, Associação de Pais, mas não é no
berro, não é na intimidação, não é estigmatizando professores como
doutrinadores. Como espaço republicano a escola deve caminhar de mãos dadas com
a democracia e com o bem comum. Nesse sentido, o objetivo não é destruir a
heterossexualidade, mas sim da temática de identidade (não ideologia) de gênero
e orientação sexual não ser apagada.
Basta lembrar que no artigo 205 da Constituição Federal
deixa-se claro que a educação visa o desenvolvimento do sujeito, da sua cidadania
e qualificação para o trabalho. Como será o desenvolvimento do sujeito que não
se entende na sua sexualidade? Como ocorre o desenvolvimento da cidadania se há
permissividade com o desrespeito e com a violência contra pessoas que não
seguem o padrão heteronormativo?
Então, por lei, pela Constituição Federal, não há como a
escola dar apenas aula de Trigonometria, Química Orgânica ou Oração
Subordinada. Não venham nos falar que a questão de valores é atributo apenas
das famílias, pois se assim bastasse, não teríamos níveis abismais de morte de
mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. É necessário um trabalho em rede e pensar em
rede é extremamente orgânico e necessário para tratar de problemas sociais e a
escola, por sua vez, sendo um espaço privilegiado de socialização, tem sua
responsabilidade na formação de uma nova sociedade.
Como então a escola pode construir condições com vistas a
igualdade de gênero? Primeiro se abastecer de materiais de leitura, compreender
conceitos, tanto para lidar melhor com as juventudes (no plural para lembrarmos
da diversidade do que é ser jovem), como para construir o perfil republicano.
Reforço isso porque por mais que cada pessoa tenha a sua fé, seu modo de ver a
vida, na escola a perspectiva não é caseira, não é do quintal da nossa casa, é
no cumprimento de leis, na defesa dos Direitos Humanos, da coletividade, de
princípios basilares para se viver em sociedade.
E tendo em vista que a escola segue leis, que busquemos esse
respaldo legal. A Base Nacional Comum Curricular foi estrangulada na sua
redação com cortes das palavras “orientação sexual” e “identidade de gênero”. Por
outro lado, na Lei
de Diretrizes e Bases 9394/96, no seu artigo 26, tem-se o seguinte registro “Os currículos da
educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio devem ter base
nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e em
cada estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas
características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e dos
educandos”. Assim sendo, a escola, com base nas suas demandas locais, pode
sim incluir no seu currículo a discussão de assuntos que lhe façam sentido.
Como isso pode ser feito? Primeiro ponto é que não se resolve
com palestra. Palestra dificilmente deixa dever de casa, dificilmente tem um
caráter de um desenvolvimento contínuo. É o mesmo problema de falar sobre
feminismo apenas no 8 de março. Se a intenção é reverter a lógica de
desigualdade porque destinar apenas uma semana para falar da mulher e o
restante do ano contamos a história de generais, imperadores, escritores,
cientistas, todos eles homens cis, geralmente brancos e heterossexuais?
Docentes que querem subverter a lógica de opressão social, articulam pauta
classista, de gênero e de raça costurando com o currículo oficial. Isso é
possível! Vamos ensinar Estatística? Por que não interpretar gráficos que
representem a gritante violência de gênero? O conteúdo é Revolução Francesa? É
importante falar que no período que homens defendiam a ideia de liberdade,
fraternidade e igualdade, ironicamente guilhotinaram Olympe de Gouges porque
defendia direito das mulheres. O ensino será sobre a Revolução Russa? Precisamos
urgente enfatizar que uma das hipóteses da data 8 de março é porque as tecelãs
russas foram as ruas pedir por pão e justiça social em greve que antecedeu a
Revolução. O ensino é sobre a Segunda Guerra Mundial? Deixar às claras que
comunistas e homossexuais foram perseguidos, porque o fascismo mata esses dois
grupos.
Há inúmeras possibilidades de articulação curricular:
resgatar a importância de mulheres e população LGBT na ciência, na literatura,
no esporte; refletir sobre a linguagem estereotipada; em alimentação problematizar
os padrões estéticos e os danos à saúde. Contudo, além de compreensão de
conceitos por parte dos educadores, além de amparo na lei e de reorganização
curricular é fundamental a mudança do clima escolar. Há espaço acolhedor para
denúncias? Há campanhas de conscientização sobre as violências? Incentiva-se a
formação de coletivos juvenis, grêmios ou assembleias? É colocado em debate o
controle dos corpos, inclusive sobre a vestimenta estudantil, ou apenas a roupa
da menina que é censurada?
Os campos de concentração foram bem planejados por
engenheiros. Enfermeiras conseguiam cumprir tecnicamente seu papel no
extermínio de milhares de corpos. Médicos realizavam as tarefas médicas que
eram incumbidos pelos nazistas. Por isso, já salientava Adorno, que não basta
apropriação do conhecimento se nosso trabalho será para o apagamento, para a
violência, para o genocídio. Não há neutralidade na educação e nunca haverá e
se queremos uma sociedade longe do que foi Auschwitz, que nos repensemos,
enquanto profissionais e seres humanos.
