De três em três anos mudam-se os livros didáticos nas escolas. Isso possibilita esse material a todos os alunos em todos os municípios do Brasil. Os professores olham vários livros de diversas editoras e se decidem por aqueles que mais cabem à filosofia de ensino da instituição e do currículo. O custo disso é extraordinário aos cofres públicos e sem questionar a importância, é interessante pensar o porquê se destina tanta verba para compra de livros e tão pouco em relação ao defasado salário docente.
De acordo com Torres (2000) essa
preferência pelos livros didáticos faz parte da política neoliberal ditada pelo
Banco Mundial aos países em desenvolvimento. A justificativa é que menos
oneroso o investimento em livros didáticos no comparativo ao aumento salarial
de professores e que o texto escolar condensa conteúdos e atividades capazes de
orientar alunos e docentes.
Nota-se, portanto, a legitimação do
discurso como se o professor fosse mero executor de um conteúdo programático,
retirando seu papel de intelectual.
Se considerarmos que a escola é um
espaço de transformação do indivíduo e da realidade, é primordial que profissionais
da educação sejam também transformadores. Mudança significa liberdade de
escolher outro modelo e coragem de executar e é ilógico pensar em paradigmas
diferenciados quando se segue o discurso hegemônico. Sem dúvida, seguir o que
já vem hierarquicamente estipulado é o caminho mais fácil. O texto, os
exercícios para contemplarem determinado conteúdo, as sugestões de produção de
texto ... tudo já vem escolhido de
antemão. Contudo, o uso do livro didático deve ser apenas mais um mecanismo
para possibilitar a educação, mas não o principal.
Sabemos
que cada turma tem suas peculiaridades, porém movimentamos nossa metodologia na
mesma orientação de turmas anteriores. Defendemos que as aulas devem ser
dialógicas e que o conhecimento do aluno deve ser valorizado, mas nas aulas
ostentamos a cultura erudita e nos esquecemos da cultura popular, como se
subliminarmente disséssemos aos nossos alunos que a cultura da elite é mais
importante. Criticamos pais que tem inúmeros filhos, pela falta de planejamento
familiar, mas esquecemos de fazer o nosso planejamento educacional. Apontamos o
problema de crianças que não leem, mas preocupamos com o último episódio da
novela, deixando o livro apenas na cabeceira.
A prática docente está recheada de
incoerências com os nossos discursos. A aliança entre prática e teoria é uma
consequência de estudo e reflexão, onde se percebe que o homo faber se alia do homo
sapiens.
Sendo o objetivo de muitos educadores, uma
prática educativa libertadora, o professor também tem que se sentir como
sujeito do processo educativo, criando e recriando, mediante pesquisa, análise
reflexiva e troca de experiências. Como bem dizia o mestre Paulo Freire: “Por isso é que, formação permanente dos
professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática. É
pensando criticamente a prática de hoje ou de ontem que se pode melhorar a
próxima prática.” (2009:39)
Buscando essa reflexão sobre a prática
que vem a razão de existir desse blog. Que ele sirva como um mecanismo de
diálogo entre educadores que querem repensar a educação, as metodologias, a
avaliação, os conteúdos.
Por isso, sejam bem-vindos!
Professora Ana Paula Ferreira
Fevereiro/ 2013