Ana Paula Ferreira
Supervisora da rede estadual e
escritora
Texto publicado no Jornal da Cidade 27/04/2024
terça-feira, 2 de abril de 2024
Direito à educação: permanência na escola
A obrigatoriedade da oferta de ensino dos
4 anos aos 17 anos só ocorreu em 2009 e, portanto, percebe-se o quanto a
universalidade da oferta da Educação Infantil e do Ensino Médio ainda é um
desafio recente. Esse histórico excludente da educação brasileira está alinhado
ao modelo da nossa sociedade extremamente desigual em se tratando de classe
social, questão racial e de gênero. Aliás, o perfil do estudante que abandona a
escola sem terminar a escolaridade diz muito sobre isso.
De acordo com dados da Unicef de 2022,
quase 50% dos que evadiram, alegaram não frequentar a escola por motivo de
trabalho, 28% para cuidar de familiares, 14% por questão de gravidez na
adolescência, 18% devido a problemas com transporte. Já em relação a fatores pedagógicos
tem-se o percentual de 30% que relatou ter saído da escola porque não
conseguiam entender as explicações, o que é consubstanciado na pesquisa de Maria
Helena Patto em “A produção do fracasso escolar” quando pontua que a escola
cria um imaginário de “aluno ideal” e geralmente afasta o “aluno real”.
Primeiramente, há o impacto da opressão
pela classe social, pois trata-se de um grupo de crianças e jovens em situação
de maior vulnerabilidade social e que precisam contribuir na renda familiar. Somado
a isso, 58% dos jovens que não concluíram o Ensino Médio era masculina e quase
72% de pretos e pardos (PNAD, 2020).
Ora, se um dos grandes problemas elencados
é que boa parte dos estudantes para de estudar para trabalhar, é importante um
trabalho mais assertivo do Ministério Público, haja vista que ele também deve
garantir a permanência do direito à educação e essa ação não deve ser meramente
dogmático-normativo, no cumprimento da lei, mas de interlocução com a sociedade
na construção de políticas públicas. Deixo um exemplo. Em Poços de Caldas, por
ser uma cidade turística, conta com um grande número de hotéis, que contratam
jovens, muitas vezes sem carteira assinada e que cumprem um horário de trabalho
que excede as 8 horas. Qual a consequência? São jovens que saem tarde do
trabalho, ou precisam se ausentar das aulas nos dias de quinta e sexta-feira,
que acabam evadindo. Nesse sentido, Ministério Público, lideranças do Executivo
das redes de ensino municipal e estadual, juntamente com representantes dessas
empresas poderiam se reunir e buscar um alinhamento de modo que o direito a
educação não seja cerceado.
Contudo, num país tão marcado pelo
desemprego estrutural, há de se considerar que nem sempre os jovens estarão
empregados e a depender da situação da família, é importante que seja
acompanhada pelo CRAS para o recebimento de programas de transferência de
renda, que visam contribuir para que a pobreza não perpetue por gerações, diante
da falta da escolaridade. Esse ano inclusive, inicia-se o Programa Pé de Meia,
específico para estudantes do Ensino Médio, de modo a incentivar mediante
dinheiro depositado em poupança, que continuem na escola.
Outra instância fundamental na defesa da
permanência de crianças e adolescentes na escola é o Conselho Tutelar. Entretanto,
apresenta o imenso desafio de romper com o imaginário daqueles que o
compreendem como instância repressora e punitiva e que buscam afastar da escola
alunos que apresentam indisciplina ou transgressões. Nesse sentido, o Conselho
Tutelar pode se valer de uma presença maior nos espaços escolares no resguardo
do Estatuto da Criança e do Adolescente, para que ambas instituições reelaborem
medidas socioeducativas que contribuam para o desenvolvimento do sujeito.
E como a escola pode avançar no direito à
permanência? Primeiramente, traçando o diagnóstico de sua comunidade, item
fundamental que compõe o Projeto Político Pedagógico. Esse diagnóstico pode ser
elaborado através de formulário: quantos alunos trabalham? Quantos precisam
cuidar de familiares? Qual a renda familiar? Precisam de transporte público? E
tantas outras questões que a equipe de professores juntamente com a supervisão
pedagógica podem elaborar. Além disso, pode-se também encaminhar ofícios aos
órgãos que atendem a mesma comunidade para se ter dados dessa realidade social:
quantidade de jovens encaminhados nos últimos anos por relação com o tráfico,
número de jovens grávidas na adolescência, número de alunos atendidos pelo Bolsa
Família, etc. etc.
Assim, com base nesse levantamento é
possível a escola se repensar, seja em parcerias maiores com o CRAS,
encaminhando solicitações de transporte, mudando o currículo, organizando
momentos de reforço escolar, incentivando a criação de grêmios e coletivos
estudantis de modo a ampliar o debate e a participação na defesa dos Direitos
Humanos e sobretudo: apostar no aluno! Que esse estudante perceba que tem
apoio, que consiga estabelecer vínculos com as pessoas e com o espaço, pois
pessoas que estabelecem vínculos dificilmente se afastam. E, se por acaso não
houver a permanência estudantil, reflitamos em que parte houve a falha da
sociedade ou do Estado, ao ponto desse abandono não ter sido meramente do
sujeito, mas dele ter sido abandonado praticamente a própria sorte.
Ana Paula Ferreira
Supervisora da
rede estadual